Quarta-feira, 2 de Maio de 2012

O Poema Infinito (98): recomeço

 

Hoje o silêncio das minhas palavras interiores preencheu-se de fábulas instantâneas. Depois desfiz-me desse assédio de ausência e da sua incessante procura circular. Cá fora as mesmas marcas coloridas do tédio e da afeição procuram defender-me do mundo. As pessoas passam inscritas nos passeios e nas janelas e nas portas das casas. E as estradas perseguem o céu oblíquo e os homens e as mulheres continuam a perseguir o seu destino que não é destino nenhum. Por isso eu escrevo nos jardins aproveitando a tinta da sua água, do seu verde e do fogo da luz do seu sol. E escrevo palavras de sossego inscritas nas suas folhas e nas sombras dos seus muros. E escrevo-te, e escrevo-me, com o sabor da surpresa. Escrevo por dentro das formas perfeitas e suaves dos frutos. Escrevo em arabescos de uma leveza mágica. Escrevo em sulcos que se inclinam para a embriaguez húmida da terra. Escrevo nas árvores que se incendeiam. Escrevo sussurrando primaveras e soprando invernos e moldando pequenos planetas de açúcar. E a tarde encanta-se agora com as nuvens que são calmas e que deslizam em silêncio sopradas pelo nosso desejo e pela nossa ilusão. Uma princesa ilimitada abre-se no espaço subtil de uma ideia e luta contra a violência espantada da infância. E ilumina e inunda os sonhos dos livros que pesam as suas sílabas de sombra. E os duendes descem pelos bosques à procura de meninas descalças e das formas da água do orvalho e dos pássaros suspensos e da sede da terra e das palavras que fazem histórias verticais. E a água move-se e os duendes tremem e a princesa ri-se como se fosse uma possibilidade de bruxa má. Agora as nuvens germinam nas suas esferas translúcidas e nos seus anéis de água. Num banco de jardim, duas bocas descobrem-se no seu veludo incandescente e saboreiam o perfeito sabor dos frutos lisos e do seu sumo fresco. E os dois corpos encerrados nas suas superfícies delicadas abrem-se como círios vermelhos e brilham por dentro do seu calor, da sua volúpia, do seu desejo. Os seus olhos embriagam-se e absorvem toda a luz do arco-íris onde agora dormem as nuvens. Uma brisa fresca expande-lhes o odor da sua orgia verde. São agora um corpo duplo e uno. E criam a origem do mundo e escutam as palavras em festa dentro do seu princípio de aprendizes de amantes. Eu decido parar tudo para escutar a sua festa de silêncio. Distintas coisas vacilam e concentram-se e dilatam-se por cima deste jardim de espuma. Mais ao longe uma criança brinca na relva acariciando o tempo que tão mal lhe há de fazer. O ar prolonga-se no entardecer. Nada se cria. O vazio concentra-se. Sinto a minha respiração aflita. Olho o par aninhado no banco de jardim. Algo me inunda. Reconheço-me. Reconheço-nos. Algo se incendeia. Tudo recomeça. 


publicado por João Madureira às 07:00
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1 comentário:
De Cris a 3 de Maio de 2012 às 14:59
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