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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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02
Abr12

Da expetativa ao imobilismo (IX): insensibilidade e mau senso

João Madureira

 

Eu começo logo o dia da pior maneira possível: lendo as capas dos jornais na banca do SAPO. E não há dia em que o Correio da Manhã não ressuscite uma velha notícia onde o engenheiro Sócrates não apareça referenciado. De facto parece que o bombo da festa de Vilar de Maçada tem o condão de tudo explicar, tudo justificar e tudo desculpabilizar a este novo Governo e a esta nova maioria.

 

É o desporto do momento: o tiro ao alvo chamado Sócrates. Falam da enorme dívida. Mas manda a verdade que se diga que a oposição da altura nunca exigiu menos investimento na educação, na saúde, na economia, na cultura, nas reformas ou nas autarquias. A maioria das vezes até dizia que o dinheiro era pouco.

 

Atualmente o nome do ex-primeiro-ministro é o íman que atrai todos os males do país, toda a sujidade, toda a adversidade. Sócrates explica tudo. Depois da desgraça da manhã, aí por volta das treze horas, outra começa quando se assiste ao telejornal. Desgraça que se prolonga para a edição da noite nos vários canais generalistas, nomeadamente a RTP, que aqui cito porque é paga com o dinheiro dos nossos impostos e por isso tem a obrigação de prestar serviço público de qualidade. Mas é o prestas. Ali as notícias preferenciais são os homicídios, acidentes e assaltos. Então se incluir mortos o espetáculo está servido.

 

Isto acontece durante a semana. Ao sábado o desperdício é ainda maior, pois compro vários jornais e revistas que servem, sobretudo, para aumentar a minha angústia existencial, como se ela não fosse já enorme. Por isso tento sorrir por cima da desgraça.

 

No Expresso vem a notícia de que são preciosos três juízes para julgar um roubo de um euro e sessenta cêntimos. Ainda na capa do mesmo semanário, Álvaro Santos Pereira pergunta: “Se eu fosse um ministro fraco, incomodaria tanto?”. Ora isto nem sequer é patético. É, sobretudo, anedótico.

 

Fico ainda a saber que o inenarrável Santana Lopes, sentado ao piano, “rejeita Lisboa mas está à espreita de Belém”, por isso já anunciou que vai escrever um livro sobre as eleições presidenciais. Para que não haja surpresas de última hora, o homem que já foi tudo dentro do PSD, diz-se admirador de… Mário Soares. Mas passo a citar, por causa das dúvidas: “A minha inspiração é o dr. Mário Soares.” Tento sorrir, mas como não tenho espelho por perto, não sei como é que me sai a tentativa.

 

Parece que quando o correram do Governo, foi aprender piano. Dizem na minha terra que burro velho não aprende línguas, mas pelos vistos pode aprender a tocar piano. Tento sorrir de novo, mas não sei como me sai esta segunda tentativa, pela mesma razão apresentada anteriormente. Concluo que tenho de rir para não chorar.

 

Já cansado do esforço, viro-me para os jornais regionais, mas ó desgraça das desgraças, desta vez nem uma única notícia trazem sobre a câmara de Chaves. Parece que os seus principais líderes se esgotaram por dentro da propaganda manca e atabalhoada das últimas semanas. Mas não é por causa disso que os estimados leitores ficarão em branco acerca do município e da sua atividade frenética. Era o que mais faltava. Por isso peguei em dois ou três jornais das semanas anteriores e fui respigar mais algumas notícias, ou pseudonotícias, relacionados com o nosso querido e estimado município. E fez-se logo luz.

 

Leio que a câmara flaviense substituiu cerca de 70 candeeiros no Centro Histórico. Parece que tiveram o condão de não agradarem nem a gregos nem a troianos, mas também a quem é que isso interessa. À Câmara desde logo que não.

 

O presidente da Câmara, posto perante o problema, explicou que se “aproveitou para substituir os candeeiros na totalidade porque economicamente é extremamente favorável à Câmara”, por causa dos subsídios. Parece que o regabofe continua. Gasta-se dinheiro para substituir uns candeeiros em muito bom estado por uns novos apenas porque há subsídios. E quem dá os subsídios? É a história da pescadinha de rabo na boca.

