Segunda-feira, 4 de Junho de 2012

Da expetativa ao imobilismo (XVIII): empenhados até às orelhas seguido do dia mundial da bonecada

 

Desta vez vou aventurar-me a falar sobre as contas na Autarquia de Chaves. Mas em primeiro lugar quero felicitar o senhor presidente por continuar a aparecer nos jornais sempre com um sorriso espelhado na cara. Faça sol ou chuva, sejam as notícias boas, más ou péssimas, João Batista olha sempre para a objetiva do fotógrafo com cara de quem lhe saiu o euromilhões.

 

Antes assim fosse pois ficaríamos todos mais descansados. Mas como não é, só pode ser caso para preocupação. Ao que se sabe, é a falência o que está por perto.

 

Da autarquia flaviense, atualmente, nem sopra bom vento financeiro nem o casamento com Verin sai da cepa torta.

 

Para a semana falarei sobre isso, mas desta vez vamos às contas.

 

João Batista apresentou há algumas semanas o Relatório e Contas da Autarquia, relativamente ao ano 2011. E fê-lo a sorrir. E foi também a sorrir que disse “que do ponto de visita financeiro e económico foi muito positivo”, pois, na sua incomensurável bonomia, e na sua perspetiva cor-de-rosa “conseguimos continuar com uma política de desenvolvimento e, ao mesmo tempo, continuámos a diminuir a dívida da autarquia e a aumentar o património”.

 

Se não fossemos de cá, se não vivêssemos aqui, se não soubéssemos ler os números e não entendêssemos um pouco do mundo que nos rodeia, até podíamos engolir a falácia, mas, porque as premissas são falsas, só nos resta discordar.

 

Discordar e contrapor que a tão propalada continuação de “uma política de desenvolvimento” em Chaves é pura demagogia. O nosso concelho nem sequer está numa situação de estagnação. Chaves está a regredir a olhos vistos, tanto na qualidade dos serviços e apoios sociais, como na prestação de serviços de saúde, como na oferta de ensino superior, como ao nível do comércio, do turismo, da educação básica, da cultura, do desporto, etc.

 

Relativamente à diminuição da dívida, todos sabemos que os números não batem certo com a realidade. A verdade é que a dívida da autarquia flaviense é gigantesca. João Batista, mesmo tentando fazer-nos pensar o contrário, reconhece que o saldo da ponta visível do iceberg da dívida é de 12 milhões de euros.

 

Na sua perspetiva, “o saldo negativo não é fruto do exercício económico e financeiro, mas decorre, sobretudo, do Princípio Contabilístico da Prudência”. Ou seja, o princípio é que está errado.

 

As leis porque se regem as instituições é que pecam por mal feitas. Fossem outras e o prejuízo transformava-se em lucro.

 

Pensam que estou a divagar? Que estou a inventar? Que estou a fantasiar? Pois então fiquem com as palavras do senhor Presidente: “Se os valores da cobrança duvidosa – cerca de 10 milhões e meio de euros – fossem contabilizados não como prejuízos mas como proveitos, o resultado seria bem diferente.”

 

O que João Batista quer dizer é que o dinheiro no bolso dos caloteiros deve contar como receita efetiva e não como prejuízo. Ou seja, talvez pretenda remunerar os funcionários e os credores de serviços com promissórias bancárias em títulos da dívida camarária.

 

Bonito serviço. Estamos em crer que esta foi alguma piada dita pelo senhor presidente e que o jornalista não se deu conta de que ele, o presidente, claro está, tentava fazer humor.

 

Mas há mais, ainda segundo João Batista o nível de despesa corrente situa-se nos 55% e os outros 45% são despesas de capital. Ou seja, quase metade do orçamento da Câmara é gasto a pagar juros da dívida e a própria dívida. É uma situação aflitiva, pois tende a aumentar, a cada ano que passa. Apesar de muitas vezes se afirmar o contrário.

 

O senhor presidente diz que está a governar para as pessoas, que está a aumentar o património, a apostar na educação, na cultura, na ação social, no desporto, no bem-estar, assim como em políticas de emprego. Lá continua João Batista a tentar fazer humor à custa dos flavienses. Nós é que não conseguimos rir com as piadas de gosto duvidoso.

