Segunda-feira, 7 de Maio de 2012

Da expetativa ao imobilismo (XIV): a lógica do entretenimento

 

Vivemos tempos estranhos. Apesar de habitarmos no mesmo país, na mesma região e na mesma cidade, parece que cada vez conhecemos menos as pessoas.

 

A urgência do poder, da manutenção do poder, da autoafirmação do prestígio saloio, vão minando as amizades, as afinidades institucionais e as relações humanas entre amigos, conhecidos e vizinhos.

 

Já ninguém acredita em ninguém, nem em nada. Impôs-se a desconfiança como método, a indiferença como forma de vida e de relação social e a hipocrisia como alimento espiritual.

 

Vivemos tempos estranhos, mas, apesar disso, é neles que temos de arranjar força para acreditar em alguma coisa.

 

Até porque não somos todos iguais, não somos todos indiferentes, não somos todos irresponsáveis, não somos todos mentirosos, não somos todos arrogantes. Nem somos todos parvos.

 

A nossa terra tem de ter futuro, os nossos jovens têm de ter futuro, as nossas gentes têm de ter futuro. E o futuro constrói-se no presente com a vontade e com a coragem dos resistentes, dos lutadores, dos perseverantes.

 

Eu quando digo que acredito no futuro sei porque o digo. Porque conheço gente que não desiste, que se esforça por lutar, que se empenha em construir uma ideia de progresso, uma luz ao fundo do túnel. Uma alternativa.

 

Parece que tudo anda a encolher. Os sentimentos, a liberdade, os direitos e os deveres. E também o país. E ainda os lares da terceira idade e as nossas escolas, pois os senhores ministros, escudando-se na crise económica, resolveram pôr mais gente nos quartos dos lares e mais jovens nas salas de aula.

 

Entretanto o governo, por determinação europeia, resolveu aprovar legislação que determina que tem de aumentar o espaço a ocupar por cada galinha poedeira, bem assim como melhorar o arejamento das gaiolas.

 

Ou seja, os idosos, as nossas crianças e jovens podem enfiar-se nos quatros e nas salas como as sardinhas na lata, enquanto as galinhas ganham espaço e arejamento.

 

Por isso é que eu digo que vivemos tempos estranhos.

 

Posso mesmo adiantar que até na área da saúde a esquizofrenia tomou conta da lógica. Penso que estou em condições de explicar a razão deste governo se ter empenhado tanto no incremento do desemprego. Pois porque, segundo um estudo recente, trabalhar engorda. E a gordura faz tão mal às pessoas como o tabaco. Ou seja, as pessoas com problemas sérios de obesidade, à semelhança dos fumadores, vivem em média menos oito a dez anos que as de peso normal. Por isso o governo, para poupar na saúde, investe no desemprego.

 

Como estamos em crise, o governo, não podendo atalhar aos dois problemas, pelo menos minora um deles. O que pode não ser a solução perfeita mas, temos de admitir, é uma solução curiosa.

 

E por falar em saúde, não quero deixar passar em claro o facto de os deputados do PSD pelo distrito de Vila Real terem mostrado a coragem, e o arrojo, sejamos sinceros e verdadeiros, de questionaram o senhor ministro da Saúde. E não o fizeram de ânimo leve. Qual quê! “Questionaram-no formalmente”.

 

Sim, transcrevi corretamente, para que conste, “questionaram-no formalmente” sobre “os fundamentos invocados pelo Conselho de Administração do CHTMAD para proceder ao encerramento do serviço de urgência da especialidade de cardiologia da unidade hospitalar”.

 

Uma nossa conterrânea morre tragicamente entre a ineficácia e a inoperância dos serviços e a estupefação dos familiares e amigos, e os senhores deputados do PSD de Vila Real questionam formalmente o senhor ministro sobre se a “unidade hospitalar de Vila Real tem efetiva capacidade de resposta para todas as ocorrências do foro cardiológico do distrito”.

