Quarta-feira, 18 de Abril de 2012

O Poema Infinito (96): flores mortas de desejo

 

Numa terra plantada de poemas eu abro os olhos na direção impercetível dos amantes que se amam com frases intensas de desejo e com olhares quentes e com sílabas enormes de volúpia. Assim cultivam a vida enquanto os homens sérios debatem as sombras e pisam o chão exíguo da sua verdade surda ao crepitar das lágrimas intensas dos desprotegidos. Mais ao longe o fogo da dúvida ergue o verão em pleno inverno. E os homens cruzam os braços e as mulheres plantam os pés na água pura da ribeira. A memória é uma alfaia permanente que lavra as manhãs frias. Agora os homens discutem com as mãos os versos de pranto que apertam as coisas firmes e que percorrem as sílabas ausentes do amor. As mulheres dançam com passos inconsistentes como se fossem feitas de vento e sussurros. Esta é a hora exata dos deuses se transformarem em seres mortais crescendo dentro do seu coração alienado. Uma música violenta percorre o ondular dos amantes que falam pelo meio de gemidos sustenidos. Eles são os instrumentos que se movem em rede bordando sexos periféricos com os músculos tensos de retórica animal. Por vezes sentem-se sós. Outras vezes ligam os seus motores eróticos e dançam até cair. E os seus lábios pegam-se e despegam-se como se não quisessem transitar para dentro dos espaços proibidos pela razão. Os seus olhos são os sinais límpidos que se tornam solenes na angústia e na liturgia do medo. Os corpos em movimento pronunciam sucintas flores com pétalas de vocábulos luxuriantes. Nas suas bocas transitórias uma confusão meiga mastiga mais um naco de desejo. Sobe por eles uma solidão doméstica libertando-os da matéria dos seus membros. Sentem-se ilhas no meio de um mar altivo que nasce todas as manhãs. Anjos com asas castigadas acordam resplandecentes de beijos neutros. Os homens sérios e indispostos caminham para trás cumprindo com a sua lei da inércia temporal. As mulheres pisam os séculos e os sexos dos violadores e dos conquistadores de corpos. Um sol inscrito na paisagem persegue os animais em cativeiro. E a guerra do silêncio suspende a sua fúria e tenta adormecer no seu leito de sangue. Os crentes enrolam-se na sua poeira do tempo e alimentam os seus profetas como se fossem galinhas poedeiras. Toda a lírica da razão da vida morre de encontro aos deuses gramaticais. A lógica fenece, o amor endoidece, as palavras escrevem-se abrindo o seu sexo divino. As palavras transformam-se em cristais e adormecem mortalmente dentro da sua luminosidade artificial. Tu dizes: a poesia é um momento. E eu acaricio a ondulação alquímica do teu corpo. Essa é a minha certeza. Esse é o meu mistério lavrado no chão da vida. 


publicado por João Madureira às 07:00
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