Quarta-feira, 7 de Março de 2012

O Poema Infinito (90): a civilização dos colecionadores de rolhas de plástico

 

Os homens teimam em impor aos outros homens a abundância fria da caridade mostrando-lhes as prateleiras e as bancas calandradas dos supermercados repletas de peixe de aquacultura e de limões duplos de acidez querendo dessa forma fazer dos poemas frigoríficos de palavras leves e acéticas onde o duplo silêncio da economia e do mercado capitalista enche os catálogos com a elegância gelada da miséria em repouso dos novos pobres e as donas de casa atrevem-se a conservar os nervos no mais íntimo das suas bocas retraídas de gritos mudos e secos enquanto os anúncios dos produtos íntimos femininos vomitados pelas televisões generalistas chegam e sobram para fazer agonizar o prazer e o desejo dos corpos lisos e brancos de leite e tudo isto se passa enquanto os gordos se sentam à mesa colados ao seu apetite e à sua emoção feita de carne e de estômagos barrocos enquanto pensam no pranto em que se funda a glorificação ocidental da verdura vegetal da solidão enquanto os magros levitam no seu riso frio e enquanto as crianças correm empanturradas de açúcar e brinquedos que são quase sempre máquinas estúpidas de violência e sordidez e as avós rezam orações baças que mais não são que frases fofas e melancólicas e assim se sentem os livros pesados nas prateleiras da sua virgindade e da sua função de preencher espaços nas estantes e de dar um ar culto ao escritório dos néscios que não os leem e nem para eles olham e as suas camadas de inutilidade enchem este mundo de ignorância e espanto deixando todo o espaço vital aos frívolos que temem o mundo da cultura e por isso a glorificam com palavras doiradas de falsidade e o tempo da desgraça distribui vingança e nervos por isso todos funcionamos a antidepressivos que já se tomam em forma de pastilha elástica que nos metamorfoseiam em corpos mastigados pela fadiga sofrida dos sorrisos de circunstância e a todos nos dói a cabeça por causa dos perfumes que todos usamos para cheirarmos o silêncio da nossa vacuidade e da nossa indecifrável vontade de indiferenciação e entretemo-nos a olhar para pinturas parvas e a anoitecer manhãs e a disfarçar os corpos obesos e enrugados dentro de roupas apertadas e falsamente aprazíveis e bendizemos a hipocrisia e glorificamos a inutilidade e enaltecemos a mediocridade e exaltamos os deuses que são catatuas falantes e dizemos que gostamos de ler aquilo que não lemos e de amar aquilo que não amamos e de respeitar aquilo que não respeitamos e de defender aquilo em que não acreditamos e embarcamos sempre no mesmo fado da saudade e lá vamos cantando e rindo levados sempre levados e levados sim pelos outros que nos repartem como animais domésticos pelos retábulos patéticos desta sociedade que nos dizem civilizada por isso procuramos sentar-nos à mesa como crianças que são crianças porque têm lábios de crianças ao mesmo tempo obesas e famintas que anseiam sentar-se à mesa para comer rapidamente enquanto engolem com os olhos a publicidade à guerra entre civilizações como se tudo não passasse de um videojogo oferecido pelo papá e pela mamã e pela vovó e pelo vovô enquanto o nosso querido líder nos diz que ganhámos mais um troféu por termos conseguido vencer o concurso de rolhas de garrafas de plástico…


publicado por João Madureira às 07:00
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