Domingo, 13 de Maio de 2012

Da expetativa ao imobilismo (XV): as raposas não alteram hábitos, só mudam de pelo

 

António Cabeleira, o instável líder do clã laranja flaviense, que me desculpe mas desta vez pretendo ir um pouco mais alto. Não é por o António ser, como escrevia Bocage acerca de si próprio, “meão de altura”, tal evidência foi a madre natureza a ditar, por isso está desculpado, mas é antes por causa do país, que está mesmo em baixo, prestes a tocar no fundo.

 

Já todos percebemos, para mal dos nossos pecados, que a maneira como o executivo de Pedro Passos Coelho está a governar o país é precisamente através do medo, da chantagem e da coação. A contenção, a austeridade, a pressão inevitável, a ameaça é tão intensa que não há alternativa visível.

 

Ora se a nível nacional, o medo é a arma utilizada, já aqui por Chaves, a estratégia do PSD passa pela elaboração de peças ficcionais baseadas na mais pura das demagogias, ou da desistência. Ou, ainda, no exercício de uma pressão injustificável sobre o aparelho camarário que tem resultado no seu estrangulamento. Isto mesmo debaixo do nariz de João Batista que continua a sorrir como se fosse essa a sua máscara que tudo desculpa e tudo pretende explicar.

 

Pelo meio, António Cabeleira limita-se a jogar xadrez com o seu putativo adversário interno, tentando asfixiar o que ainda resta de alternativa democrática flaviense dentro do seu próprio partido. 

 

Cada vez mais ficamos com a impressão de que os atos eleitorais são meras formalidades. Os votos dos portugueses são utilizados como o papel higiénico, usam-se uma vez e deitam-se fora.

 

De facto, o governo de PPC vai passar à história, se por outra coisa não for, como o maior embuste fabricado pós 25 de Abril. O homem teve mesmo o desplante de considerar que, nesta altura, o desemprego pode ser uma oportunidade para mudar de vida. É caso para dizer que o primeiro-ministro devia ser o primeiro a colocar tal ideia em prática indo para casa regar as plantas e passear o cão. Era um favor que fazia a si próprio e, sobretudo, ao país.

 

O robot de fala lenta, que dá pelo nome de Vítor Gaspar, ministro das Finanças, pertence à escola doutrinária que está a mergulhar Portugal, e a Europa, na maior crise das últimas décadas.

 

A princípio surpreendeu o país com a forma como usava as palavras, por causa do tom com que falava, pelo ar de credibilidade e solidez argumentativa com que se dirigia aos portugueses.

 

Um ano depois já ninguém o suporta devido ao facto de se ter enredado nas suas falsas promessas, nomeadamente na trapalhada da reposição dos subsídios e nos números do desemprego, multiplicando-se em pedidos de desculpa e, muito especialmente, desvalorizando a palavra dada. O descrédito deste governo cresce a cada dia que passa. E isso é preocupante.

 

Por essa razão é que surgem por essa Europa fora ovos de serpente tais como Marie Le Pen e Georges Karatzaferis a pretender varrer do velho continente toda a emigração e mergulhá-lo na pobreza, na desigualdade, na xenofobia, na descriminação, no ódio e na intolerância. 

 

Entretanto Portugal vai, a pouco e pouco, regressando à pobreza, fazendo com que a democracia e a liberdade sejam não direitos adquiridos mas palavras ocas.

 

O governo do PSD/CDS está a aproveitar a crise para desmantelar o Estado Social e, o que ainda é pior, a fazer desaparecer a classe média que é o sustentáculo das sociedades modernas, livres e democráticas.

 

E a arrogância é tanta que o primeiro-ministro manda na presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, pois já é ele quem ordena aos deputados da oposição que se calem.

 

Também verdade seja dita, apenas manda calar os deputados da oposição dado que nas bancadas da maioria ninguém abre o bico, apenas meia dúzia de deputados da capital, os engraxadores de serviço, é que estão autorizados a “botar faladura”.

 

Aos outros, como é o caso paradigmático dos senhores deputados do PSD por Vila Real, não se lhes ouve um ai, não se lhes escuta uma frase, não se lhes conhece uma ideia.