 

O património que tem não o consegue vender, pois ninguém quer investir num concelho em franco retrocesso. E o que adquire fá-lo por razões que não conseguimos perceber. Isto é se atualmente tem dinheiro para adquirir seja aquilo que for.

 

Chaves, pelo caminho que isto leva, vai deixar de ter ensino superior.

 

O nosso concelho, pela política de encerramento de escolas, já deixou de conseguir fixar gente nas aldeias e, daqui a uns anos, por falta de emprego e de outras condições a ele ligadas, não vai conseguir sequer fixar no seu tecido urbano a quantidade de pessoas que lhe permita sobreviver enquanto autarquia.

 

A seguir por esta senda, não vem longe o tempo em que Chaves passará a ser a junta de freguesia de um território que terá como sede camarária Vila Real.

 

É a lei natural das coisas, pois se é lá que tudo se concentra, é para lá que as pessoas vão ter tendência a deslocar-se. Por muito que lhes custe. E aos flavienses isso vai custar imenso. Pois passará a ser a cidade aglutinadora onde vão conseguir arranjar emprego e será lá que os seus filhos poderão frequentar a universidade. É já lá que os grandes centros comerciais estão instalados e é também lá onde os principais serviços de saúde funcionam. É também em Vila Real onde existe vida académica e cultural com expressão e significado.

 

Com este tipo de política e desempenho autárquicos só nos resta definhar e desaparecer.

 

João Batista, cada vez mais dentro da sua perspetiva autista e fantasiosa, diz que para o futuro “continuaremos com o mesmo rumo, sempre com as contas controladas e a pensar no desenvolvimento do concelho”. E ainda que o PSD continuará a “governar para as pessoas e não para os números”. Nós todos bem sabemos ao que isto nos levou. António Guterres também disse o mesmo e depois deixou-nos no meio do pântano a afundar-nos. Agora trabalha para as Nações Unidas. O país que se governe.

 

Mas, apesar das palavras imitadas, estes últimos anos de gestão autárquica do PSD não tiveram em conta nem os números e, muito menos, as pessoas. As pessoas continuam a abandonar a nossa terra para rumarem a outras paragens, o comércio local entrou em colapso e a pouca indústria que por aqui existia volatizou-se.

 

A verdade é que a Câmara de Chaves, por causa do seu endividamento excessivo, e por causa da falta de liquidez nas suas contas, tem vindo a asfixiar os fornecedores e empresas locais.

 

E são esses fornecedores e essas empresas as que ainda empregam gente e dão vida à nossa economia. Sem eles, a nossa cidade passará de uma estância termal a uma aldeia com velhos sentados junto ao rio a verem crescer as ervas e a esperarem pela visita dos filhos e dos netos nos fins de semana.

 

E olhem que afirmamos isto com o coração nas mãos. A crise é tanta que a autarquia executou até ao momento apenas 46% do orçamento proposto para 2011. Ora isto é o mínimo dos mínimos. Ou seja, a situação financeira da Câmara de Chaves está perfeitamente descontrolada.

 

Mas para não nos acusarem de demagogos e alarmistas, vamos ater-nos aos números oficiais. Segundo a Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses de 2010, o município flaviense, num universo dos 308 municípios portugueses, é o 42º com maior passivo exigível (ou seja, o endividamento total), é o 32º em que mais aumentou a dívida, e é o 8º município de média dimensão que mais dívida tem a fornecedores. Dívidas já superiores a 50% das receitas totais.

 

Ou seja, a nossa autarquia, ao nível da sua dívida nem sequer acompanha Portugal, antes se assemelha cada vez à mais ao default da Grécia. Ora isso é o descrédito total.

 

Dentro em breve a nossa autarquia não vai poder pagar a ninguém porque não tem receita, não tem crédito e não tem palavra. E dizemos-vos isto como quem se confessa: não sabemos se esta situação ruinosa tem volta atrás. Fazemos votos para que sim. Mas as dúvidas são enormes.

