Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

Da expetativa ao imobilismo (II) – Saudades do futuro

 

E de novo volto à putativa “década de progresso” da gestão do PSD, e de João Batista (ou melhor será dizer, da sua fação partidária alargada aos neutros e aos que estão sempre com quem vence), com a vontade do costume. Viver numa cidade de província tem destas coisas, por mais voltas que possamos dar, voltamos sempre ao local da desavença.

 

Entendamo-nos, dizer meias verdades é ainda pior do que mentir, porque nos fundamentamos no parecer (não no ser), porque confiamos nas aparências, porque persistimos no embuste, tingindo-o com o manto diáfano das palavras que não correspondem aos factos. E na apresentação (encenação?) da sua “façanha” à frente do município, João Batista, apesar de não mentir, também não falou verdade. Ou não contou a verdade necessária.

 

Encheu as páginas dos jornais (eu sei, eu sei, e o seu vice também o sabe, não há almoços grátis, estamos aqui, estamos lá, eu sei, eu sei) com palavras bonitas, politicamente corretas, agradáveis de ouvir, fáceis de dizer, mas que falam de uma outra coisa, a ficção política. Podíamos aqui falar das tão propaladas cem obras realizadas e das quinze que afirma querer ver concluídas até ao final do seu mandato. Podíamos, mas fica para a semana que vem. Cada coisa a seu tempo.

 

Desta vez quero referir-me, sobretudo, à demagogia com que elaborou o seu discurso. A determinado momento afirmou: “O desenvolvimento constrói-se em bases sólidas tendo como pilares fundamentais as pessoas, o território, a criação de condições para o desenvolvimento de atividades económicas e a cooperação.” Lembrando que esse foi o seu “rumo claro” e a “sua matriz explícita” nos dez anos da sua gestão. São bonitas de ouvir, tais palavras, e ficam bem a quem as profere, mas, infelizmente, senhor presidente, não correspondem à verdade.

 

A verdade é que a população do nosso concelho diminuiu durante os últimos dez anos, o que retira de imediato toda a solidez ao seu argumento. Se as pessoas foram embora é porque aqui não lhes foram criadas as condições necessárias e suficientes para conseguirem viver com a dignidade indispensável. Por isso rumaram a outras terras, porque esta onde nasceram passou a ser-lhes madrasta. Não lhes proporciona emprego, não lhes fornece a educação superior necessária, não lhes dá espaço para criarem família, para se divertirem com qualidade, para se cultivarem com regularidade e para viverem com esperança no futuro. Por isso migram, abandonando pais e mães, amigos, terras e casas. Antigamente ainda iam e voltavam. Agora vão e não voltam mais. Só uns dias nas férias e um que outro nas quadras festivas.

 

Ou seja, o tal desenvolvimento de que se orgulha assim tanto não existiu, o território ficou mais desertificado e as atividades económicas são hoje um arremedo do que já foram. Por exemplo, apesar de ter construído o parque industrial de Outeiro Seco, que custou uma fortuna e se encontra literalmente às moscas, servindo quase exclusivamente para os mais novos irem praticar o arremesso livre com pedras, por lá não se instalaram novas indústrias, nem no nosso concelho emergiu qualquer atividade económica digna de registo. E sem atividade económica não há emprego e sem emprego não há salário e sem salário não há pão, nem casa, nem roupa, nem educação, nem família. E sem família não há crianças e sem crianças não existe futuro. É por isso que Chaves expira a cada ano que passa. É por isso que os campos estão abandonados, as casas desertas e os caminhos cheios de ervas. É por isso que nas aldeias só vemos pessoas idosas, galinhas e cães. É por isso que temos que mudar de rumo. É por isso que temos de mudar de vida.

 

Para lhe ser sincero, relativamente à cooperação não faço a mínima ideia ao que se quer referir. Só vislumbro uma única possibilidade: a Eurocidade, mas essa é uma outra ficção que será desmontada a seu tempo.

