Segunda-feira, 18 de Junho de 2012

Da expetativa ao imobilismo (XX): A Eurocidade, o cartão, o João, o Juan e o secretário técnico

 

E vai daí, João Batista, o senhor presidente do bairro sul, sorrindo para as objetivas na apresentação do primeiro número da revista Fórum, depois de olhar, momentos antes, para o senhor presidente do bairro norte, Juan Jiménez Morán, disse que Portugal e Espanha falam, agora, a “uma só voz”.

 

Não é nem Trás-os-Montes e Galiza, não é sequer o concelho de Chaves e o de Verin, mas antes Portugal e Espanha que agora falam a “uma só voz”, que, desta vez, até foram duas: a do autarca João e a do alcaide Juan. Ou vice-versa, por causa da equidade entre os bairros.

 

E a tal voz, una e indivisível, disse, ainda mais uma vez com o sotaque e o sorriso português do presidente do bairro sul da Eurocidade: “Queremos que as pessoas se sintam bem neste território e não sintam a diferença quando atravessam a fronteira.” E tornou a sorrir na direção do alcaide do bairro norte e, agora, na direção do público e proferiu: “Pretendemos ainda compatibilizar sistemas de cobrança de portagens, criar uma plataforma de correios ibéricos, eliminar o «roaming» na Península Ibérica e conceber uma comissão de proteção civil comum.“

 

Ou seja, os presidentes dos dois bairros da Eurocidade pretendem substituir-se aos respetivos Estados para criarem serviços ibéricos. E andamos nisto: tu dizes umas piadas, eu digo outras tantas e no fim rimo-nos pois alguém há de escrever alguma coisa nos jornais.

 

Mas, alto lá, será que estes dois senhores não têm sentido do ridículo? Querem fazer de nós parvos? Toda esta encenação já começa a enervar mesmo os flavienses mais crédulos e pacientes.

 

No dia da inauguração da sede da Eurocidade, situada em território galego, que juntou várias entidades políticas e administrativas dos dois países, foram proferidas palavras que são o exemplo perfeito de demagogia e de vacuidade inerentes ao projeto, pois tanto servem para esta celebração como para as mais diversas situações e comemorações onde os políticos enchem a boca com frases que ninguém entende mas que ficam bem a quem as profere. Foi assim que foram ensinados e é assim que sabem fazer política. É como muito bem diz o povo: Não entendemos nada do que o senhor presidente disse mas temos de reconhecer que fala muito bem.

 

Falaram de integração, conciliação e coesão social, de abertura ao mundo, de desenvolvimento, de ofertas turísticas, de afirmação de uma identidade, de cooperação, proximidade, recursos endógenos, liderança, requalificação, oficinas de turismo e ações que melhorem a qualidade de vida.

 

E então tudo isso deu em quê? Pois sim senhor, deu em pantomima. Até agora gastaram 200 mil euros para construírem uma sala insonorizada para lá tocarem bandas musicais, que nas horas vagas serve também de sede da Eurocidade, e emitiram um cartão de Eurocidadão. E essa pífia realidade serviu para os dois senhores presidentes dos bairros norte e sul da Eurocidade aparecerem em duas ou três edições dos jornais da região a sorrir e a exibirem um retângulo de plástico que pouca, ou nenhuma, serventia tem.

 

Está claro que se colocaram a tempo por detrás do apetrecho plastificado e apregoaram que “o cartão de Eurocidadão vai permitir facilitar a vida dos cidadãos e aceder a um conjunto de serviços públicos de carácter coletivo e social das duas localidades”. E disseram ainda mais: “Na Eurocidade tudo é um ponto de partida”. Eles é que são uns pontos. E fazemos votos que estejam de partida, para o seu próprio bem, ou, na melhor das hipóteses, para o bem das comunidades que afirmam representar e governar.

 

Mas ainda não é tudo. Na sua insistente manobra de propaganda, repisaram que o tal cartão é cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) e pelo Programa Operativo de Cooperação Transfronteiriça Espanha-Portugal (POCTEP).

