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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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23
Abr12

Da expetativa ao imobilismo (XII): António e os passarinhos

João Madureira

 

Desta vez tinha o firme propósito de escrever sobre os passarinhos, a primavera, as flores, a melopeia dos riachos e a música sinfónica ou coisa pelo estilo. Juro que sim. Olhando à minha volta, subiu por mim acima essa vontade de ser agradável aos estimados eleitores e de ser sincero com a mãe natureza. Juro que queria. Juro mesmo. Eu queria porque estava necessitado de fazer uma pausa em relação aos problemas da nossa cidade. Mas os tempos que vivemos não estão para distrações.

 

Mal me pus a escutar o meu entorno, em vez de ouvir os pássaros, chegaram-me aos ouvidos os gritos de protesto e indignação dos funcionários da Misericórdia de Chaves que já não recebem os seus salários há seis meses. Ensaiei concentrar-me nos pássaros e nos riachos mais a sua melopeia, mas as palavras dos manifestantes bateram-me mais forte. Sobrepuseram-se. Mas eu tentei de novo concentrar-me nos chilreios das aves: chriu, chriu, chriu…

 

Mas as palavras gritadas pelos manifestantes impunham-se: “Assim não pode ser, trabalhar sem receber.” E eu de novo a pensar na melopeia dos riachos e nos chilreios dos pássaros: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as palavras singelas dos trabalhadores da Misericórdia a baterem-me na cabeça como badalos aflitos: “Vivo numa situação muito complicada, já desliguei o frigorífico porque está vazio. O meu filho vai para a escola sem um cêntimo no bolso porque não tenho dinheiro para lhe dar.”

 

E eu a tentar concentrar-me na musiquinha suave dos riachos e das fontes e a tentar assobiar: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… na companhia das aves. E a realidade da vida dos meus conterrâneos a dar-me bofetadas geladas: “Passei a Páscoa com 50 cêntimos no bolso.” E os passarinhos lá nas árvores: chriu, chriu, chriu… e as águas dos riachos a sussurrarem limpidez e tranquilidade. E eu a tentar concentrar-me na primavera, no sol, a tentar desviar o pensamento. Mas a ingrata realidade a dar-me murros no estômago, a dar-me a provar o fel do desespero: “As pessoas começaram a ouvir falar de crise agora, nós já estamos a vivê-la há muito tempo…”

 

E os pássaros: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E a realidade: “Somos nós que estamos a segurar a Santa Casa, nunca abandonámos o serviço.” E eu a tentar assobiar como os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E os passarinhos a assobiar como os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas tranquilas dos riachos a correrem para o Tâmega. E a realidade pura e dura a dar-me bofetadas: “Há pessoas que não têm dinheiro para vir trabalhar, nem para comer e sobrevivem graças à ajuda familiar.”

 

E os pássaros: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E o senhor Provedor, militante ativo do PSD local e com responsabilidades políticas evidentes na maioria que governa a nossa autarquia, a assobiar para o lado, afirmando que compreende a indignação dos funcionários. E o Governo a dizer que disponibiliza as verbas mas a não transferir o dinheiro. E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E eu: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas tranquilas dos riachos a correrem encosta abaixo pelo meio das ervas e das fragas.

 

E o senhor Provedor, que apenas por mero acaso é um militante destacado do PSD flaviense, a mostrar-se impotente para resolver a situação e a visitar as bruxas de Montalegre em noite de forte chuvada. E Deus a desconfiar da santidade da Santa Casa. E eu: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correrem tranquilamente para o vale. E o senhor presidente da Câmara a sorrir já não sabendo bem para quê, nem porquê. E o seu vice, que veio para os jornais afirmar-se como o provedor dos velhinhos, das mulheres desprotegidas e das crianças desvalidas, em parte incerta.

 

E João Batista a receber do sindicato dos trabalhadores a moção de protesto e a debater-se com a sua impotência operacional, com a insensibilidade dos “seus” governantes, com este pingue-pongue absurdo entre as culpas e a irresponsabilidade de uns e a inoperância de outros. E o João Batista a atrair a si os dossiês difíceis para libertar o seu vice para a campanha. E o António a dar de “frosques” enquanto os nossos munícipes passam as passas do Algarve.

 

E de repente os passarinhos levantam voo e vão chilrear para outras bandas. E eu sento-me num banco de um velho jardim destruído e tento lembrar-me da parte de uma peça qualquer de Bach. Eu gosto muito de Bach. Mas tenho dificuldade em apanhar assim de repente o seu cravo bem temperado. Ao longe observo os manifestantes a rumarem cabisbaixos a suas casas para provarem o sabor de amêndoa amarga das promessas de atenção dos nossos autarcas na sua infeliz Páscoa.

 

Entretanto abro um jornal da terra e dou de caras com o vice de João Batista. Afinal quem se quer bem sempre se encontra. Eu pelo menos encontro-o desde há uns meses a esta parte sempre nas páginas dos jornais tentando pôr-se em bicos de pés para dar nas vistas. Sempre em bicos de pés.

 

Numa página par do jornal, a subalterna em termos de importância de informação e publicidade, vem a notícia de que “a indefinição da posição da autarquia quanto ao GD Chaves levou a Comissão Administrativa do Desportivo a entender que não tinha condições para apresentar a candidatura que a levasse a assumir um mandato como Direção”. Concluo que a tal Comissão se fartou das belas palavras de João Batista, do seu sorriso militante e das inúmeras promessas por cumprir por parte da Câmara relativas a subsídios de atividades desportivas e a infraestruturas prometidas e nunca realizadas.

