Sexta-feira, 27 de Abril de 2012

O Homem Sem Memória - 112

 

112 – Depois de malhar nos socialistas, de desancar a democracia, de execrar os parlamentos burgueses, de pregar a morte à reação, de defender a extinção da exploração do homem pelo homem, de exaltar a sublime ideia do socialismo científico, dos seus fundadores teóricos Marx e Engels, e dos seus obreiros superiores Lenine e Estaline, e do seu máximo defensor, impulsionador e divulgador em Portugal, o incansável camarada Punhal, passou à fase pragmática. E deu como único, derradeiro e exclusivo exemplo, a União Soviética. A querida e revolucionária União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, berço e alfobre dos líderes eternos do comunismo: Lenine e Estaline. E do prestigiado Brejnev.


E não poupou nas palavras, nem no entusiasmo, nem no engodo. A União Soviética, a dileta pátria de Lenine e Estaline, a querida e revolucionária União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, era o Farol do Socialismo, o Sol que iluminava o Mundo.


O camarada Punhal bem o afirmava. E afirmava-o de tal maneira que não havia forma de o contradizer. Porque a verdade não se contradiz, aceita-se tal como é: pura. Por isso é que é verdade, senão é outra coisa qualquer menos verdade. E, como muito bem ensinou Lenine, e afirma o camarada Alberto Punhal, só a verdade é revolucionária. Por isso é que o Partido é a verdade, porque só ela é revolucionária. E como o Partido é revolucionário só pode interpretar, difundir e defender a verdade. Toda a verdade. Nada mais do que a verdade.


E não se coibiu de vender a banha da cobra e insistir na característica visionária do venerável camarada Punhal.


A ele, ao camarada Punhal, ninguém o conseguia contradizer. Ninguém era capaz de tamanha ousadia, de tal atrevimento. Porque não se consegue contradizer a verdade. E o camarada Punhal – tal como o Partido, tal como Marx, tal como Engels e tal e qual como Lenine e Estaline –, só profere a verdade porque não sabe falar de outro modo.


“Ele, o camarada Punhal, conhecido na intimidade como o comunista de Cristal, apenas diz verdades, verdades tão verdadeiras como punhos, bem como punhos não porque esse é o símbolo dos socialistas traidores de Mário Soares. Punhal diz verdades como foices, como martelos, como estrelas, sim como estrelas refulgentes. Ele é, era e será, ó se será!, a estrela polar do Partido e do Movimento Comunista Internacional. É a modos como a lâmpada do farol do internacionalismo proletário, que no meio da tempestade marítima do capitalismo ilumina a humanidade.”


O seu, dele, do camarada Punhal, claro está, prestígio e a sua inteligência ímpares permitiram-lhe assistir mesmo às reuniões do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética, mais conhecido pela sua sigla de PCUS. O querido partido de Lenine e Estaline.


Com o seu entusiasmo de papagaio comunista continuou a dar largas à liturgia marxista-leninista.


“E viva o socialismo. Ou melhor: E viva o comunismo. O socialismo é uma fase de transição entre a sociedade burguesa, capitalista, decadente, e uma sociedade de novo tipo. Já o comunismo é o fim da decadente e maléfica sociedade capitalista e o início do paraíso na Terra. É uma outra sociedade. Uma sociedade novinha em folha. Como uma fábrica de frigoríficos… Não de frigoríficos não, senão lá vão de novo associar os comunistas à Sibéria e a essas falsidades reacionárias de que os revolucionários são frios e calculistas. E isso é uma tremenda, uma medonha, uma ignóbil mentira.


O comunismo é uma sociedade sobretudo parecida com uma fábrica de tratores, que podem andar devagar mas fazem-no com firmeza. Mas qualquer dia a URSS transforma-se numa fábrica de produzir aviões a jato rumo ao comunismo.


Por muito que custe à reação, os comunistas também são seres humanos, mesmo que por vezes o não pareçam. Também comem, bebem e amam. Sim, também amam, comem e bebem. Só que para eles a revolução está antes de tudo e depois de tudo. E, o que é ainda mais importante, no meio de tudo.