 

Pensei que o senhor presidente ia falar no comércio local, que diz defender mas que abandonou à sua sorte. Basta subir a rua Direita e descer rua de Santo António para nos inteirarmos do seu lento definhar. O comércio local, uma das principais riquezas da nossa textura urbana, está tão anémico que até dói. As lojas mudam de mãos, e de atividade, a um ritmo frenético, sugerindo falência atrás de falência. Isto apesar de muitos dos proprietários, ou arrendatários, gastarem aquilo que têm e não têm em obras de remodelação que se revelam uma aposta ruinosa. Falta-lhes apoio, falta-lhes incentivo, falta-lhes dinâmica. As pessoas preferem as grandes superfícies. E se calhar a Câmara também não vê grande mal nisso.

 

É relevante que, por se sentirem sós e abandonados, muitos dos mais dinâmicos comerciantes, proprietários e locatários do coração da nossa cidade, sentindo que a autarquia os abandonou, se tenham unido e criado uma associação para combaterem a desertificação e o abandono a que estão sujeitos. E fizeram-no porque amam Chaves. Porque foram aqui nados e criados, porque é aqui que vivem e é aqui que querem continuar a viver. E já que a autarquia, como bem dizem os flavienses, não lhes “bota uma mão”, são os próprios a pôr mãos à obra e a tentar dinamizar uma parte da cidade que, apesar de histórica, se vê abandonada. E as noites por ali são muito difíceis de passar.

 

Por ali trafica-se droga em quantidades assinaláveis e a prostituição é uma dura realidade. Uma realidade que envolve mulheres emigrantes que se prostituem à luz de velas em quartos abandonados, em casas de madeira, mesmo ali perto da Igreja Matriz e a uma ou duas centenas de metros da Câmara Municipal. Só que isso acontece durante a noite e, à noite, o centro da cidade transforma-se num bairro abandonado à sua sorte e à sua desgraça. Enquanto os mais jovens se tentam abstrair da dura realidade em que vivem consumindo álcool e outras substâncias bem mais tóxicas, as pobres mulheres latino-americanas, ou do Leste europeu, satisfazem as carências afetivas de adultos solitários.

 

Apesar da dura realidade, que causa incómodos e transtornos a quem continua teimosamente a fazer do centro da cidade o seu local de trabalho e residência, a autarquia faz olhos cegos perante a triste realidade e varre o lixo para debaixo do tapete. Sei de proprietários que estão na disponibilidade de cederem espaços habitacionais gratuitamente a associações recreativas e culturais para tentar criar um tipo de ambiente mais saudável que expulse dali os drogados, os traficantes e as prostitutas, para que a degradação não se torne endémica e atinja o ponto sem retorno.

 

João Batista, na cerimónia de propaganda servida aos jornalistas, refere que o balanço da sua “década de progresso” é positivo. E afirmou que “pretende ser lembrado pela obra feita e pelo que ela representa para o bem geral dos cidadãos”.

 

Mais uma vez lamentamos dizer-lho, mas o balanço da sua “década”, apesar das suas boas intenções, não é positivo. É, pelo contrário, negativo. E não sou eu que o afirmo, são as pessoas que foram obrigadas a ir-se embora do nosso concelho, muitas das vezes com o coração apertado e as lágrimas nos olhos, que o evidenciam e o confirmam. E, que eu saiba, ninguém abandona uma cidade em progresso. O contrário é que é verdadeiro. 

 

Depois, tentando confundir desejos com a realidade, diz que a “sua” equipa “funciona independentemente de quem está à frente”, porque estão “cheios de entusiasmo”. Para já, perdoe-me que lhe diga, mas não tem equipa, e, muito menos, entusiasmo. Se é que algum dia os teve. Todos sabemos que já passou o testemunho ao vice camarário, mas o senhor presidente também sabe que o seu segundo nunca fez verdadeiramente parte da sua equipa.

 

O António fez sempre parte da equipa do António. E o senhor tentou sempre fazer que não via a realidade. Mas todos sabemos que pior cego é aquele que não quer ver. E sempre lhe digo que com a cretinice feita em relação às chefias na Câmara, que penso que ainda preside, o senhor não se vai embora sem que a água lhe dê pela barba, desculpe, pelo bigode. Hoje o poder não se compadece com os Pilatos de trazer por casa. E o povo não lhes perdoa desde tempos imemoriais. E o senhor presidente sabe disso melhor do que eu.

