Sexta-feira, 4 de Maio de 2012

O Homem Sem Memória - 113

 

113 – Depois do enquadramento teórico, e logo após o exemplo prático, o camarada esclarecedor decidiu, na segunda parte do seu douto esclarecimento, reportar-se ao Partido, à história do Partido, à luta do Partido, à organização do Partido, ao Comité Central do Partido, e, novamente, ao Secretário-Geral do Partido, o Camarada de Cristal Alberto Punhal, a quem o glorioso Partido glorioso devia a sua força telúrica, a sua organização exemplar e a sua pureza ideológica.


Durante o tempo que demorou a referir-se ao Camarada de Cristal, os luzeiros do camarada esclarecedor brilharam como duas estrelas cadentes, como as que indicaram a corte onde o menino Jesus, Maria, a sua mãe, e José, o seu putativo pai terreno, aguardaram durante algum tempo a visita dos Reis Magos.


 A boca do camarada era como a bandeira vermelha desfraldada a adejar e a adejar ao vento, sempre com a nítida intenção de apontar a revolução proletária e a vitória final do comunismo. A vitória final.


Alberto Punhal tinha esse efeito catártico e redentor nos comunistas, era como um profeta venerável e venerado. Era até mais do que um Profeta, era um vidente, um homem que redimia os outros homens, e, claro está, as mulheres e os jovens, pela sua coragem, pela sua razão e pelo seu exemplo. Ele prometia-lhes (e havia de cumprir, sim havia de cumprir, havia de cumprir com toda a certeza), o céu na terra, o esplendor do comunismo, os amanhãs que haviam de cantar como o galo mais atrevido da capoeira da Dona Rosa o fazia todas as manhãs para acordar a capoeira, os da casa e o resto do bairro. Não antes do galo cantar três vezes, como o outro fez a Cristo para cumprir com o plano divino. Não sei se ainda me estão a seguir.


Portanto, ele, o Camarada de Cristal, não se limitava a ser um Cristo redentor, era um Deus triunfador. Um Deus objetivável e objetivado. Um deus quase humano. Um ser humano quase divino.


Relativamente à história do Partido, o camarada esclarecedor tagarelou que se fartou. Todos ficaram com a nítida sensação de que a verdadeira História de Portugal apenas principiou quando o glorioso Partido foi fundado.


A partir daqui talvez seja aconselhável dar a palavra em direto ao camarada esclarecedor. Assim evito más, ou desviantes, interpretações, juízos de valor arreliadores e ainda outro tipo de complicações abstrusas.


Ei-lo, o discurso: “A História. Falam da História de Portugal como se fosse verdadeira. Tudo o que lá vem escrito não passa de uma patranha, de uma falsificação, de uma história muito mal contada, relatada pelos vencedores, narrada pelas classes altas, ou pelos seus lacaios, pois a maioria da realeza era de um analfabetismo atroz e a burguesia não se lhes ficava atrás. E, para mal dos nossos pecados, os traidores sempre existiram ao longo da história, sempre prontos a servir quem os escravizava, os explorava, os ridicularizava. Os lacaios sempre foram piores dos que os seus amos.


A História de Portugal junguiu a luminosidade frenética, e enganadora, da exaltação da realeza com o desengano e as trevas da pobreza, da ignorância e da escravidão. Uma pequena minoria rebentava de fartura enquanto a imensa maioria do nosso querido e estimado povo definhava na mais impúdica miséria. Os ricos apenas serviam para folgar e mandar, enquanto os pobres aprendiam a matar e a morrer em nome de uma pátria que não os amava, de uma realeza que os desprezava, de um clero que os amaldiçoava e os condenava a viver no inferno antes de para lá irem, de um monarca que os detestava e de uma burguesia que os explorava até ao tutano. E isto foi assim durante séculos e séculos, até aos nossos dias.


O obeso D. Carlos teve mesmo o atrevimento de chamar ao seu próprio país piolheira. Ele é que era um pilho loiro e gordo que se alimentava da pobreza da plebe. Por isso, um filho do povo o abateu com um tiro certeiro.


