Sexta-feira, 6 de Abril de 2012

O Homem Sem Memória - 109

 

109 – O pai do Fernando, já bem feitinho, mal chegou à porta de entrada e deu de caras com o José, perguntou-lhe: “O que te traz cá por casa, José? Já te zangaste com os teus amigos democratas-cristãos.”


“Olhe senhor Carvalho, não encontrei nenhum. E fartei-me de procurar”, admitiu o José. “Por isso vim jogar xadrez com o Fernando.” “Jogar xadrez com revolução na rua e a liberdade a passar por aqui? Deves estar é louco!”, disse o senhor Carvalho enquanto se ria ainda com mais prazer. Entretanto começou a assobiar a Internacional.


“Que música é essa, senhor Carvalho?”, perguntou o José a fazer-se de curioso. Ao que o senhor Carvalho respondeu com dois sorrisos, um nos lábios e outro nos olhos: “É o hino dos socialistas.” “Dos socialistas?”, surpreendeu-se o José. “Sim, dos socialistas. E até dos comunistas e dos anarquistas. É o hino de todos os revolucionários”, respondeu entusiasmado o pai do Fernando. “Então o hino dos comunistas não é A Verdade?”, perguntou de novo o José. Ao que o senhor Carvalho respondeu: “Sim e não. É verdade que A Verdade é o hino dos comunistas, mas unicamente dos portugueses. Já a Internacional é o hino de todos os revolucionários do mundo. Durante muito tempo foi até o hino da União Soviética. Por isso é que os comunistas se dizem seus proprietários, mas quem escreveu os versos que lhe dão corpo foi o anarquista francês Eugène Pottier, que havia sido um dos membros da Comuna de Paris. Em 1888, Pierre De Geyter transformou o poema em música. Contudo, na versão do PS, Mário Soares alterou alguns versos, e assim a letra é diferente entre as versões de A Internacional dos comunistas e a do PS. Mas mesmo sendo eu socialista, aprecio mais os versos da versão comunista. Ó Fernando pega aí na viola e toca a Internacional. Ó mulher vem aqui para ao pé de nós cantar A Internacional. Ó Abel, junta-te a nós e vem cantar A Internacional. Ó Angelina, vem daí cantar A Internacional connosco. Ó Celestino, chega-te para cá e vem cantar A Internacional…”


Mas o filho emigrante do senhor Carvalho perguntou antes de se juntar ao coro: “Qual versão, pai?” “Ora a versão original, a de Eugène Pottier”, informou o pai. Ao que o filho respondeu, meio a sério, meio a brincar: “A versão soviética não canto. Para mim a que vale é a de Mário Soares.” E começou a trautear: “Nem capital nem ditaduras, nem monopólios nem torturas, a vitória é de uma vontade, socialismo em liberdade…”


Então do outro lado da mesa, o coro começou a entoar A Internacional com tanto esmero que a todos, menos ao Celestino, pôs pele de galinha: De pé, ó vítimas da fome / De pé, famélicos da terra / Da ideia a chama já consome / A crosta bruta que a soterra… etc. e Bem unidos façamos / Nesta luta final / Uma terra sem amos / A Internacional.


Quando terminaram de cantar a cantiga mais em voga nos comícios dos diversos partidos marxistas e afins, ouviram debaixo dos seus pés o forte matraquear do cabo da vassoura do ex-bufo que, no andar de baixo, se indignava com o hino do partido que aprendeu a odiar como se fosse o domicílio de uma matilha de assassinos e ladrões.


Mas os revolucionários do andar superior não se deixaram intimidar pelas pancadas, pois o fascismo tinha morrido a 25 de Abril, e entoaram novamente A Internacional como se estivessem a marchar na Praça Vermelha caras ao inimigo, caras ao Palácio de Inverno, preparando-se para enfrentar a neve gelada e as hostes reacionárias do czar e dos seus lacaios: Cortai o mal bem pelo fundo / De pé, de pé, não mais senhores / Se nada somos neste mundo / Sejamos tudo, ó produtores…


Pelo meio da investida canora, o Celestino tentou ainda apaziguar os ânimos: “Deixem lá o homem em paz e sossego. A democracia é tolerância. De que vos adianta provocar o engraxador? Não será ele também uma vítima da fome?”


Mas o coro revolucionário nem sequer escutou o aviso e entoou ainda mais alto o refrão: Bem unidos façamos / Nesta luta final / Uma terra sem amos / A Internacional.


