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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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11
Abr12

O Poema Infinito (95): para sempre

João Madureira

 

Para sempre ficarás na minha boca e eu ficarei louco por ter entrado em contacto contigo e por ter fumado a tua respiração e ouvido os teus murmúrios e escutado os teus sussurros e inspirado as tuas ondulações e expirado o teu prazer. Volta o odor a folhas verdes, o céu e o seu azul, o cheiro a feno, o som das palavras que a tua voz atira para os remoinhos do vento. E os beijos crescem nas nossas bocas como pássaros loucos e abraço-me à volta do teu corpo. As árvores jogam o jogo da luz e das sombras e os seus flexíveis ramos balançam transmitindo a sensação de efervescência às colinas. O sexo sempre. Sempre o sexo. E o seu ímpeto procriador e o seu pormenorizado mistério e a sua firme eletricidade afetuosa e a sua invisível adequação. Creio em ti com a cabeça inclinada de rimas e com toda a música solta pelas células e abraço-te novamente sabendo que todo o excesso é um conflito e que toda a vontade é uma promessa insatisfeita. Mergulho a minha língua na tua língua e espero. Mergulho o meu sexo no teu sexo. E espero. E desespero. E espero. As ervas crescem dentro do seu verde totalitário. Eu sou de novo o filho de uma vontade inocente. Creio em ti, na tua alma humana. Finos e perfumados tecidos de desejo transpiram no regaço das mães. Das nossas bocas nascem agora raízes prematuras em busca do tempo que nos dizem perdido. E o que aconteceu à memória? E o que dela nasceu? Todo o mundo é o complemento do sorriso e da dor. Toda a vida é uma semente atómica. Agora creio nos desígnios alados dos bosques, na louca corrida da luz, na densa exaltação da simplicidade. Creio no desígnio dos lugares, nas velhas leis da modernidade, na vulgaridade da cultura erudita, na larga, na larguíssima recompensa da escrita, na redenção da leitura. E desejo o desejo das mãos que embalam rios e desejo que tudo seja de novo batizado e convertido à fé imensa da liberdade. Sei que dormes em mim e que me fazes arder de desejo como um archote sábio. Em mim dorme o tempo e o efeito da matéria e toda a música do vento e todo o júbilo dos vencidos e toda a sensatez dos loucos e todo o espírito triunfador dos falhados e toda a vontade dos desistentes e toda a heroicidade dos cobardes e todo o enigma da verdade. Esta é a hora das minhas inconfidências, por isso sofro o desalento das chuvas, por isso venero a indiferença da matéria e o desígnio dos deuses apócrifos. Abraço-te mais uma vez com o crescente desespero da noite que se afunda na luz das estrelas. Tento entrar no silêncio dos teus olhos que brilham por dentro. Fundo-me contigo enquanto um deus desesperado pensa na bondade da lei de uma imortalidade fatal. Agora sou eu quem recusa o vício da descoberta. No infinito, a palavra fé aceita a realidade da vida e da morte. Para sempre ficarás na minha boca e eu ficarei louco por ter entrado em ti. Dizes: cada migalha de amor é um milagre. Depois contemplamos o amanhecer. 

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