 

Leio depois que a Câmara de Chaves emitiu um comunicado reagindo às críticas da citada Comissão. Independentemente da letra do documento, que é uma afirmação de serôdios princípios, não vem assinado por ninguém. Ou seja, a posição é de toda a Câmara. Desta vez nem João Batista se mostrou disponível para arcar com toda a responsabilidade para cima das suas costas. E, estou em crer, o seu vice também fugiu dela com muita subtileza. Uma coisa é dizer-se que se faz. Outra é fazer. E o António é muito bom na primeira premissa, mas é péssimo na segunda.

 

No final, a tal CMC, não sabemos bem em nome de quem, diz que “não cede a pressões.” Deixem-me rir. Ai não que não cede. Não tem feito outra coisa desde que tomou posse. Sempre cedeu no interesse dos poderosos e no dos seus apaniguados. Só nunca cedeu numa coisa: na insignificância que permanentemente atribuiu aos verdadeiros interesses das nossas populações, nomeadamente na qualidade da educação, na defesa dos cuidados de saúde de todos os flavienses, na defesa da nossa agricultura e na defesa da cultura enquanto motor impulsionador de desenvolvimento. Relativamente à cultura sempre a tratou como um bem descartável, subsidiário, como um reclame luminoso que se põe numa montra para enganar pacóvios.

 

Na tal página ímpar, a guardada para as notícias mais importantes, aparece António Cabeleira e João Neves em distintas fotografias a distribuir medalhas a crianças que participaram num torneio de escassa importância, com o pomposo nome de “Torneio Pavão”. A notícia são meia dúzia de linhas. No entanto fotos são nove. E em duas delas aparece, e passo a citar: “António Cabeleira, vereador da CMC…” Desta vez o nosso estimado vice aparece a sorrir. Timidamente é certo, mas a sorrir. Para o semanário regional o António deixou cair o posto de vice para assumir o de simples vereador. Mas lá sobrevém sempre em bicos de pés, para se fazer notar.

 

Talvez porque lhe pese a consciência saber da situação dos flavienses que trabalham há meio ano sem receber um tostão e de nada ter feito para desbloquear a situação. Então a política apenas serve para entregar medalhas às crianças e dizer que vai fazer isto e aquilo para apoiar os idosos, as mulheres violentadas e as crianças desvalidas? E lá está o António a dançar o malhão em pontas para dar nas vistas.

 

Por cima de mim voavam novamente os pássaros a chilrear chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correr tranquilamente para o vale. E eu a arrepiar-me. E as palavras a baterem-me forte: “Assim não pode ser, trabalhar sem receber.” E eu a tentar de novo pensar na melopeia dos riachos, nos chilreios dos pássaros: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as palavras singelas dos trabalhadores da Misericórdia a reverberarem na minha cabeça: “Vivo numa situação muito complicada, já desliguei o frigorífico porque está vazio. O meu filho vai para a escola sem um cêntimo no bolso porque não tenho dinheiro para lhe dar.” E os pássaros a chilrear chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correrem tranquilamente para o vale. E o António Cabeleira e o João Neves a distribuir medalhas às crianças para aparecerem na fotografia e a realidade a bater-me forte: “Passei a Páscoa com 50 cêntimos no bolso.” E os passarinhos lá nas árvores: chriu, chriu, chriu… E as águas dos riachos a sussurrarem limpidez e tranquilidade. E o António Cabeleira e o João Neves a distribuir medalhas às crianças para aparecerem na fotografia e a realidade a bater-me ainda mais forte: Há pessoas que não têm dinheiro para vir trabalhar, nem para comer e sobrevivem graças à ajuda familiar.” E eu: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correrem tranquilamente para o vale. E o António Cabeleira e o João Neves a distribuir medalhas às crianças para aparecerem na fotografia e a realidade a bater-me ainda forte: “As pessoas começaram a ouvir falar de crise agora, nós já estamos a vivê-la há muito tempo…” E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correrem tranquilamente para o vale. E o António Cabeleira e o João Neves a distribuir medalhas às crianças para aparecerem na fotografia e a realidade a bater-me ainda mais forte: trabalhar sem receber… chriu, chriu, chriu… frigorífico vazio… chriu, chriu, chriu… sem um cêntimo no bolso… chriu, chriu, chriu… passei a Páscoa com 50 cêntimos no bolso… chriu, chriu, chriu… sem dinheiro para vir trabalhar, nem para comer… chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu…

 

E na página 24 e 25 do jornal uma enorme entrevista de António Cabeleira com o título de uma sua resposta: “Neste período de crise que estamos a viver pretendemos que o número de clubes mantenha a sua atividade…” E a puta da realidade a bater cada vez mais forte: “As pessoas começaram a ouvir falar de crise agora, nós já estamos a vivê-la há muito tempo…” E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correr tranquilamente para o vale. E o António Cabeleira: “Neste período de crise que estamos a viver pretendemos que o número de clubes mantenham a sua atividade…”  E a realidade dos trabalhadores a malhar forte: trabalhar sem receber… chriu, chriu, chriu… frigorífico vazio… chriu, chriu, chriu… sem um cêntimo no bolso… chriu, chriu, chriu… passei a Páscoa com 50 cêntimos no bolso… chriu, chriu, chriu… sem dinheiro para vir trabalhar, nem para comer… chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E o António Cabeleira: “Neste período de crise que estamos a viver pretendemos que o número de clubes mantenha a sua atividade…”  

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