Depois veio esse filho das trevas provincianas que governou este país sem sair de casa, a comer o seu caldinho à braseira e a beber o seu copinho de vinho fino que a empregada doméstica lhe servia. Antes lhe tivesse servido cicuta e tínhamos poupado imenso em vidas humanas.


O povo podia andar cheio de piolhos, passar uma lazeira de meter dó, mas tinha dignidade. Amava, e ama como nenhum outro, o seu país, a sua terra, os seus valores, as suas tradições. Os reis podiam comer do bom e do melhor e viver em palácios esplendorosos que não passavam de uns ignorantes pançudos. Quanto mais ignorantes mais pançudos e quanto mais pançudos mais ignorantes. Era este o círculo vicioso da monarquia e mais tarde do fascismo.


Enquanto a grande maioria do povo português morria à fome, os homens e as mulheres da realeza rebentavam de fartura. Morriam, com vossa licença, a arrotar por cima e por baixo. (Ah, ah, ah!, riu a plateia com ar sério.) Isso acontecia porque o povo, o nosso querido e estimado povo, não tinha consciência de classe, não tinha a perceção da sua força, não dava valor à sua genuína importância. Não se unia, não se organizava, não tinha ainda um partido que o defendesse. Todos sabemos que um país não existe sem o povo. Sem o seu povo. Mas o povo pode muito bem passar sem os poderosos. O que não pode passar é sem o seu glorioso Partido. E é aí que bate o ponto.


Depois de séculos e séculos de trevas, de outros tantos de enganos, e de décadas de ilusões e desilusões, eis que surge uma organização de novo tipo, fruto da luta tenaz e da afirmação intrínseca dos explorados que, já fartos de tanta exploração, tanta miséria e tanta palavra gasta em seu favor, se organizaram e criaram o nosso glorioso Partido.


Um partido marxista-leninista, um partido que nasceu com a intenção suprema de conquistar o poder para o povo. Não em nome do povo, mas com o povo e para o povo. Ali de braço dado com ele, o povo, numa aliança sagrada entre os operários, os camponeses e os verdadeiros intelectuais, aqueles que se aliviaram da sua carga libertina, titubeante e questionadora para abraçarem a verdadeira luta de classes em defesa da sua pátria e do seu povo. Não em seu nome, mas com ele, o povo, o nosso querido e estimado povo, o heroico povo português, ali lado a lado com o glorioso Partido, como uma muralha de aço. Nessa vontade libertadora, nesse fervor revolucionário que inflama a Europa e o mundo, que põe de joelhos a burguesia e que atemoriza o grande capital e os interesses financeiros.


Antigamente os filósofos tentavam compreender o mundo, mas, como muito bem disse Marx, o que urge fazer é modificá-lo. Já basta de tanta compreensão, de tanto estudo, de tanta palavra, de tanta argumentação. É chegada a hora de fazermos a revolução. É chegado o momento de os escravos se libertarem das grilhetas da opressão, da exploração e da subjugação. Não em nome do povo, mas com o povo. Com o heroico povo português. Esse povo que deu novos mundos ao mundo.


Quando o glorioso Partido Comunista foi fundado, com ele nasceu um mundo distinto, um mundo com diferentes possibilidades. É como se Portugal tivesse sido criado de novo. De certa maneira foi isso que aconteceu, pois já nada será como dantes.


Por isso é que o Partido é um coletivo combativo, com uma ideia bem definida daquilo que pretende, do caminho que tem de trilhar, das armas que vai ter de utilizar, das alianças que vai ter de fazer e das lutas que vai ter de travar. Não em nome do povo, mas com o povo. Sempre, sempre ao lado do povo.


Para isso é preciso ganhar corpo, conquistar militantes, convencer cada vez mais e mais pessoas da nossa verdade, da nossa determinação, da nossa coragem, da nossa frontalidade, da razão que nos assiste e da nossa fé inabalável no futuro, no marxismo-leninismo, no comunismo.  


