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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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25
Abr12

O Poema Infinito (97): o espanto de Noé

João Madureira

 

A tua língua tem o brilho doce dos frutos. Pausa. A tua língua sabe a mar e o teu sexo sabe a sol. Outra pausa. Sigo diretamente para o teu corpo envolto na paz dos campos. O mundo é agora uma enorme flor imprevista. Tens a mesma alegria azul do dia e o verde da vida e o largo espectro laranja do verão. Espero-te dentro da radiação expansiva da exaltação. Quanto mais te alcanço mais apuro a minha luz interior. O meu corpo no teu corpo tem a mesma incandescência do magma. É essa a sua invisível virtude. É essa a sua evidente expansão. Quando cai a noite os nossos corpos ajustam-se à sua transparente solidão. E nela se prolongam. E nela se expõem. E nela desenham a subtilíssima linha do amor. E o amor é outra vez um imenso e faustoso vagar. É devagar que te cavalgo pensando em corpos de palavras imensas. O espaço é uma ausência submissa. Recuperamos a terra antiga e o fausto iluminado da paciência. O sábio silêncio da dádiva volta a ser escrito e reescrito. Todo o orgasmo é o lume perfeito. Sinto reinar em mim o ponto íntimo do desejo. A audição atenta do teu ritmo cardíaco coloca paciência nos nossos gemidos. E os gemidos expõem-se com o seu fulgor específico. Agora sou outra vez o pastor de sentimentos. O verdadeiro pastor de epifanias. O alicerce tensíssimo do rigor da minha respiração entrecortada. E as imagens explicitamente sexuais transformam-se em borboletas de eternidade. Subsiste sempre uma passagem submissa. É essa a eternidade fugaz do dia que nos entra pelos olhos com a sua radiação atómica. O tempo sobe pelas imagens e define-lhe o infinito. Passamos do refulgente crepúsculo atual ao limbo da bruma do passado. As imagens vivas voltam a ser abstratas. Todas as frases sussurradas voltam a ser intensamente ambíguas e os corpos voltam a ser frágeis. E os olhares voltam a entrar na sua luz de espanto. Ambos nos aquecemos no nosso fogo místico. O teu sexo abre-se até ao génesis. Novamente a entrega volta a ser uma dádiva eficaz. Aí celebramos a sua narração. O prazer aceso é novamente um sinal de glória. Acolhemo-nos naquilo que nos falta. Escutamos o silêncio que cresce dentro de nós. A sua unidade profunda. O seu sofrimento espantado. Repouso no evidente prodígio transparente do orvalho. Essa é agora a tua pele. É aí onde sacio a minha sede. Na sedução empolgante do teu sexo subtil. Na sua humidade de língua doce. Pausa. No seu brilho de fruto. Na sua surpresa imensa. Na sua abertura santificada. Quando fecho os olhos tudo se ilumina por dentro. O amor é esse vagar eterno. Essa extensão de glória. Esse júbilo da existência. Esse ato de persistência que se lê como quem sonha. Voltamos em maré alta. Os verbos corporais desassossegam-se indefinidamente. O teu corpo. O meu corpo. Ainda há tempo. A tua língua tem o brilho doce dos frutos. Pausa. A tua língua sabe a mar e o teu sexo sabe a sol. Outra pausa. Noé que se espante de novo. Pausa (a)final.

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