 

Repito: Uma senhora morre às portas de um hospital por indefinição dos serviços e por teimosia das leis e dos enquadramentos e de outras balelas do estilo, e os senhores deputados do PSD pelo distrito de Vila Real fazem perguntas formais ao senhor ministro.

 

E foi para isto que os transmontanos votaram nesta gente? Pelos vistos foi. Pois! Por isso é que o prestígio dos políticos anda pelas ruas da amargura.

 

Torno a repetir: Uma senhora morre tragicamente e os senhores deputados escrevem perguntas numa folha.

 

Bonito serviço. Até parece uma piada de mau gosto. Será para isto que servem os nossos políticos? Será para isto que serve a democracia? Será para isto que serve o parlamento? Será para isto que servem os deputados? Pois, pelos vistos, é sim senhor.

 

Num texto lamechas e torturado, uma senhora deputada, que faz parte do grupo, resolveu escrever o seu ato de contrição afirmando que sente a perda de valências do hospital de Chaves. Fala ainda de alarmismo, de insegurança, de indignação e de ocorrências trágicas. De seguida comenta pieguices, escreve banalidades, lugares comuns e incongruências.

 

Um pouco mais à frente afirma que há necessidade de agir, no sentido de reverter decisões, em diálogo com as populações, os autarcas e as estruturas vivas da comunidade.

 

Estruturas “vivas” da comunidade? Conhece outras? Ou estará a referir-se ao seu próprio partido que depois de ir para o governo engoliu os apitos laranjas e escondeu as vuvuzelas no sótão com que se manifestava ao lado dos comunistas, dos bloquistas e da CGTP?

 

Seguem-se-lhe ainda mais uns quantos lugares comuns e outras tretas do género e que lhe fica bem entender ser seu “dever denunciar os constrangimentos que se colocam aos cidadãos dos nossos concelhos.”

 

“Denunciar os constrangimentos?” Então uma senhora morre por falta de atendimento médico e a senhora deputada pretende denunciar os constrangimentos?

 

Denunciar os constrangimentos? Olhe que estamos a falar de soluções, e situações, que podem fazer a diferença entre a vida e da morte dos nossos concidadãos. Porra! Isto não é nenhum concurso epistolar.

 

E para denunciar os constrangimentos estou cá eu. A senhora tem por missão fazer mais e melhor, muito melhor, senão corre o sério risco de ser apenas um verbo-de-encher. Tem de lutar, tem de propor e votar leis sérias e realistas, tem de intervir na assembleia, tem que propor regras e soluções alternativas.

 

Em suma, tem de agir de acordo com o que se exige a um deputado da Nação: atuar, lutar, esgrimir argumentos, fazer política, incomodar, denunciar. Não vir para os jornais da terra dizer que fez uma pergunta formal ao senhor ministro.

 

Uma pergunta formal? Mas isso serve para quê? Quais os seus efeitos práticos? Estou em crer que a vossa pergunta vai ter o destino do caixote do lixo.

 

Na parte final diz que espera “as respostas a estas questões”. Olhe, eu dou-lhe um conselho de amigo: Espere sentada, como é seu timbre. Pois a resposta é bem capaz de não vir. E se vier, com toda a certeza que não será resposta nenhuma, pois a pergunta é uma espécie de atitude do tipo “agarrai-me senão eu bato-lhe”.

 

Atos deste tipo não servem nada nem ninguém. São uma pura perda de tempo. São uma incongruência política. Ou melhor, nem sequer isso são. Este tipo de procedimento é a política da subserviência. E por isso nada vale, nada adianta e de nada serve. Palavras leva-as o vento. E pensar que o país paga bons ordenados a quem tão pouco faz!

 

Alguns deputados fazem-me lembrar o capitão Flume, uma personagem do comicamente genial romance de Joseph Heller, Catch-22, que “dormia como um cepo todas as noites e limitava-se a sonhar que se conservava acordado. E os sonhos eram tão convincentes, que despertava deles todas as manhãs totalmente exausto e voltava em seguida a adormecer”.


publicado por João Madureira às 07:00
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