 

Antes de terminar, por hoje, deixe que me refira a uma coisa que, depois de lida e pensada, me inquietou. Por me preocupar com a ideologia e por prestar atenção às definições, reconheço que fiquei de boca aberta quando, a determinada altura, destacou, relativamente aos seus dez anos de “progresso”, “uma matriz social-democrata inequívoca” (até aqui cheguei, mas quando fez o enunciado é que me fui abaixo do entendimento): “Realismo na ambição, pragmatismo e humanismo na gestão.” Então esta é que é a sua matriz social-democrata? Raios parta, mas esta matriz é a de qualquer um, seja ele social-democrata, democrata-cristão, socialista, comunista, fadista, taxista, bancário, jogador de golfe ou filósofo da treta.

 

Mas deixemo-nos de perifrásticas, como muito bem diz o povo que quer passar por erudito, e vamos tentar finalizar esta crónica da melhor maneira possível, pois tristezas não pagam dívidas, nem desfazem dúvidas.

 

Perdoe-me, mas razão tem Francisco Taveira, quando na sua análise da situação política, feita no mesmo local e à mesma hora, disse sem papas na língua: “Há vida para além dos problemas financeiros e económicos. Falharam os economistas, agora é preciso dar lugar aos psicólogos, aos filósofos e aos poetas, pois é preciso trazer novamente alegria para a política.”

 

Desde já afirmo que estou inteiramente de acordo com o seu antigo vereador. Realçando, talvez, a necessidade de dar lugar aos poetas. Mas, senhor presidente, o seu vice não encaixa na definição apresentada. Além disso, a política, a necessitar de alegria, com o seu vice vou ali e já venho. Sisudo como é, encaixa melhor no perfil marcial. E a política autárquica democrática entregue a um autocrata é uma aberração.

 

O poeta Manuel António Pina diz que há muitos bons poetas em Portugal, mas do que nós estamos precisados não é de bons poetas, é de boas pessoas. Pois o seu vice, não sendo poeta, podia até ser boa pessoa. Mas nem mesmo assim consegue, por muito que tente, encaixar no figurino, pois quem o conhece sabe do seu instinto persecutório, da sua arrogância institucional, do seu caráter belicoso, da sua ânsia de poder, da sua manifesta prepotência que o levou a destituir e despromover técnicos superiores da Câmara, com provas dadas desde há muitos anos, leais à sua independência, rigorosos nos seus princípios e competentes no seu serviço.

 

Mas, o que todos sabemos é que vice-presidentes já passaram pela Câmara uns quantos, enquanto os técnicos que o seu vice destituiu aí vão permanecer até ao fim das suas carreiras, dando o melhor de si com o firme propósito de servir o município e os seus munícipes. E, estou em crer, não se importarão muito quando virem o António sair, rodeado pelos seus compinchas a quem agora arranjou os tachos, pelo portão gradeado com o rabo entre as pernas para não mais entrar. 

 

Por isso é que eu, e muitos outros como eu, já estamos com saudades do futuro. Então, até lá. E que a sabedoria nos acuda e a paciência não nos abandone. 


publicado por João Madureira às 07:00
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1 comentário:
De anónimo a 13 de Fevereiro de 2012 às 22:23
Belo texto. Bem pensado, estruturado e superiormente passado a pena. É elucidativo sobre o cenário cinzento que se vive em chaves, como o nevoeiro que nestas alturas nos visita. Cinzento como as figuras que habitam a casa grande, especialmente os primeiros boss. Um já não governa, concordo. O outro com a sede do poder, não olha a meios, utilizando todo o tipo de estratégias para os seus objectivos. Mas povo de Chaves. Ele é tão pequenino, em tudo, no corpo e na alma, mas é maroto, vingativo, mordaz. Gente que não presta. Fica-lhe mesmo bem a nomeada: PAVÃO DE CASTELÕES. Isso mesmo, um merdas, um zé ninguém. Que Deus lhe perdoe, pois vai ser o causador da viradeira em 2013


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