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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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09
Abr12

Da expetativa ao imobilismo (X): o sorriso da impotência

João Madureira

 

E lá aparece de novo João Batista nas capas dos jornais da região com a sua imagem de marca: o seu sorriso, que à força de tanto o usar já não sabemos se aquilo é a sério ou a brincar. Pelos vistos, e pelo abuso, é muito provável que seja sobretudo para fingir. Ou então, o que é muito mais grave, significa o sorriso da impotência política perante os factos. No entanto fica registado que JB apareceu a dar a notícia do encerramento de mais serviços na nossa cidade com um sorriso tão rasgado que até pensámos que era uma notícia favorável para a região. Mas não.

 

Isto agora de más notícias é sempre a seguir. Umas a seguir às outras. E o que ainda virá por aí de encerramentos e extinções. E o homem da propaganda do governo, que dá pelo nome de Relvas, lá está para o confirmar com outro riso nos lábios. Parece que pegou moda. Agora as más notícias dão-se com um sorriso no rosto. Antigamente chamavam-lhe a isso impudência, cinismo, desvergonha, hipocrisia, sadismo. Nos tempos que correm é a imagem de marca do PSD nacional, autonómico e regional. O país que se cuide, as hienas andam à solta.

 

João Batista, com a sua teimosia simpática e com a sua simpatia teimosa, lá nos vem explicar o inexplicável. Vem-nos dizer que a morte, nas urgências, de uma senhora de 79 anos põe em causa o atual modelo de prestação de cuidados de saúde. Com estas palavras, os flavienses ficam a saber que o seu presidente da Câmara, perante a adversidade e a desgraça, senta-se numa cadeira, convoca os meios de comunicação social e lá começa o seu rosário de queixas, queixumes e queixetas. Dá-nos música, de protesto, é certo, mas música. E lembra-nos que já havia dito isso anteriormente. E de que lhe valeu? De nada. Um enorme e rotundo nada.

 

Os encerramentos continuam a suceder-se no nosso concelho e a um ritmo preocupante. É o tribunal, é o hospital, é a fusão das escolas e dos agrupamentos, é a extinção das freguesias. A este ritmo, qualquer dia levam-nos as Caldas e o senhor presidente lá resolve convocar mais uma conferência de imprensa para, com o seu sorriso impotente, nos comunicar que os seus companheiros de partido lá da capital do país e os seus homólogos da capital do distrito nos surripiaram a nossa galinha dos ovos de ouro.

 

Está visto que um presidente deste tipo nos torna fracos. É a tal história do rei fraco que torna fraca a forte gente.

 

João Batista considera que o esvaziamento de serviços do nosso hospital prejudica duplamente os cidadãos de Chaves. Sim. E depois? Depois queixa-se que os de Lisboa são muito maus e que os de Vila Real lhe seguem as pisadas. Queixa-se e sorri. Sorri e queixa-se. E diz, que tal como havia dito, afinal isto ia dar para o torto. E lamenta-se. E sorri. E queixa-se: “Lamentavelmente veio a acontecer” uma desgraça. Uma senhora morreu. Ele já tinha avisado. Já se tinha queixado. Já tinha sorrido e dito que isto ia acontecer. Já tinha posto nas capas dos jornais os seus queixumes e plasmado seu sorriso impotente.

 

Mas, desculpe que lhe diga senhor presidente, não foi para isso que os flavienses votaram em si. Os munícipes votaram em si para agir, não para falar, não para reagir com palavrinhas mansas. Elegeram-no para os representar, elegeram-no para os governar, para os liderar, para os defender. E não se defendem pessoas com queixinhas. A queixa é a arma dos impotentes, dos que desistiram de acreditar e de lutar pelos seus direitos inalienáveis, como o direito à Saúde. 

 

O senhor presidente da Câmara de Chaves faz lembrar aqueles rapazes sem jeitinho nenhum para jogar à bola e que ninguém escolhe para a sua equipa, que quando se sente rejeitado, corre a casa a queixar-se à mãe que, também aflita, corre à loja de brinquedos e lhe compra uma bola nova das mais caras. Ele, pensando que tem o problema resolvido, corre até ao campo e pede para jogar em troca do empréstimo da bola nova e brilhante como a que se vê a rolar nos relvados dos estádios nacionais. Só que como não é a propriedade da bola a que define a qualidade do jogador, a sua equipa perde e lá vai ele para casa triste e abandonado. No dia seguinte a história repete-se: ninguém o quer na sua equipa.

 

E lá volta a história do costume. Ele oferece a bola em troca de ser escolhido para uma equipa. Mas ninguém o quer, nem com bola, nem sem bola. Quem joga a bola gosta de ganhar, mesmo que seja num jogo amigável. E todos sabem que com aquele jogador o esforço da vitória custa o dobro ou o triplo. Por isso ninguém o quer e abandonam-no, mais à sua bola, e vão para outro campo jogar com a bola velha e rota. Preferem uma má bola a um jogador mau.

 

Ora isto é na brincadeira, imaginem agora o que é ter à frente dos destinos da nossa cidade um presidente que não consegue inverter o sentido do caminho desesperante dos encerramentos sucessivos de serviços que acontecem em Chaves. Queixar-se aos munícipes não é solução, não resolve nada, não altera coisa nenhuma. Confissões públicas soam a impotência. Ele diz que a responsabilidade do falecimento da nossa conterrânea tem de ser apurada. Que vai haver inquéritos.