 

E insistiram: “O cartão do Eurocidadão destina-se a proporcionar os mesmos benefícios aos residentes dos dois municípios” (agora mais conhecidos por bairro norte e bairro sul), “nas mesmas condições de acesso e uso dos que já dispõem no seu município de residência, promovendo desta forma o intercâmbio entre populações e o aumento da oferta e da diversidade de serviços.”

 

Mas não contentes com todas as promessas feitas, asseguraram ainda mais algumas, não vá a demagogia ficar manca. O tal cartão terá ainda a capacidade de potencializar e promover uma “gestão equilibrada dos fundos comunitários, através do aproveitamento de economias de escala, na utilização e gestão partilhada de recursos já existentes ou, até, no planeamento conjunto de futuros equipamentos.”

 

Aqui chegados deixem que vos conte o que me fez lembrar esta publicidade enganosa: nada mais, e nada menos, do que os antigos vendedores da banha da cobra. Ou ainda os vendedores de mantas na Feira dos Santos que, na compra de um cobertor, oferecem uma dúzia de pares de meias, um ou dois guarda-chuvas, meia dúzia de lenços e ainda uma faca, uma tesoura e um pífaro de lata para os filhos ou os netinhos.

 

Ai pensam que exagero? Por muito esforço que faça apenas consigo ficar um pouco aquém da realidade. Eu bem tento, como muito bem sabem os estimados leitores, mas os autarcas dos dois bairros da Eurocidade conseguem suplantar-me sem para isso fazerem grande esforço.

 

Ora então fiquem os estimados leitores com as vantagens práticas do tão enaltecido cartão. E olhem que vou citar todas as que vieram nos jornais. Todas, todinhas sem exceção. Primeira: “Vantagens na Biblioteca Municipal de Chaves e nas Piscinas do Rebentão”. Falam de vantagens mas não especificam quais são, mas devem ser imensas. Segunda: “Benefícios nos Museus Municipais (Museu de Região Flaviense, Museu de Arte Sacra, Museu Ferroviário) e na Piscina Municipal.”

 

E terceira: “Previsivelmente” (e foi isto que veio escrito nos jornais), “a partir do mês de maio, existirá um programa de visitas guiadas gratuitas para associações e grupos, que inclui um amplo percurso por diferentes pontos de interesse turístico e patrimonial dos municípios de Chaves e Verin”. Isto é, “previsivelmente”, o choque turístico da dupla António Cabeleira e Agostinho Pizarro, o responsável do secretariado técnico da Eurocidade, vulgo o mentor ideológico do divertimento.

 

Ou seja, a Eurocidade vai oferecer gratuitamente passeios a turistas. E vai carregar tudo isso no cartão de crédito de todos os flavienses. É mais uma vantagem desse imenso privilégio de ser Eurocidadão com direito a cartão. E isto tudo está tão bem organizado que até vai depender, nas doutas palavras do responsável técnico Agostinho Pizarro, das “solicitações e da articulação com as agências de viagens”. Bravo Agostinho, também tu és um génio bem à imagem e dimensão do teu estimado amigo e, querido vereador, António Cabeleira. Bravo. Bravíssimo.

 

E para este efeito, o executivo camarário do bairro sul reuniu extraordinariamente e aprovou as alterações aos regulamentos municipais “no sentido de passarem a ser compatíveis com as normas previstas no Regulamento do Cartão do Eurocidadão, muito concretamente com as normas associadas aos benefícios decorrentes da titularidade de tal cartão”.

 

As citadas alterações permitem agora aos portadores do cartão do cidadão poderem “entrar gratuitamente na rede de museus e pagar 1 euro para usufruir da piscina (em vez de 2) e 0,40 cêntimos (em vez de 0,75) para pessoas com mais de 65 anos e até aos 16 anos”.

