Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

O Poema Infinito (88): o voo, a canção e o grito

 

Andam canções estranhas no ar. Canções que começam pelo fim. Canções que são rostos de desilusão. Canções pungentes com gritos dentro. Canções com sons agudos de sexo. Canções de dedos e pensamentos de véspera. Canções de ausência e desânimo. Canções frias. Canções de fronteira. Ao fundo uma paisagem abre-se como um fruto maduro, uma paisagem veementemente incompleta empolgada pelo sonho extenuante dos criadores. No seu centro está o núcleo mágico do silêncio e dentro dele encontra-se o livro da vida e da fala. Todo o tempo foi destruído. Todo. E dentro da sua ausência Deus vive agora o tempo obscuro do esquecimento e da morte. No sítio por onde ele desapareceu chove continuamente uma chuva de palavras loucas. Nos teus olhos vê-se agora um fogo que anda. Grandes letras saem-nos da boca e enchem as folhas de poemas resplandecentes. E a memória avança. A memória das árvores e da neve e dos pássaros mortos pelo frio. Toda a natureza é uma máquina de força. Daí entrarmos nela a uma velocidade de silêncio e espanto. Corremos pela noite dentro como crianças feéricas. E lembramo-nos das estrelas e elas aparecem brevemente no céu. E as portas abrem-se como magnólias expostas ao tempo. E as ruas estão repletas de palavras que caçam nomes e os nomes dizem que os sonhos cantam linhas agudas e cidades inundadas de gritos e de viagens e de parêntesis de amor e de vírgulas desoladas pelo tamanho dos textos. A terra irada enche-se de silvas e deixa-se vencer pelo lirismo molhado da tristeza. E grita.  E grita de revolta por todas as naturezas mortas dos pintores. E grita pela destruição das aldeias quietas. E grita pela morte dos caminhos. E grita pelos poemas mudos dos poetas cegos. E grita pelo incêndio das searas obsessivas. E grita pelo enigma da eternidade. E grita pelo imprevisto silêncio dos cantores. E grita ainda pelo sol, pelos frutos, pelas crianças, pela água, pelo leite e pelo turbilhão dos dias. E a terra sente por fim que as palavras se elevam iluminadas por uma estranha tristeza divina. E só agora a minha boca pousa sobre a tua inspirada pelo voo melancólico dos melros. 


publicado por João Madureira às 07:00
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1 comentário:
De Sayuri a 25 de Fevereiro de 2012 às 15:58
Está muito bom, gostei bastante, tanto desta publicação como das outras.


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