Quarta-feira, 4 de Abril de 2012

O Poema Infinito (94): a memória das mulheres inclinadas

 

As mulheres inclinadas lavam a roupa na pedra polida do tanque com as mãos enrugadas enquanto os seus seios soltos abanam dentro das blusas pretas. E ensaboam a roupa e gritam para os filhos e choram quando falam e riem quando falam e torcem-se quando torcem a roupa e suspiram e lançam imensas gargalhadas quando lembram os tempos da sua meninice. Mais logo as mulheres porão a roupa a corar enquanto os homens que vêm dos campos atrás dos carros, dos arados e do gado, fumam vagarosos cigarros feitos com as suas mãos grossas cheias de calos da enxada e com os dedos amarelos pelo fumo do tabaco. Nas poças dos caminhos, os girinos de caudas minúsculas perseguem a forma seguinte e no riacho as rãs esverdeadas lançam-se à água perante os gritos da criançada. Mais ao longe, cabras e ovelhas levantam o pó denso dos caminhos e fazem tinir as suas campainhas lembrando que o Natal já passou há muito e que outro virá em breve. E o calor começa a apertar e os patos debicam a lama à procura de alimento. Depois do jantar as mulheres falam muito. É quando falam mais. E os homens acabam de beber o vinho acre com muita lentidão enquanto enrolam mais um cigarro. Os homens calam a sua atenção. Baixam os olhos e calam a sua má sorte. E perseguem as suas mulheres com olhares ternos e disfarçados. E envolvem-nas com a intenção do desejo. E elas riem mesmo de costas voltadas. E bebem uma lágrima de licor. E voltam a rir, agora para os filhos que adormeceram no escano encostados uns aos outros. E outras mulheres, sentadas à porta de suas casas, envelhecem mais um pouco dentro dos seus escuros vestidos e por baixo dos seus lenços atados atrás da cabeça. E olham para longe, para muito longe, para onde não está ninguém, para onde começam a cintilar as estrelas que lhe fazem companhia nas noites de insónia enquanto os seus maridos tossem e ressonam e curam mais uma bebedeira azeda e rancorosa. E nos seus rostos sulcados por regos de assombro, as lágrimas escondidas começam a rolar como chuva ácida. E adivinham medos. E monologam abrindo ligeiramente as bocas desdentadas e lamentam-se e suspiram. E lembram-se sempre dos crisântemos de novembro. Sempre dos crisântemos de novembro que lhes cheiram a dor e a morte. Nas cortes por vezes tilintam os guizos das cabras e das vacas. As aves imobilizam-se nas árvores. Os corpos cansados procuram outros corpos cansados para se amarem dentro das suas possibilidades animais. Dentro do seu cio suspenso pela oportunidade. E os dedos de pele dura encontram pele mais mole. E os lábios acendem-se de calor e os sexos desejam-se e lutam. Depois do cruzamento, os casais falam baixinho, como quem reza a oração mais bonita do mundo. Por fim, os filhos de uma divindade que os atemoriza adormecem para mais um dia de trabalho. A mulher sonha com borboletas filiformes que sobrevoam os frescos regatos da sua infância. Os homens sonham com os torrões frescos da terra lavrada pelo pai enquanto sorri para o ruço. Noite dentro, nas gretas das pedras dormem os lagartos fascinados pelo frio. A paisagem fragmenta-se em cintilações de luar. O silêncio adquire a espessura do mistério da vida. Mais ao longe o moinho continua a moer o centeio na sua velocidade de água. Depois ladra o último cão e a aldeia adormece definitivamente. Não, não tenho medo de morrer aqui. Tenho é medo da memória.  


publicado por João Madureira às 07:00
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