 

E as desavenças na Assembleia da República começam a subir de tom. Por isso é que o principal líder da oposição, posto perante o facto consumado de PPC ter escolhido o caminho do abismo, da austeridade e da recessão, já desejou ao PM boa viagem, dizendo que “os socialistas não assinam de cruz nenhum documento sem ser discutido com o PS”.

 

É evidente que nada do que acontece na AR é um ato isolado. Cada gesto, cada palavra e cada atitude, melhoram ou pioram o clima de confiança, ou desconfiança, que se estabeleceu em relação à política europeia.

 

Um sinal evidente de que estamos a voltar ao antigamente, é a utilização do velho truque dos economistas, que consiste em fazer desaparecer a palavra “política” do léxico social. Em seu lugar pretendem apenas saracotear-se entre a economia e as finanças. Ou seja, pretendem sofregamente entregar Portugal aos interesses da banca e dos especuladores financeiros.

 

É caso para dizer que a emenda (leia-se Pedro Passos Coelho) saiu pior que o soneto (leia-se José Sócrates).

 

Deixem-me voltar (pois eu faço caso disso) ao robot de fala lenta Vítor Gaspar. As pessoas que têm razão, muitas vezes não sabem comportar-se, exclamam, berram, dizem grossarias, são em algumas ocasiões indelicadas e intolerantes, por isso são muitas vezes acusadas de todas as contrariedades no trabalho e a na família. Mas aqueles que não têm razão, os ofensores, os demagogos, os maneirinhos, sabem comportar-se, têm lógica, são calmos, delicados e, por isso mesmo, transmitem a ideia de que têm razão.

 

Eu acredito que a força dos líderes está nas suas fraquezas e que a fraqueza dos subordinados reside na sua força. Por isso é que me angustia a forma subserviente como o nosso governo tem negociado a sorte, e o futuro, de todos nós, com a troika e com a Europa.

 

Pedro Passos Coelho, quando se afirma um irredutível defensor de mais e mais austeridade, assemelha-se a uma personagem de Mark Twain que se gabou dos seus lucros ao fiscal das finanças.

 

Isto é como quem se confessa, cada vez que oiço falar o PM invade-me um sentimento estranho. É como se a nossa vida coletiva se tivesse transformado num baralho de cartas manuseado pelas mãos de uma vidente.

 

Estes liberais de pacotilha, aprendizes de feiticeiro das leis desreguladoras da libertinagem absoluta dos mercados financeiros, fazem-me lembrar aqueles revolucionários mais intrépidos, mais estúpidos e desonestos, que sacrificaram a vida de várias gerações em prol de uma futura felicidade inventada.

 

Mete-me uma tremenda confusão como, apesar da triste realidade do desemprego nos agredir todos os dias, o nosso PM e o seu robot de fala lenta, se enfiam dentro da sua bolha de indiferença, tentando conservar-se praticamente alheios a toda a miséria e desgraça que esse flagelo acarreta.

 

O chefe do governo não pensa, porque ou não sabe ou não o quer fazer, limita-se a obedecer à senhora Merkel e à sua retórica fascizante em defesa intransigente dos mercados especuladores e agiotas. PPC não age, apenas executa as ordens que lhe impõem de fora. É um pau mandado.

 

PPC não executa, não decide, apenas cumpre as ordens dos capitalistas internacionais. É um rústico provinciano armado em estadista.

 

Quando oiço falar o líder do governo, sinto como se vivêssemos num mês de setembro perpétuo. Como se estivesse a escutar um concerto quando está a ser executado o último movimento de uma sinfonia. Tenho a sensação de que o volume da música aumenta, que todos os instrumentos participam, que se atinge o clímax, mas sente-se nas notas tocadas pelos executantes um cansaço triste, a modos como um aviso de despedida inexorável.

