Sexta-feira, 15 de Junho de 2012

O Homem Sem Memória - 119

 

119Mais algumas anotações de José, filho de outro José, filho de Luís, filho de Manuel, filho de Geraldo, filho de Venceslau, filho de João, filho de Fernando, filho de Dinis, filho de Carlos, filho de Afonso… filho Alexandre… filho de José, filho de Jacob, filho de Salomão, filho de David, filho de Jessé, filho de Esrom, filho de Farés, filho de Judas, filho de Jacob, filho de Isaac, filho de Abraão.


Anotações sobre o terceiro livro sagrado das religiões monoteístas: O Manifesto do Partido Comunista, na sua edição portuguesa. Ei-las como as encontramos encafuadas na mala da prisão do José.


Nestas coisas de Livros Sagrados, o “Manifesto Comunista” é muito mais parecido com o Alcorão do que com a Bíblia. Aqui também tudo é muito pão pão queijo queijo, zeca. E sobretudo é o segundo livro mais chato do mundo. Ai não acreditam? Mas vão passar a acreditar depois de lerem o (quase) diário que escrevi durante noites e noites de tortura, onde estive perto de morrer queimado, e que aqui vos deixo como testemunho. Ah!, antes que me esqueça, o primeiro livro mais chato do mundo é do mesmo autor e dá pelo nome de “O Capital”.


Começo logo da pior maneira possível, com uma confissão: É que adormeci logo de início ao ler a nota introdutória “Ao Leitor”. E não foi sequer preciso chegar à primeira frase de Vasco Magalhães-Vilhena: “Sabemos a responsabilidade que tomamos.” Não. Adormeci no excerto da carta de F. Engels a A. Sorge. Ou seja, logo depois de “é terrivelmente difícil traduzir o «Manifesto»”, os olhos cerraram-se-me como dois portões de quinta. Reconheço que dormi lindamente.


Tentei noites seguidas avançar, mas é o avanças. Por isso tenho de reconhecer que, até à data, este é o primeiro livro que me provoca uma imensa soneira. Mas nem tudo foi mau, pois eu, que tinha insónias por causa dos meus dias passados na prisão, passei a dormir como um santo. Palavra de honra que é a mais pura das verdades.


Na primeira noite avancei por meia página ímpar e mais um quarto de página par, mas adormeci profundamente após ler: “Não há exagero em dizer que as dificuldades que se deparam na tradução…”, e tombei para o lado como uma pedra. Só acordei na manhã seguinte ao ouvir o canto do meu galo madrugador.


Na noite seguinte avancei cerca de uma página, mas fui-me logo abaixo após passar, em voo de andorinha, os olhos por cima das palavras que preenchiam cerca de uma folha, onde se podia ler: “A tradução para a língua portuguesa que hoje se publi…” Nem sequer fui capaz de acabar a palavra. E zás, tombei para o lado como um ditoso bêbado na noite de Natal. Dormi toda a noite como um justo. Acordei apenas de manhazinha logo após o galo cantar três vezes. Premonições.


Na terceira noite demorei três horas a decifrar oito linhas. Demorei esse tempo todo não porque não soubesse ler o texto, mas tão só porque adormecia e acordava ao ritmo de dez palavras lidas intervaladas por trinta e tal minutos de boas e sonantes ressonadelas. Isto segundo o relatório circunstancial da minha mãe.


“Prefácio da edição alemã de 1872 (MEW, 18, pp. 95-96)…” Sono, ressonadelas, ressonadelas, mais sono, mais ressonadelas… acordar assarapantado e…  “Prefácio da edição russa de 1882 (MEW, 19, pp. 295-296)…” Sono, ressonadelas, ressonadelas, mais sono, mais ressonadelas… acordar assarapantado e  assim sucessivamente mais cinco vezes até… “e prefácio da edição italiana de 1893 (MEW, 22, pp. 365-366) (1)…” E o um era uma nota de rodapé com os seguintes dizeres: “Como é de uso corrente designamos aqui, para a abreviar, pela sigla MEW os Marx Werke editados pelo Doetz Verlag de Berlim (RDA).”