Um verdadeiro comunista só pensa em fazer a revolução que nos leve ao comunismo. Só come para fazer a revolução. Apenas bebe para fazer a revolução. Unicamente ama para fazer a revolução. Simplesmente trabalha para fazer a revolução. Somente estuda para fazer a revolução. Só se diverte para fazer a revolução. Porque uma revolução que não nos encaminhe na direção do comunismo não é revolução não é nada.


Os comunistas não querem apenas construir uma sociedade melhor do que esta. Os comunistas lutam por uma sociedade perfeita: o comunismo. Os comunistas não são gente de meias tintas. Por isso são superiores moralmente. A quem duvide recomendo a leitura do livro do camarada Punhal: “A Moral Superior dos Comunistas”.


Sim, os comunistas não são gente de meias tintas. Por isso são moralmente superiores a todos os outros. O nosso símbolo é a foice e o martelo, o símbolo sagrado da aliança operária e camponesa. A nossa bandeira é vermelha e nela está inscrita uma estrela amarela como símbolo do internacionalismo proletário. E está tudo dito.


Nós não nos escondemos atrás de um punho e também não nos encobrimos atrás de setas, ou chaminés, que apontam o céu. O céu dos pardais ou dos parvos. Ah, ah, ah! Nós não estamos aqui para enganar ninguém. Nós representamos o povo, nós somos os filhos diletos do povo.


Ao contrário dos católicos, que prometem o Éden numa outra vida, os verdadeiros comunistas planeiam construir o Paraíso na Terra.


Entendamo-nos, para que não fiquem dúvidas, o comunismo é melhor do que o Paraíso, pois o Paraíso é apenas uma ficção bíblica enquanto o comunismo é uma realidade científica provada por Marx, Engels, Lenine e Estaline.


Apesar do mundo estar uma confusão, ainda bem que existe a União Soviética. Se não fosse a URSS, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a corajosa pátria dos sovietes, dos operários e camponeses, o mundo não tinha farol, não tinha norte, não tinha rumo, não tinha futuro, não tinha nada além de escravatura, exploração, ignorância e doença. O mundo seria o reino das trevas.


Os camaradas que lá viveram são as melhores testemunhas do extraordinário milagre que se operou na URSS. E este milagre não se ficou a dever à intervenção divina, mas antes ao trabalho e à luta dos homens. Dos homens e das mulheres que deram a sua vida para que ali nascesse a verdadeira sociedade socialista a caminho do comunismo. Que venceram a burguesia, que derrotaram o Czar, que abateram o nazismo e Hitler.


A organização bolchevique derrotou os príncipes, os descendentes dos boiardos, a nobreza, os seus lacaios e os kulaks. E de uma sociedade praticamente feudal construiu uma das sociedades mais avançadas do mundo. Senão mesmo a mais avançada. Pelo menos em termos sociais e humanos.


Ali não existem classes, não subsistem exploradores, não existem explorados. Na URSS são todos iguais. Todos têm os mesmos direitos. Todos trabalham e ninguém faz greve. Fazer greve para quê? Na pátria dos sovietes ninguém explora ninguém. A exploração está proibida por lei. Lá todos são obrigados a ser felizes, a defenderem a igualdade, a serem cultos e saudáveis.


Na URSS, os seres humanos nascem iguais em direitos e deveres. Ali não se brinca ao socialismo. Ali constrói-se o comunismo como quem tempera o aço. Na URSS quem manda são os operários. Ou melhor, quem manda é o Partido dos operários, que é a vanguarda do seu povo, que é a nata do proletariado russo. E quem dirige o Partido é o Comité Central, que é o órgão mais importante que lá existe.


O Partido Comunista da URSS é um partido de novo tipo. Não é como os partidos que estamos habitados a ver. Lá o Partido manda em tudo. Mas em tudo mesmo. Lá não se brinca, nem com a economia, nem com as finanças, nem com a educação, nem com a saúde, nem com a felicidade das pessoas. Lá todos têm acesso aos bens de consumo e quase tudo é grátis. Então de cultura nem se fala. Lá a felicidade não é apenas um direito. É, sobretudo, um dever. Bem assim como a cultura, a saúde, a educação, etc. Podemos afirmar que a felicidade na URSS não é uma ilusão, é a nova ordem bolchevique.”