 

Não consigo adaptar-me a estes tempos de iniquidade, de engano, de acossamento. Os meus pais educaram-me na convicção da verdade, de que se deve enfrentar permanentemente a verdade, de que só o trabalho faz crescer o homem e as sociedades, independentemente da conjuntura, pois o comportamento de uma pessoa tem de ser decente e obedecer sempre às mesmas características: não matarás, não roubarás, não trairás, etc.

 

Por isso é que continuo a defender que contra os valores da verdade, do trabalho e da decência nenhuma força do mundo pode vencer.

 

Os tempos de hoje metem-me muita confusão. Chego à conclusão que a gente que agora nos governa aprendeu desde o berço a prática da duplicidade e da dissimulação como forma de ascensão. Ou, pelo menos, como estratégia de sobrevivência.

 

E, aqui para nós que ninguém nos ouve, olhem que estes tiques não são exclusivo da rapaziada que nos governa desde lá da capital. Esses tiques, e esses truques, estão também muito bem enraizados na equipa que sonha continuar a liderar os destinos da nossa autarquia. Ora pensem lá um pouco nas personagens, e na sua atuação diária, e logo me dirão de vossa justiça.

 

Desta vez pretendi deixar o António de fora, mas, tal como o país, a autarquia flaviense está tão em baixo, mas mesmo tão em baixo, que se encontra prestes a tocar no fundo. Por isso me lembrei de uma passagem do livro de Leonardo Padura “O Homem que gostava de cães”, e que aqui vos deixo como forma de despedida, por hoje.

 

“De que outra coisa a não ser do mar podem falar os náufragos, Ramón Pávlovitch? Brindemos, brindemos! Pelos náufragos do mundo! Até ao fundo!, e bebeu a vodka.”

 

PS – O António Cabeleira que se cuide, pois enquanto ele anda entretido a tentar neutralizar o arquiteto Penas, Fernando Campos anda compulsivamente a tentar fazer-lhe o ninho atrás da orelha. Corre por aí uma sondagem (da empresa Desenvolvimento Organizacional de Marketing e Publicidade, sediada do Porto, isto a ter por genuína a informação que nos prestaram por telefone no momento da entrevista) com a nítida intenção de lembrar Fernando Campos e de o tentar impingir aos flavienses como putativo candidato à Câmara de Chaves.

 

Da lista fazem parte três nomes: Fernando Campos, António Cabeleira e Paula Barros. As perguntas são imensas e, na sua maioria, enormes parvoíces, baseadas em cenários hipotéticos perfeitamente anacrónicos e inverosímeis. Numa delas, imaginem só, chegam a colocar António Cabeleira como candidato do PS a enfrentar Fernando Campos. Ou seja, em quase todos os cenários, é Fernando Campos contra terceiros, dando como adquirido que será ele o putativo candidato do PSD à Câmara de Chaves.

 

E a ânsia de controlo e monitorização é tão grande que no fim da entrevista têm mesmo o atrevimento de perguntar o nome da pessoa que entrevistaram. Não sei mesmo se este procedimento é legal, mas que é de um atrevimento inusitado lá isso é. Diz-me os métodos que usas e dir-te-ei o político que serás. Ou o que foste. Convém não esquecer que pode a raposa mudar de pelo mas que nunca muda de hábitos.

 

Este clima pré-insurrecional que se vive dentro do PSD é bem o exemplo do desnorte, da atrapalhação e do apego ao poder por parte dos seus atuais autarcas. Muitos deles não se coíbem de atropelar, ou abalroar, os seus companheiros do partido para não abandonarem o poder. E dizem-se estes senhores democratas.

 

Espero que o bom senso acompanhe os flavienses no próximo ato eleitoral autárquico. E, por favor, não me obriguem a ter de vir a terreiro defender António Cabeleira na sua luta contra o atual autarca de Boticas.

 

Já chega de “estrangeiros” a comandar os destinos da nossa cidade e do nosso concelho. Por isso lembro de novo: a raposa pode mudar de pelo mas nunca muda de hábitos. Não sei se me entendem.  

 

E a pergunta final: quem terá encomendado esta sondagem e com que dinheiro? Os objetivos são óbvios. As intenções é que não sei. Não sei não. 


publicado por João Madureira às 23:20
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