 

Ainda devem estar lembrados de os dois senhores presidentes encherem a boca de integração, conciliação e coesão social, de abertura ao mundo, de desenvolvimento, de ofertas turísticas, de afirmação de uma identidade, de cooperação, proximidade, recursos endógenos, liderança, requalificação, oficinas de turismo e ações que melhorem a qualidade de vida e… de o cartão permitir facilitar a vida dos cidadãos e permitir aceder a um conjunto de serviços públicos de caráter coletivo e social das duas localidades e… que na Eurocidade tudo é um ponto de partida e… que se destina a promover desta forma o intercâmbio entre populações e o aumento da oferta e da diversidade de serviços e, ainda, que… o tal cartão é cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) e pelo Programa Operativo de Cooperação Transfronteiriça Espanha-Portugal (POCTEP) e… que, afinal, o tal cartão vai possibilitar a gestão equilibrada dos fundos comunitários, através do aproveitamento de economias de escala, na utilização e gestão partilhada de recursos já existentes ou, até, no planeamento conjunto de futuros equipamentos. Ufa, estava a ver que não conseguia acabar.

 

Agora, depois de tudo espremido, ficámos a saber que o famoso cartão permite aos seus portadores ir para o Rebentão e… para a piscina municipal e… entrar nos museus de graça.

 

E como eles são tão apelativos, já prevejo filas e filas de Eurocidadãos do bairro norte (antigamente conhecidos como galegos de Verin) e de Eurocidadãos do bairro sul (dantes apelidados de flavienses), impacientes para que os citados museus abram as suas portas para poderem aceder, a tempo e horas, às suas excelentes propostas culturais.

 

E isto semanas e… semanas e… semanas seguidas, pois eles são tão grandes e… o seu espólio é tão diversificado que é bem capaz de cada Eurocidadão gastar um mês inteirinho a admirar as peças expostas. Isto se conseguir ter vaga disponível. O que duvidamos. Mas para grandes projetos, grandes ideólogos. Bravo Agostinho, também tu és um génio.

 

E, num futuro próximo, bem mais próximo do que calculamos, enquanto os Eurocidadãos vão andar num corrupio cultural, turistas vão passear-se de graça pelas ruas do bairro sul gozando do privilégio de observarem um rio de águas estagnadas, de poderem enxergar, no centro histórico da cidade, as ruas cheias de garrafas partidas, copos de plástico e, de quando em vez, fezes pelos cantos e esquinas (resultantes do “botellón” flaviense), perguntando-se se os excrementos pertencerão a animais ou a seres humanos. O que para o caso tanto monta, mas sempre conferem um arzinho de ruralidade, que julgávamos perdido. E poderão ainda, os estimados turistas, se forem suficientemente curiosos, ficar a saber que o hospital que estão a vislumbrar lá ao longe possui apenas os serviços de um Centro de Saúde, que o edifício universitário é apenas uma construção elegante construída fora de portas, mas que já não tem cursos, ou possui apenas meia dúzia de turmas com guia de marcha para Vila Real, e que o Tribunal vai ser desmantelado para dar lugar a um espaço de ruínas romanas que fará as delícias dos maluquinhos das pedras antigas.

 

Esta pantomima fez-me lembrar o “Clube dos Fás”. Um grupo de crianças resolveu um dia criar uma coletividade que em troca de um cartão, e do prestígio de pertencer ao Clube, pagavam uma cota estipulada em reunião de direção. Como o dinheiro angariado não dava sequer para todos os sócios terem acesso a um gelado por mês, a direção do clube resolveu sortear semanalmente um Fá pelos sócios efetivos. O que muito alegrou os adeptos. Também em reunião da direção, para retribuir o trabalho efetuado e para recompensar o prestígio dos seus elementos, resolveu, a douta direção, incluir na oferta um Fá semanal para todos os membros efetivos do seu órgão máximo. Muitos deles andam agora espalhados pelas autarquias e outros já passaram por vários governos da nação.

 

PS – O que ainda não conseguimos apurar é se a Eurocidade já tem bandeira e hino oficial. Mas, com o caminho que isto leva, deve estar para breve. Até lá vamos aguardar pacientemente.

 

Ó senhor secretário técnico dê lá uma ajudinha! O bairro sul da cidade, que tão ajuizadamente ajudou a fundar, agradece-lhe do fundo do coração.

 

Para criarem Roma foram necessários dois rapazes, Rómulo e Remo. Para formarem a Eurocidade foram fundamentais dois autarcas, João e Juan, e um secretário técnico, Agostinho Pizarro. Sinais dos tempos. Mas a história continua a ter protagonistas que nos acodem sempre que deles temos precisão. Rejubilemos!


publicado por João Madureira às 07:00
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