 

O dinheiro para estes projetos, com ou sem subsídios, vem sempre de algum lado, alguém paga a fatura. Ora adivinhem lá quem é? Por isso é que nos cortaram nos ordenados, nos subsídios de férias e de Natal, nos aumentaram os impostos diretos e indiretos, o IVA, a água, a luz, o pão, a carne, o peixe, o leite, a fruta, a eletricidade, a gasolina, etc. No entanto as autarquias portuguesas decidem continuar a deitar dinheiro à rua, continuam a gastar como ricos, quando estamos na penúria.

 

É a mesma coisa que quando queremos substituir uma lâmpada de um candeeiro lá de casa, mesmo que das económicas, e em vez de comprar apenas a lâmpada, compramos também o candeeiro com a desculpa de que temos desconto em cartão se o adquirirmos porque está em promoção. Mas se apenas necessitamos de uma lâmpada por que razão compramos o candeeiro? É apenas uma questão de economia. São os pequenos gestos que definem as grandes decisões.

 

E querem ver como estas coisas estão sempre ligadas umas com as outras. Leio também nos jornais que a dívida total da Câmara Municipal de Chaves, em 2010, era de 45 milhões de euros. Uma pipa de massa. Ou seja, o nosso município está atolado em dívidas. E a gastar dinheiro desta forma, caminha a passos largos para a insolvência. Além disso tem-se mostrado incapaz de executar receita cobrada que a aproxime do previsto no orçamento.

 

Segundo João Batista, estes enormes e preocupantes valores da dívida resultam de um forte investimento em obras no concelho onde se “deu prioridade às obras comparticipadas no sentido de aproveitar os fundos que estavam disponíveis, o que exigiu da autarquia um avolumado investimento”.

 

Pois é, vai-se atrás das obras comparticipadas e acabamos todos ainda pior do que estávamos, mais endividados e com os espaços intervencionados com qualidade inferior ao que eram. Para isso o melhor era terem ficados quietos. Para que raio gastaram rios de dinheiro a destruir o Jardim das Freiras e o Jardim Público, se esses espaços públicos ficaram pior? Porque levantaram o empedrado a Rua de Santo António para ficar substancialmente na mesma? Porque compraram aquelas feiíssimas cestas de plástico que resolveram despejar em cima dos passeios da mesma rua? Pois porque não sabem o que fazem. Não sabem o que fazem nem sabem o que dizem.

 

Senão vejamos. O senhor presidente da autarquia flaviense diz na mesma notícia, com o seu sorriso característico, que a dívida em 2011 até desceu cerca de 5 milhões de euros. E diz ainda mais, “que a realidade atual é diferente”. Mas com a dívida a cair, paradoxalmente, a Câmara por si gerida, para encontrar disponibilidade financeira, vai vender os ativos que detém na empresa Empreendimentos Hidroelétricos do Alto Tâmega. Então agora que começa a baixar a dívida é que vai vender os anéis.

 

João Batista justifica-se com esta operação “por ser, do ponto de vista económico, a melhor opção”, pois permite não parar as obras em curso. Ora aí é que bate o ponto. Vende a joia da coroa, a HEATB, para preparar as eleições para o António Cabeleira. Ou seja, a propaganda eleitoral do vice camarário vai custar aos munícipes flavienses a alienação dos pouquíssimos ativos que davam dinheiro à autarquia. Com a desculpa das obras, das tais obras que não adiantam rigorosamente nada para o nosso futuro, vão gastar 7 milhões de euros para encher ainda mais a cidade de betão armado e alumínio.

 

O senhor presidente refere que a outra opção seria o recurso à banca. Só que com os níveis de endividamento da autarquia flaviense não existe nenhum banco no mercado que lhe empreste dinheiro a juros comportáveis.

 

A mim ninguém me tira da cabeça que as obras que a Câmara vai executar até às eleições autárquicas são única e exclusivamente de fachada. O problema é que a campanha autárquica de António Cabeleira não vale tanto dinheiro, tanto sacrifício, tanto equívoco.

 

Os flavienses têm que começar a indignar-se. Campanhas políticas pagas com o dinheiro de todos nós são um atentado à democracia, ao bom senso e à liberdade. A cidadania tem de dar uma resposta adequada aos protagonistas de mais esta monumental asneira.

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