De seguida mandou distribuir umas revistas da URSS pelos assistentes e deu-lhe uma aula prática de felicidade. Na capa, como todos puderam reparar, um casal de operários soviéticos saía de uma fábrica a rir-se. Mas a rir-se mesmo, com todo o contentamento estampado no rosto. De mão dada e a rir empanturrados de felicidade comunista.


Lá o trabalho não era castigo, não era obrigação, não era dever. Era mesmo uma dádiva, um prazer. Na URSS todos trabalhavam para o bem comum. Todos eram felizes porque faziam a felicidade dos seus camaradas. Na URSS todos eram irmãos, todos eram iguais, todos eram camaradas, mas camaradas mesmo.


Seguidamente evidenciou algumas páginas interiores para comprovar a foto da capa. De facto, os operários não só saíam da fábrica bem vestidos, bem lavados e engomados, e os casais a sorrir e de mão dada, como entravam logo de manhãzinha a sorrir, a cantar ou a assobiar o Kalinka (aqui vos deixamos a primeira quadra em cirílico para desfrutarem: Калинка, калинка, калинка моя! / В саду ягода малинка, малинка моя! / Калинка, калинка, калинка моя! / В саду ягода малинка, малинка моя!), ou algo do género, trabalhavam dentro das fábricas com um sorriso rasgado na face, fossem eles camaradas operários trabalhadores operários ou camaradas operários trabalhadores dirigentes ou camaradas operários trabalhadores vigilantes ou camaradas operários engenheiros trabalhadores ou ainda camaradas operários trabalhadores do Partido que ali estavam, não para vigiar ou controlar, mas para dar ânimo, para incentivar, para glorificar o comunismo, o trabalho e a organização de todos os camaradas que sorriam enquanto trabalhavam devidamente organizados, esclarecidos e orientados.


Mas os risos e os sorrisos não acabavam aí. Ou melhor, todos os camaradas que apareciam na revista sorriam, estivessem eles nas fábricas, em suas casas, nas escolas, nos museus, na rua, nas filas de abastecimento para o papel higiénico ou para o sabão. Sorriam com toda a satisfação do mundo. O papel higiénico e o sabão podiam escassear, mas, como muito bem dizia o camarada esclarecedor, a URSS ainda não era a sociedade perfeita. O papel servia para coisas mais nobres do que produzir papel higiénico. Servia para imprimir livros, revistas e jornais, como por exemplo o Pravda.


Aqui o camarada fez uma pausa para beber água e teorizou: “Poderão os camaradas e amigos pensar que se resolve o problema utilizando as folhas do Pravda para a higiene pessoal. Mas quem é que se atreve a limpar o rabo ao jornal que é o órgão da classe operária e do Estado Proletário Russo? É como pensar utilizar A Verdade como papel higiénico. Alguém é capaz?


O José, na sua ingenuidade democrática, preparava-se para responder afirmativamente quando o Graça lhe deu um forte encontrão que o pôs confuso.


Prossigamos. Como o camarada esclarecedor ia dizendo, a URSS ainda não era uma sociedade comunista. O papel higiénico assim o demonstrava, mas caminhava nessa direção. Ainda não estava lá, mas caminhava nesse sentido. Ai caminhava sim senhor. Mas o caminho não era fácil.


Podiam ter problemas em arranjar sabão para tomar banho e em limpar o rabo com alguma comodidade, mas possuíam foguetões proletários, possuíam tanques operários, aviões e bombas atómicas comunistas tão perfeitas que defendiam a pátria do socialismo, das guerras e das pérfidas bombas atómicas capitalistas.


Já um pouco cansado, o camarada esclarecedor deu por terminada a primeira parte da sessão, pôs-se de pé e começou a gritar a sigla do Partido e a cantar a Internacional e o Prá Frente Camaradas, no que foi acompanhado pelos presentes com muito carinho, respeito e sofrível afinação.


De seguida foram distribuídas algumas fichas de adesão que muitos dos presentes preencheram como quem compra um bilhete de lotaria que os podia fazer ganhar o Paraíso na Terra. O José deixou essa felicidade para mais tarde. 


publicado por João Madureira às 07:00
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