 

Pois é, inquéritos. Todos nós sabemos para o que servem os inquéritos no nosso país. Servem para serem deitados ao lixo. E a morte é uma situação irremediável. No entanto o nosso presidente queixa-se aos jornais e sorri. Fala de igualdade de direitos, de repensar e ponderar a reabertura dos serviços e sorri. Fala e nada diz. Sorri. Não age. Reage, queixa-se e sorri.

 

Mas o que já todos sabemos é que mais serviços vão encerrar, mais valências vão ser desativadas, mais dinheiro vai ser poupado nos serviços de saúde, justiça e educação para ser injetado nos bancos e para pagar os juros astronómicos à troika. É para o que serve o nosso Governo e, pelos vistos, a nossa Câmara, pois para pagar e calar. Para engordar as contas chorudas dos especuladores financeiros. O povo que se lixe. O povo que morra nas urgências, enquanto os políticos tentam definir onde uma pessoa com um ataque cardíaco deve ir morrer, se em Chaves a andar de ambulância ou em Vila Real às portas do hospital.

 

O senhor ministro da Saúde, colocado perante os graves acontecimentos, diz que vai apurar responsabilidades. Por seu lado, o nosso presidente da Câmara convoca os jornais e diz que vai fazer diligências. Diz que vai sentar-se em frente de algum funcionário menor de um ministério qualquer e queixar-se, lamentar-se e pedir desculpa por ser chato, mas tem de se queixar, pois é o que sabe fazer e o partido não o autoriza a mais. Reivindicar fica para mais tarde. A reivindicação não está posta de lado, diz ele, mas há que esperar. Esperar por quê e para quê? Pois para nada. O Governo manda, o partido assume e a Câmara aguarda. E aguarda sentada, que é ao que nos habituou.

 

O tribunal fecha, o senhor presidente sorri e queixa-se aos jornais, para lembrar que existe e que se queixa.

 

O Gabinete de Medicina Legal de Chaves encerra, e o senhor presidente convoca os órgãos de comunicação, sorri e queixa-se aos jornais, para lembrar que existe e que se queixa. Sim, está provado, os flavienses têm à frente do município um homem que se queixa, sorri, lamenta-se, sorri e torna a queixar-se.

 

As escolas fecham e os agrupamentos de escolas também, o senhor presidente sorri e queixa-se aos jornais, para lembrar que existe e que se queixa. Sim, está provado, os flavienses têm à frente do município um homem que se queixa, sorri, lamenta-se, sorri e torna a queixar-se. Fala e nada diz. Sorri.

 

Vinte e cinco juntas de freguesia vão ser extintas, o senhor presidente sorri e queixa-se aos jornais, para lembrar que existe e que se queixa. Sim, está provado, os flavienses têm à frente do município um homem que se queixa, sorri, lamenta-se, sorri e torna a queixar-se. Fala e nada diz. Sorri. Não age.

 

Pagamos no troço de autoestrada que nos serve as mais caras portagens a nível nacional, o senhor presidente sorri e queixa-se aos jornais, para lembrar que existe e que se queixa. Sim, está provado, os flavienses têm à frente do município um homem que se queixa, sorri, lamenta-se, sorri e torna a queixar-se. Fala e nada diz. Sorri. Não age. Reage, queixa-se e sorri.

 

E António Cabeleira, por onde anda o vice camarário de JB e putativo candidato do PSD à autarquia flaviense. Pois anda escondido. Quando as coisas aquecem o homem some-se. Ele apenas fala dos projetos, das obras, do faz de conta. O desistente João Batista tem agora o ónus das más notícias. Dando como certo que os flavienses ligarão as más notícias ao mensageiro que as dá. Mas talvez se enganem.

 

O Presidente e o seu vice agem como o polícia bom e o polícia mau nos interrogatórios. Ao João Batista toca-lhe vir para os jornais queixar-se, lamentar-se e desistir. E o António calado que nem um rato fica encafuado na cadeira do seu gabinete. A ver se ninguém dá por ele, se ninguém o questiona, se ninguém lhe pede uma palavra, uma tomada de posição. Afinal ele é que é o presidente do PSD em Chaves. E o António, calado que nem um rato, escondido atrás dos ofícios, das canetas, dos lápis e do candeeiro da secretária, pede a Deus que a borrasca passe. Só que a borrasca teima em não passar. A borrasca ainda está no início. Só que ele não a quer ver, não a quer ouvir. E ele lá continua escondido no seu gabinete, com o ouvido atento às queixas do seu presidente.

 

E lá me volta à ideia a frase antiga e cheia de simbolismo: um rei fraco faz fraca a forte gente. Raios partam a sorte. Esta impotência tem de acabar. Os flavienses não podem desistir. O senhor presidente da Câmara pode desistir, o seu vice pode desistir, os vereadores podem também desistir de lutar, de trabalhar, de reivindicar, de defender o bem-estar da nossa população. O PSD pode desistir, ou meter a cabeça na areia como a avestruz. Todos eles podem desistir da razão que nos assiste. Mas quem não pode desistir são os flavienses.

 

Todos sabemos, as nossas gentes não desistem quando são colocados perante as adversidades.

 

Perante a adversidade ganhamos coragem, ganhamos ânimo, força e razão. Contra a razão da força do Governo central, temos de contrapor a força da razão. E dos cobardes não reza a História. 

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