Vendo que o ânimo do seu dono estava à beira da catástrofe, o cão do engraxador, a expensas próprias, resolveu subir as escadas com a nítida intenção de vir ladrar e, provavelmente, ferrar aquela horda de mafarricos que punham a alma do seu proprietário no inferno. Só que a meio do caminho foi intercetado pelo cão da família Carvalho que, apesar de mais calmo e um pouco mais pequeno, não era cachorro para se deixar intimidar pela pretensa valentia do cão do ex-bufo. Ainda A Internacional ia a meio e já o cão do engraxador tinha metido o rabo entre as pernas e descido as escadas a ganir tão alto que até a nós, que não somos muito sensíveis ao sofrimento animal, nos meteu pena.


Enquanto no andar de cima a luta continuava, o engraxador disse para a mulher: “Vou à missa das seis senão hoje ainda faço uma desgraça.” À saída, vendo o seu cão a sangrar, foi-se a ele e encheu-o de porrada. “Deixa o pobre do animal, que não tem culpa nenhuma. Afinal apenas tentou defender-te”, disse-lhe a mulher. Ao que ele respondeu com um ódio supostamente fascista estampado no rosto: “Este cão só tem corpo. Até aquele merdas lá de cima pode com ele. Mais valia tê-lo afogado quando a puta da cadela o pariu.


No primeiro andar a luta tinha acabado com o triunfo das forças progressistas. As forças da reação tinham mais uma vez sido esmagadas com todo o ímpeto, com todo o vigor, com toda a pujança, com todo o ardor. Enfim, com toda a determinação. A Internacional tem destas virtudes, quando é cantada com chama faz sempre triunfar quem a entoa.


Finda a cantilena, a brigada revolucionária teve direito a um repasto condigno: presunto, azeitonas, pão e vinho. Vinho tinto, pois os revolucionários não bebem vinho branco. Especialmente quando é chegada a sagrada hora de manjarem a sua merecida refeição depois da luta.


O Abel, o fiel pioneiro da família, já um dedicado amigo e defensor dos direitos dos animais, foi à varanda e trouxe para dentro o cão. Todos lhe fizeram uma festa. O senhor Carvalho, alegre pela cantilena, e sobretudo entusiasmado pelo tinto, pegou no cão e sentou-o à mesa. O Abel, para não se ficar atrás do pai na homenagem ao valoroso cachorro revolucionário, pegou no seu lenço de pioneiro do Partido, autografado pelo camarada Punhal, que lhe foi oferecido pelo seu irmão mais velho, e colocou-o no pescoço do Retintim vermelho.


No meio da conversa, ao José deu-lhe para desconversar, como era seu timbre e feitio: “Não consigo perceber porque os autores dos versos dos hinos teimam em escrever coisas tais como: A crosta bruta que a soterra; ou, no nosso hino nacional: Dos teus egrégios avós. Deve ser para arreliar. É que além de pouco ou nada quererem significar, ninguém consegue cantar tais versos sem se entaramelar todo.”


“Ó José, porque é que és sempre do contra. A ti nada te serve. Que mania. Questionas sempre tudo”, disse-lhe o Fernando meio a sério, meio a brincar. “Ando a aprender a ser revolucionário. Já que por cá não existem democratas-cristãos e os socialistas não me querem. Só me resta o caminho do comunismo”, respondeu o José.


“Não andes tão depressa senão ainda podes cair. De democrata-cristão a comunista vai uma grande distância. E tu ainda não tens pernas para a caminhada. Deixa-te ficar pelo socialismo. Vai com calma”, avisou-o o pai do Fernando.


“Pois sim, senhor Carvalho. Se faz questão, vou voltar a insistir com os socialistas a ver se me aceitam”, contemporizou o José. 


Enquanto comiam e bebiam, acompanhados à viola pelo Celestino e pelo Fernando, atreveram-se mesmo a cantar muitas e variadas cantigas de intervenção. A que mais caiu no goto do José foi uma do Zeca Afonso onde se dizia: “Venham mais cinco, duma assentada que eu pago já / Do branco ou tinto, se o velho estica eu fico por cá / Se tem má pinta, dá-lhe um apito e põe-no a andar / De espada à cinta, já crê que é rei d'aquém e além-mar.


Pelo meio tornou a desconversar: “Não percebo nada do que ele quer dizer, mas lá que tem graça tem.” Então quando começaram a cantar: Tiriririri buririririri, Tiriririri paraburibaie, Tiiiiiiiiiiiiii paraburibaie… Tiriririri buririririri, Tiriririri paraburibaie, só não mijou nas calças com o riso porque foi rápido à casa de banho.


Quando cá fora fumava um cigarro na companhia do Celestino, lá em baixo na rua passou o Graça que o convidou para acompanhá-lo a uma sessão de esclarecimento dos comunistas. Virando-se para o amigo de fumo, disse-lhe se também queria ir. Ele respondeu-lhe que quanto aos comunistas já estava esclarecido de todo. E concluiu: “Esses a mim já não me enganam.”


publicado por João Madureira às 07:00
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