Nesse ponto desisti de continuar a ler o capítulo e passei à fase seguinte, pois cheguei à conclusão que esta parte não devia ser lá muito importante. Eu sei que nestas coisas nunca se sabe, mas que mais podia eu fazer senão deixar-me guiar pela minha intuição.


O texto que se seguia, da autoria do mesmo senhor, intitulava-se “Nota acerca da primeira tradução portuguesa do «Manifesto do Partido Comunista» ”, e iniciava-se da seguinte maneira: “A presente edição é, como atrás dissemos, a primeira, que saibamos, em língua portuguesa estabelecida sobre os textos originais…” e mais algumas palavras e mais uma nota. Passei em claro. Mas debaixo desta estava ainda uma outra em numeração romana que explicava: “Ver notas complementares no fim do volume, indicadas em algarismos romanos”. E foi para lá que me dirigi com toda a paciência do mundo. Essas notas ocupavam 79 páginas. Três delas sobre as notas da edição alemã referentes aos prefácios e outras duas alusivas às notas da edição alemã pertencentes ao texto do «Manifesto». As outras 72 páginas eram constituídas por notas complementares da edição portuguesa. E adivinhem lá quem é o autor. Frio, frio, frio. Não, não é o Lenine, Marx, Engels, Estaline ou Alberto Punhal. É o douto Vasco Magalhães-Vilhena.


Para os estimados leitores avaliarem da estatura intelectual do senhor, basta lembrar que o manifesto ocupa apenas 46 páginas. O que nos leva a concluir que as notas à edição portuguesa são muito possivelmente bem mais importantes que o próprio “Manifesto”. Pois no comunismo a dimensão define sempre a importância, a posição, o posto e o protocolo. E o controlo. Se há coisa de que os comunistas são zelosos é no controlo. E também no protocolo. Mas avancemos. Avante camarada…


Bem, posso dizer que mal dormi durante toda a noite e quando o consegui fazer, por escassos períodos de tempo, tive pesadelos. Comecei a pensar que se para se ser comunista era obrigatório ler o «Manifesto», eu, muito possivelmente, nunca poderia vir a sê-lo de corpo inteiro, pois o livro estava a transformar-se na história interminável. Pelo menos para mim. Mas, tendo como ponto de referência os níveis baixíssimos de escolarização, de alfabetização e de literacia em Portugal, já para não falar nos índices de leitura e, muito particularmente, de leitura especializada, estou em crer que em Portugal o «Manifesto» tinha para aí um leque de cem leitores disponíveis. E olhem que estou a ser otimista quanto baste. Além disso, eu tinha prometido a mim mesmo, e ao Graça, que só aderia ao Partido depois de ler, e compreender, o «Manifesto» e o «Programa e os Estatutos do PC».


Lá pela décima noite de flagelo, ainda ia no prefácio à edição alemã, da autoria de Karl Marx e Friedrich Engels. E para se aperceberem da leitura tortuosa a que estava obrigado, basta referir que depois de 19 linhas de um texto chato como a potassa, lá vinha mais uma advertência no rodapé com indicação de ver nota (V) no fim do volume, enquanto o texto nos remetia para mais três notas em numeração romana e duas em numeração árabe. Passando em claro as notas em numeração árabe referentes à edição alemã, que apenas ocupam 20 linhas, as do senhor Vasco, identificadas com a numeração romana de (I) a (V), valha-me Deus, estendem-se por 200 linhas, ao longo de seis densas páginas. Arrepiei-me e adormeci. Ou melhor tentei adormecer. Mas como não o conseguia, voltei ao princípio: “Quanto à tradução do Manifesto vê-se uma vez mais que…” mas agora não resultava. Passeia à outra parte: “Prefácio da edição alemã de 1872 (MEW, 18, pp. 95-96)…” Aqui foi de novo tiro e queda. Que descanso. Que felicidade. Sono, ressonadelas, ressonadelas, mais sono, mais ressonadelas… e… sono, ressonadelas, ressonadelas, mais sono, mais ressonadelas… Até que o galo voltou a cantar três vezes. Mais premonições. 


publicado por João Madureira às 07:45
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