Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

O Homem Sem Memória - 101

 

101 – E o equívoco foi desfeito em muito pouco tempo, pois, pelos vistos, havia interesse manifesto de ambas as partes.


O tenente disse ao José que estava livre desde aquele preciso momento. E que a sua prisão, podendo não ser bem entendida pelo próprio, tinha mesmo uma explicação plausível e bem diferente daquela que podia parecer à primeira vista.


A princípio foi preso, como toda a cidade sabia, por desacatos, ofensa à moral pública e embriaguez, mas a segunda prisão foi motivada por uma outra razão. Aparentemente ela ficou a dever-se à provocação feita às autoridades civis, militares e religiosas. Mas isso foi aparentemente. Por detrás dessa detenção existiu o firme propósito de não o deixar cair nas garras da polícia política, que já o vigiava bem de perto.


A princípio, o tenente Sampaio não foi muito sensível às petições feitas pelo sargento, a mando dos progenitores do José. Não estava para ali virado. Mais a mais, o rapazola era um provocador sem tino, sem norte, sem educação nem respeito pelas autoridades. Era um jovem dissoluto que não merecia qualquer tipo de apoio ou condescendência.


Mas a amizade e o espírito de corpo falou mais alto. A GNR é como uma família onde todos se apoiam, especialmente quando estão em causa os familiares mais próximos.


O filho de um elemento da GNR cair nas garras da PIDE/DGS, além de uma derrota, era um pretexto para os elementos da polícia política se poderem vingar de uma força policial que frequentemente amesquinhavam e da qual gostavam de troçar. Ora se apanhassem o filho de um agente da ordem detido por estar ao serviço da subversão e dos comunistas, espremiam-no como um limão até confessar que tinha sido ele quem sabotou a cadeira que vitimou Salazar.


Por isso tinha estado detido no posto da GNR, onde os sanguinários agentes da PIDE/DGS tinham dificuldade em se aproximar. Porque, além do mais, o tenente Sampaio também tinha os seus contactos e a sua influência. E nestas coisas da ordem e da lei, nem tudo o que parece é. Por debaixo da farda de um oficial da GNR também bate um coração sensível.


O José tudo isto ouviu com a maior calma do mundo. Tinha chegado à conclusão de que vida melhor do que aquela ia ser muito difícil de arranjar. Comer bem e a horas, ler sem horário e sem limitações e dormir sem contemplações, não estava ao alcance de qualquer um. Claro que estar encerrado dias a fio dentro de quatro paredes e ver o sol aos quadradinhos também tinha os seus inconvenientes. Por isso, limitou-se a ouvir o que o tenente Sampaio tinha para lhe contar e a acenar com a cabeça sempre que lhe era exigida uma resposta ou solicitado algum auxílio para ir mantendo a conversa.


No entanto uma pergunta pertinente foi feita ao senhor tenente por parte do José. Por que é que ia ser libertado, se nada do cenário traçado se tinha alterado? A PIDE/DGS podia prendê-lo mal soubesse da sua libertação e todo o esforço feito na sua proteção e encobrimento teria sido inútil.


O oficial da GNR concordou com a pertinência da questão, mas pouco mais adiantou. Disse-lhe que mantê-lo preso dali para a frente podia colocar em causa o seu emprego, a sua sobrevivência e a segurança e o bem estar da sua família. “E porquê?”, tornou a insistir o José.


“Não te posso adiantar muito mais, mas devo avisar-te de que algo vai acontecer no país que o porá de pantanas”, adiantou com alguma tristeza e outra tanta insatisfação, o tenente Sampaio.


“A ser assim, o que para si poderá ser uma má notícia, para mim, com toda a certeza, é uma ótima novidade”, rejubilou o José.


“Olha, José, o que aqui te disse deve ficar apenas entre nós. Na política, existem muitas realidades e distintas verdades. Todas elas passíveis de triunfar ou de serem derrotadas. Nada nesta vida é definitivo. De certo só temos a morte. O resto é ir vivendo cada dia como se fosse o último. E amanhã logo se verá. Hoje eu por ti, amanhã tu por mim. E o que vier será.


Quando ambos olharam através dos vidros da janela do gabinete do tenente Sampaio para o Jardim das Freiras, repararam que os varredores já tinham limpo meia praça e que não tardaria a amanhecer. O Brunheiro ainda era uma mancha escura no horizonte e os pássaros começavam a agitar as suas asas voando de árvore em árvore.


“Não sei se está a acabar a noite se está a nascer o dia?”, perguntou distraidamente o tenente Sampaio. “Para o caso tanto faz”, disse por dizer o José. “Tanto faz não”, teimou o GNR. E declarou: “Neste caso faz toda a diferença.” “Como assim?”, tornou a inquietar-se o José. Desta vez, o tenente Sampaio clarificou: “É que se for a noite que esteja a terminar, convido-te para beber um whisky irlandês e fumarmos uns charutos cubanos que tenho ali guardados no armário. Mas se já estiver a amanhecer, apenas te posso convidar a irmos à Pensão Império tomar o pequeno-almoço. Cabe-te a ti decidir. Hoje já estou por tudo.”


Naquele preciso momento, os primeiros raios de sol começaram a colorir o cocuruto da serra. Quase de imediato, o José levantou-se da cadeira, que até ali tinha sabiamente aquecido e, num gesto decidido, fechou as portadas das janelas. “A noite dura o tempo que um homem quiser”, disse olhando sorridente o rosto impassível do oficial da GNR. “O alvorecer chegará quando for o seu tempo.”


O tenente Sampaio dirigiu-se ao esconderijo e dele tirou a bebida e o tabaco. De seguida pegou em dois generosos copos de vidro e meou-os de aguardente irlandesa. Por estar alegre, o José lembrou-se de que o guarda Arménio também era homem para apreciar beber um pouco de whisky e predispôs-se a ir convidá-lo. Mas o tenente da GNR lembrou-lhe que, apesar do prometido alvorecer da liberdade, que, diziam, podia estar a caminho, a noite ainda estava por sua conta. E não havia tradição das elites, mesmo que provincianas, partilharem os seus momentos de reflexão e intimidade, com o povo, mesmo que fardado.


“Vai-te habituando. A situação de quem manda é sempre diferente daquela de quem é mandado. Sempre.”


E para ali ficaram a beberricar e a fumaçar os seus charutos com muita propriedade e estilo. Depois despediram-se como dois respeitáveis inimigos e cada um foi à sua vida. 


publicado por João Madureira às 07:00
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