Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

O Poema Infinito (95): para sempre

 

Para sempre ficarás na minha boca e eu ficarei louco por ter entrado em contacto contigo e por ter fumado a tua respiração e ouvido os teus murmúrios e escutado os teus sussurros e inspirado as tuas ondulações e expirado o teu prazer. Volta o odor a folhas verdes, o céu e o seu azul, o cheiro a feno, o som das palavras que a tua voz atira para os remoinhos do vento. E os beijos crescem nas nossas bocas como pássaros loucos e abraço-me à volta do teu corpo. As árvores jogam o jogo da luz e das sombras e os seus flexíveis ramos balançam transmitindo a sensação de efervescência às colinas. O sexo sempre. Sempre o sexo. E o seu ímpeto procriador e o seu pormenorizado mistério e a sua firme eletricidade afetuosa e a sua invisível adequação. Creio em ti com a cabeça inclinada de rimas e com toda a música solta pelas células e abraço-te novamente sabendo que todo o excesso é um conflito e que toda a vontade é uma promessa insatisfeita. Mergulho a minha língua na tua língua e espero. Mergulho o meu sexo no teu sexo. E espero. E desespero. E espero. As ervas crescem dentro do seu verde totalitário. Eu sou de novo o filho de uma vontade inocente. Creio em ti, na tua alma humana. Finos e perfumados tecidos de desejo transpiram no regaço das mães. Das nossas bocas nascem agora raízes prematuras em busca do tempo que nos dizem perdido. E o que aconteceu à memória? E o que dela nasceu? Todo o mundo é o complemento do sorriso e da dor. Toda a vida é uma semente atómica. Agora creio nos desígnios alados dos bosques, na louca corrida da luz, na densa exaltação da simplicidade. Creio no desígnio dos lugares, nas velhas leis da modernidade, na vulgaridade da cultura erudita, na larga, na larguíssima recompensa da escrita, na redenção da leitura. E desejo o desejo das mãos que embalam rios e desejo que tudo seja de novo batizado e convertido à fé imensa da liberdade. Sei que dormes em mim e que me fazes arder de desejo como um archote sábio. Em mim dorme o tempo e o efeito da matéria e toda a música do vento e todo o júbilo dos vencidos e toda a sensatez dos loucos e todo o espírito triunfador dos falhados e toda a vontade dos desistentes e toda a heroicidade dos cobardes e todo o enigma da verdade. Esta é a hora das minhas inconfidências, por isso sofro o desalento das chuvas, por isso venero a indiferença da matéria e o desígnio dos deuses apócrifos. Abraço-te mais uma vez com o crescente desespero da noite que se afunda na luz das estrelas. Tento entrar no silêncio dos teus olhos que brilham por dentro. Fundo-me contigo enquanto um deus desesperado pensa na bondade da lei de uma imortalidade fatal. Agora sou eu quem recusa o vício da descoberta. No infinito, a palavra fé aceita a realidade da vida e da morte. Para sempre ficarás na minha boca e eu ficarei louco por ter entrado em ti. Dizes: cada migalha de amor é um milagre. Depois contemplamos o amanhecer. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | favorito
Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.


.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 14 seguidores

.pesquisar

 

.Abril 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9


25
26
27

28
29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. No Barroso

. No Barroso

. 439 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. ...

. No Barroso

. Poema Infinito (453): A n...

. No Barroso

. No Barroso

. 438 - Pérolas e Diamantes...

. São Sebastião - Couto Dor...

. Na aldeia

. São Sebastião - Couto Dor...

. Poema Infinito (452): Hes...

. São Sebastião - Couto Dor...

. No Couto de Dornelas

. 437 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. No Barroso

. No Barroso

. Poema Infinito (451): Os ...

. No Barroso

. No Barroso

. 436 - Pérolas e Diamantes...

. Na Feira

. Na aldeia

. Olhares

. Poema Infinito (450): O d...

. Vaca atenciosa

. BB

. 435 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. ST

. ST

. Poema Infinito (449): Inc...

. ST

. Na aldeia

. 434 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Mulheres

. Na aldeia

. Poema Infinito (448): O g...

. Na aldeia

. Na conversa

. 433 - Pérolas e Diamantes...

. No elevador do CCB

. Em Paris

. Em Paris

. Poema Infinito (447): Des...

. Em Paris

.arquivos

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar