Quarta-feira, 13 de Junho de 2012

O Poema Infinito (104): o tempo e o espaço

 

Escuto nas tuas palavras frutos de pomares que se dilatam em ondas silenciosas de doçura. E as crianças brincam na tarde que se prolonga. E o tempo acaricia-as e surpreende-lhes a respiração. Depois os teus olhos incendeiam-se e tudo recomeça a ficar transparente. O vento começa a afagar as árvores e o dia transforma-se numa fonte de água clara. E a terra respira na sua nudez de silêncio. Sinto de novo a ânsia da tua nudez inocente. Dizes: Todo o jardim tem o seu segredo. Vou tentar dominar a evidência serena do desejo do teu corpo. Agora quero possuir a tua alma. Por isso tento penetrar na tua porta feita de palavras evidentes. Cada vez sinto mais a distância que me separa da infância e da sua monótona perfeição. Apenas as palavras que a definem ainda murmuram o seu odor evidente de vertigem. Sou cada vez mais uma festa de silêncio. O tempo torna-se duro e embrulha os sonhos. A vida deixou de ser uma ficção proibida para se transformar num arrependimento invisível. O tempo é cada vez mais uma circunstância feroz. O tempo é uma palavra implacável. O tempo é um eco longo e incontrolado. Por isso fingimos destinos e enfiamos os sentimentos profundos dentro de uma mala portátil. E o tempo fica em silêncio sorrindo dentro da sua razão inexorável. Eu fico apenas com a raiva extravagante da razão. Toda a esperança enlouqueceu dentro dos abraços de despedida. As primaveras são agora relâmpagos que doem e por isso te abraço enquanto dormes tentando aliviar os meus pesadelos. Chego em silêncio aos teus lábios e neles pouso um lindo poema húmido de desejo. É breve a austeridade desta luz. Continuo a percorrer um caminho de palavras que deixo escritas no rosto da terra. E até invento os meus passos e o meu próprio caminho. As evidências comovem-me e por isso não as digo. Uma vaga breve de um tempo igualmente breve emerge no teu rosto que é agora um sorriso súbito de espanto. Pouso as mãos no teu corpo que é uma extensão de vento. E sorrio de forma oscilante. Dizes: Todo o amor é uma memória passada de um tempo presente. E da superfície do teu rosto emerge a cintilação branda da manhã. Tu dizes: Nós somos enquanto existimos daí ocuparmos espaço. Eu insisto no ar e na sua suspensão harmoniosa. Os meus olhos inventam agora uma nova realidade. O mundo é novo. A terra é clara. Tu voltas a ser o meu alimento. Mastigo-te. O sol da manhã acende-se em carne. Os teus seios de água doce tornam a nascer como uma fonte. Bebo-te. Na tua boca respiram agora as janelas do mundo por onde a luz entra concebendo a vertiginosa música da fecundação. Sinto outra vez o aparato silencioso das horas. Ao pé de ti todas as palavras ficam nuas. A minha mão principia a percorrer-te lá do alto e desenha-te o perfil. E depois flui liberta como o olhar. Abrimos de novo os lábios e bebemos longamente. E o meu sexo escreve mais um poema na página aberta do teu corpo. 


publicado por João Madureira às 07:00
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1 comentário:
De Cris a 13 de Junho de 2012 às 14:43
Incrivelmente, BELO!!


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