Sexta-feira, 13 de Abril de 2012

O Homem Sem Memória - 110

 

110 – E dali se foi José até aos Pintassilgos, um velho teatro desativado na parte antiga da cidade, na companhia do Graça para começar a ouvir o que os defensores da classe operária tinham para lhe dizer. Não podia adivinhar que seria ali mesmo que se iniciaria a sua Via Crucis. O Matrix comunista esperava-o em silêncio.


Quando chegaram ao salão ainda ninguém se tinha sentado. Nem entrado sequer. Estavam todos a arranjar coragem. Olhavam uns para os outros como se fossem estranhos. Lá estranhos eram, apesar de viverem na mesma cidade. Proletários nem vê-los, camponeses nem um. Mas por ali estavam muitos dos seus representantes. Dos que orgulhosamente, sós ou mal acompanhados, se afirmavam seus mandatários ou seus companheiros de luta.


O mal dos proletários esteve sempre na transferência perpétua das suas justas aspirações para as mãos dos autoafirmados seus procuradores, companheiros de luta ou afins. Só que os seus máximos representantes, camaradas de luta e afins, não eram proletários. Nunca o foram. Nem nunca imaginaram sê-lo. Ou sequer parecê-lo. Vestiram-se com essa pele de cordeiro, mas por baixo eram raposas. Raposas famintas de poder e de protagonismo. As raposas podem mudar de pelo mas não conseguem mudar de hábitos.


Gostavam dos livros que se escreviam em nome dos espoliados, onde esses mártires sociais eram as vítimas inocentes dos vilões capitalistas, dos burgueses pançudos e incultos e dos capatazes façanhudos. Estimavam os programas políticos que se elaboravam em sua defesa. Simpatizavam com a iconografia, com a solidária ideia da defesa intransigente dos pobres e dos oprimidos. Apreciavam a qualificação sacrificial, mas a condição objetiva era boa na inspiração paradigmática própria para pintar quadros, compor canções, escrever poemas ou romances comovedores, esses dramalhões socialistas que envergonham quem os escreve e quem neles participa, mesmo que sob a forma de personagens redentoras. Além disso, essas coisas não eram para viver. Eram para ver, para ler, para cantar ou declamar. Para eles a pobreza era apenas uma forma de arte.


Os que por ali cochichavam, compraziam-se em sentir-se heróis de romances neorrealistas. Aspiravam escrever livros a favor dos explorados. Sonhavam redigir brochuras a denunciar as atrocidades dos exploradores. Mas não eram nem uma coisa nem outra. Eram as cigarras da revolução. E, como todos agora sabemos, as formigas justificam indefinidamente as cigarras. São elas que dão moral e sentido à história, mas são sempre elas as pacientes sofredoras. Nem as formigas podem alguma vez vir a ser cigarras, nem as cigarras podem transformar-se definitivamente em formigas. O mundo animal é mesmo assim. Cada qual na sua condição. É essa a lei da Natureza.


Os dirigentes dos autoafirmados partidos proletários constantemente se afirmaram formigas, mas sempre cumpriram com a função de cigarras. Continuamente representaram o seu papel de trágicos comediantes avulsos.


Uma coisa é passar fome, não saber ler, ser inculto, viver dependente de toda a gente, cheirar a merda e conviver com o excesso de intimidade das famílias numerosas em espaços exíguos e mal ventilados. Sofrer com a pobreza, sentir-lhe o cheiro. Sofrer com inveja a falta das coisas boas. Outra situação bem distinta é comer e fazer atos de contrição solidários com os famintos. É ler e fazer que não se lê. É ter autonomia literária e ler para os outros aquilo que pensamos que eles querem escutar, que eles desejam entender, que eles necessitam ouvir.


Uma coisa é ser o juiz imparcialmente parcial, ou ser o advogado defensor de causas de terceiros. Outra bem diferente é ser réu. É ser vítima. Os seus defensores paramentam-se para participar na liturgia do engano. As vítimas rezam para que os tirem dos livros e dos filmes em que os colocaram. Rezam para que deixem de os envergonhar. Ninguém sente qualquer tipo de orgulho em ser um bardamerdas que trabalha muito e é explorado. Ninguém aprecia a exposição pública da sua menoridade, da exposição das chagas de pobreza, do abandono e da incultura.


Uma coisa é parecer querer sofrer. Outra, bem distinta, é sofrer sem tencionar parecer, sem fazer disso teimosia ou emblema. Sofrer mesmo.