Mas uma revolução não se faz sem revolucionários. Sem verdadeiros revolucionários. E os verdadeiros revolucionários só podem surgir dentro do Partido. É certo e sabido que os verdadeiros revolucionários apenas podem ser comunistas. E vice-versa. Para isso necessitam de esclarecimento, informação, enquadramento, estudo. Enfim, carecem de trabalho revolucionário. Não em nome do povo, mas com o povo. Sempre, sempre ao lado do povo.


Não é apenas a leitura dos clássicos marxistas que faz um verdadeiro revolucionário. Se fosse apenas isso a revolução podia fazer-se já amanhã de manhã. Não. Um revolucionário é aquele que junta a teoria à prática, é aquele que não se limita a compreender e a explicar o mundo. É todo aquele que o quer modificar e que para isso não se coíbe de pegar em armas, se necessário for, para fazer triunfar a revolução. Não em nome do povo, mas com o povo.


Por isso é que o Partido faz estas sessões de esclarecimento, para trazer para o seu seio os melhores filhos do nosso povo. É com eles que o partido da classe operária vai chegar ao poder. Não em nome do povo, mas com o povo. Sempre, sempre ao lado do povo. Com o povo e com mais ninguém. Disso o Partido não abdica. Apenas a vitória da classe operária, em sagrada união com os camponeses, é que libertará Portugal do jugo do capitalismo e do imperialismo. Não existe outra forma. O marxismo-leninismo nisso é clarinho como água: para a classe operária triunfar é preciso derrotar a burguesia e os capitalistas. Eliminá-los definitivamente até deles nada restar, a não ser os seus restos expostos no museu da exploração. (Ah, ah, ah!, sorriu, como quem tosse, o camarada esclarecedor.)


Aderir ao Partido é um ato de coragem, um ato de fé revolucionária, um ato apenas ao alcance dos mais corajosos, dos mais altruístas, dos mais inteligentes. Aderir ao Partido é entrar no comboio da nova História, no comboio do futuro, no comboio do comunismo. O comunismo é o futuro da Humanidade. E quem disser o contrário mente. Os outros que se dizem socialistas, sociais-democratas, liberais, democratas-cristãos, ou maoístas, pois para o caso tanto dá, apenas são um carrossel que anda às voltas, às voltas, mas não sai do sítio.


O Partido só é grande porque foi forjado na luta contra o fascismo, na luta em defesa dos operários, dos camponeses e dos estudantes. O Partido só é grande e glorioso porque é filho de um grande e heroico povo: o português.”


No final, o camarada esclarecedor apelou mais uma vez à adesão ao Partido, e, na companhia da mesa e de toda a plateia, pôs-se a gritar repetidas vezes, como um possesso, de punho direito erguido, a sigla do Partido, (pois com a esquerda não podia ser, dado que era dessa forma que os socialistas de Mário Soares se manifestavam), cantou a Internacional e no final escutou as palmas da assistência com ar circunspecto, imitando na perfeição a pose de Alberto Punhal.


Apenas o José se inibiu, na hora de gritar a sigla partidária, de levantar o punho, pois era canhoto, e de cantar a Internacional. O Graça bem olhou para ele com cara de Estaline, mas o José nisso era intransigente, ninguém o conseguia pôr a cantar uma canção que não sabia e não compreendida, a gritar três letras que nada queriam significar e a dar murros no ar como se quisesse intimidar alguém. Além disso era canhoto.


O José era homem de outras guerras. As missas coletivas provocavam-lhe urticária. Tinha todas as razões e mais algumas para se afastar do Partido, mas parece que o destino marca a hora, ou pelo menos coloca o timbre no lugar-comum, e, em vez de se afastar, como lhe recomendava a razão, ou pelo menos o seu sexto sentido, aproximou-se. Se tivesse rasgado a ficha e queimado o livrinho teria sido bem melhor. Evitava dessa forma ser o mártir que mais à frente reconheceremos. 


publicado por João Madureira às 07:00
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