 

PS – Prometi a mim próprio que não podia deixar passar em claro a festa que a Câmara de Chaves organizou para comemorar o Dia Mundial da Criança. E faço-o com alguma reserva, desde logo porque posso estar a por em causa o trabalho de alguém que prezo e de quem sou amigo. Mas o que tem de ser tem muita força.

 

O evento foi mau de mais para ser verdade. E foi mau em todos os aspetos e em todos os sentidos. Todos. Ao nível da organização, ao nível musical, ao nível das propostas artísticas e ao nível dos divertimentos, que pura e simplesmente não existiram.

 

Não ando longe da verdade se disser que a festa foi mais ou menos assim: transporte das crianças para o estádio municipal, sentar as crianças nas cadeiras da bancada central, ouvir um grupo musical de mais que duvidosa qualidade e, além disso, deslocado no tempo e no espaço, pois de positivo apenas se pode referir o nome da banda (João Ratão), e toca a ir de novo para os autocarros e para as escolas.

 

Ou seja, as crianças não brincaram, não assistiram a nada de cativante, não se divertiram, não participaram em nada. Mas mesmo em nada, nem em coisa nenhuma. Limitaram-se a estar sentadas à espera que algo acontecesse. Mas nada aconteceu. Nada.

 

Lá ao fundo, do outro lado do campo, por vezes viam-se uns bonecos a dançar. Depois ouviam-se algumas palavras dispersas gritadas ao microfone e, muito de vez em quando, algumas crianças dançavam. A seguir nada. Apenas calor. Muito calor. E as crianças sentadas à espera que algo acontecesse. Mas nada acontecia. Nada aconteceu. E as crianças a esperar e a desesperar.

 

Apenas os bonecos lá ao longe faziam que dançavam e os elementos do grupo musical, também eles disfarçados de bonecos, davam música de há trinta anos atrás às crianças. Então aborrecidas, muitas das crianças foram para o campo e rebolaram-se na relva e correram e tornaram a correr.

 

A festa do Dia Mundial da Criança organizada pela autarquia de Chaves foi um barrete. Um enorme barrete. Ou melhor, foi uma bonecada.

 

Para o confirmar lá estava a realidade. Os bonecos faziam de bonecos, os músicos faziam de bonecos, os professores faziam de bonecos e as próprias crianças seguiam na mesma dança.

 

Tudo aquilo foi mau de mais para ser verdade. Como professor assisti a dezenas de festas da Câmara de Chaves e até de outras autarquias. Algumas muito bem organizadas, outras nem por isso. Mas sempre existiu algo de diferente, alguma coisa que punha as crianças a brincar, a dançar, a correr e a cantar. Enfim, a divertir-se.

 

Desta vez foi o descalabro. Desta vez foi indescritível. Desta vez aquilo não foi mais do que uma aglomeração de crianças para admirarem um campo de futebol relvado com um palco lá muito ao fundo onde quase nada se passava.

 

Além disso gastou-se muito dinheiro na organização. Mas todo o dinheiro gasto nesta iniciativa foi dinheiro deitado à rua. E nestes momentos de crise, isso é inaceitável.

 

Uma última nota. O nosso sorridente presidente não apareceu. Ele que nunca, até este ano, perdeu festa onde estivessem crianças. Lá terá os seus motivos. Quem vimos por lá foi o vereador Cabeleira, mas foi sol de pouca dura. Entrou de mangas arregaçadas, ladeado por dois assessores para o desporto, olhou em frente, olhou para o lado esquerdo, olhou para o lado direito, teclou no telemóvel, olhou para o ecrã, encolheu os ombros, e como ninguém lhe ligou nenhuma, resolveu ir embora, talvez porque persentiu que o ambiente não lhe era nada, mas mesmo nada, favorável.

 

Ao que isto chegou!


publicado por João Madureira às 07:00
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1 comentário:
De António a 4 de Junho de 2012 às 11:25
Sr. Arquiteto Cabeleira como Vereador do Desporto é a imagem da desgraça que será se for um dia Presidente! Tem uma equipa de incompetentes à volta dele!


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