Quem enche as prisões são sempre as vítimas da fome, da desigualdade, da discriminação, não os que cantam hinos em seu nome, que afirmam compreendê-los, que fazem alarde em afirmar que os desculpam. Uma coisa é ser o hipócrita que tem pena do ser humano que sofre. Outra bem distinta é ser a pobre criatura que sofre envergonhada a sua condição e ainda por cima é a vítima inocente da hipocrisia dos putativos defensores da classe operária e dos camponeses, mesmo que esse estatuto esteja envolvido na toga de um juiz, de um advogado ou de um dirigente político, sindical, ou até de um escritor que se esforça ao máximo por parecer aquilo que não é. O chefe político safa-se sempre. O escritor disfarça sempre. O proletário fode-se sempre. E por isso preenche o seu destino histórico, o de justificar a sociedade injusta em que vive.


As sociedades construídas, e justificadas, em seu nome foram historicamente as que mais os discriminaram, as que mais os exploraram, as que mais os reduziram à sua insignificância. Os explorados e famintos morreram às mãos dos seus defensores com o argumento de que os estavam a salvar. A morte por um ideal que os justificava foi a maior aberração do século XX. A Torre de Babel comunista, qual bomba de Hiroxima, matou o mais bonito sonho da humanidade, sem sequer parar para pensar.


O tal Partido Comunista Mundial matou mais gente que centenas de bombas de Hiroxima juntas. Mas o genocídio, como muito bem o definiu o camarada Estaline, passou à História como uma estatística. Convenhamos que essa estatística tem a dimensão dos Gulagues proletários e camponeses da Rússia Soviética e da China.

 

Uma sociedade construída sob o paradigma dos insolventes, dos descamisados, dos famintos e dos incultos, nunca poderia ter futuro. Ninguém consegue construir uma ponte apenas com o suor dos proletários, por mais que eles suem, ninguém consegue escrever um livro a pensar que os incultos o vão ler. Além disso, um proletário nunca conseguirá escrever um livro. Quando o escreve ou o lê com olhos de ler já não é um proletário. É uma outra coisa.


Os proletários só são explorados porque são proletários. E, entendamo-nos de uma vez por todas, qualquer proletário aspira a deixar de o ser. Não há nenhum proletário que deseje para os seus filhos a condição de proletário. Uma sociedade de proletários é uma aberração, é um absurdo, é o fim da História.


E não há nenhum registo histórico consistente onde se relate que o filho de um não proletário tenha aspirado e triunfado socialmente tornando-se proletário. Ora uma sociedade orgulhosamente proletária que sabe que só consegue triunfar e ter futuro se os proletários deixarem de o ser, é uma mentira medonha. É um anátema. É um engano ainda maior do que afirmar, e defender, que a sociedade capitalista é o futuro inteiro e louvável da Humanidade.


A condição de proletário é inseparável da condição de explorador. Por isso, e fazemos votos que nos contradigam, quando os proletários deixam de o ser, os capitalistas também acabam porque já não existe mão-de-obra barata para ninguém. Quando se extingue a exploração deixam de existir os protagonistas que lhe outorgavam a razão de ser. E sem razão de ser, a contradição extingue-se. E quando a contradição se extingue a justificação tomba por si. O ideal de uma sociedade proletária caiu quando, como muito bem a definiu Orwell, os animais, que eram todos iguais, passaram a ser uns mais iguais do que outros. E, caros leitores, quem não quer ser o animal mais igual de todos não lhe veste a pele.


Desculpem-me o atrevimento: Há por aí alguém que aspire a ser proletário? Qual de vós é que pretende ir para as fábricas trabalhar? Qual de vós deseja escrever um livro para redimir a classe operária?


Cada leitor deve tentar responder honestamente a cada uma das perguntas. Depois podemos falar em revolução.


Tudo isto, ou quase, o José pensou, ou poderia ter pensado, ainda antes de ter entrado no redil do comunismo. Ou imaginou que pensou antes de cair na armadilha da revolução. Esse passou a ser o seu Matrix. Mas ele, definitivamente, e para que não restem dúvidas sobre o caminho desta história, não era Neo. Ninguém se mete conscientemente na ratoeira. O melhor mesmo é pensar que esteve sempre consciente quando o levaram ao cadafalso. Lá chegado, não o enforcaram, não lhe cortaram a cabeça, apenas lhe amputaram uma das mãos, a direita, aquela com que escrevia.


Mas a história do que há-de vir ainda está por compor. Por agora vamo-nos concentrar na sessão de esclarecimento do Partido. A grande História faz-se destes pequenos equívocos, destas pequenas mentiras, destes sonhos enganadores. 


publicado por João Madureira às 07:00
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