Quarta-feira, 20 de Junho de 2012

O Poema Infinito (105): a bicicleta semântica

 

Chegou a vez da grande memória, dos vestígios de dias prodigiosos manifestamente preenchidos por poetas que pedalam vertiginosamente as suas bicicletas dialéticas. É agora o tempo das flores legítimas de sol, das rimas das rosas, da violenta fantasia do verão que se aquece no amor confuso dos milagres. É esse o instante da graça do poeta que continua a pedalar no ritmo secreto do devaneio. E o poeta insiste na sua bicicleta. E no seu pedalar. Na direção do seu pedalar, pois sabe que a vida é curta, que o poema é infinito, mas que a morte é transfiguração. Num tempo sentado e em repouso, ouve cantar uma mulher no paraíso entre salsa, avencas e silêncio. Sobre as árvores desce agora uma doçura oblíqua. O jardim resplandece na sua clara atenção de uma infância que queima, que queima o espaço e a candura e a voltagem dos círios, que queima o tempo e as escuras varandas das casas abandonadas. E uma voz de criança quebra o espelho do lago e dos seus olhos irrompem frutos vagarosos numa velocidade de clareira. É o tempo dentro da sua velocidade. E as mães vêm devagar anunciar as suas palavras de criação. E o poeta fica louco anunciando canções de palavras sentadas. É o tempo dentro da sua pérfida inocência. O tempo que respira e anda dentro da sua imediata ausência. É o tempo de energia rápida. Um tempo que engole a magia, que devora os segredos, que respira as imagens que passam sempre e sempre. E para sempre. Tantos nomes têm o silêncio e o esquecimento. Tantos nomes rápidos. Tantos sonetos vorazes. Nas árvores sonolentas a seiva corre entre os interstícios de luz. E o ar veste-se de movimento. E o fulgor da matéria arqueja na madeira. E o tempo torna-se vegetal. E abre-se. E o dia fica a outra distância, absorvido pela própria velocidade dos átomos. E os rostos precipitam-se para dentro como uma estrela que a todo o momento se transforma noutra coisa qualquer. É a energia dos três pontos fixos. Toda a leveza se torna ameaçadora como se fosse feita de tecido doloroso. E a chuva afogueia a terra no seu regresso líquido. É a hora dos jardins se contorcerem entre a água e o estio. É a hora dos espaços surpreendidos transpirarem na sua atmosfera de melancolia. E o poeta que pedala a sua bicicleta dialética encontra o seu mapa astral e rejubila. E toca nos seus animais inventados com dedos que são semiluas e que são também folhas repletas de energia e tristeza. O poeta desenha com palavras enxutas um bordado sensível na margem do poema. E chora. Tem agora a idade dos suspiros. E por isso adormece. E brilha. E acende-se. E passeia pelos corredores do seu tempo. E chora. E estremece. E fala das suas mãos e das folhas impressas dos seus livros e fecha os olhos no seu silêncio de leitor. E espera devagar pelas palavras que lhe irrompem nos lábios. E dissolve-se nas palavras e na mulher que ama. E o poeta pensa: Tenho dentro de mim uma criança profunda que é todos os lugares a que já fui. E sorri. Fora do seu quarto as estrelas mudam de cor. E o poeta adormece pensando como é bonito imaginar que amanhã vai voltar a pedalar a sua bicicleta. A dialética da sua bicicleta. A semântica da sua bicicleta. Só então o poeta compreende que a sua bicicleta é a sua própria poesia. 


publicado por João Madureira às 07:00
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2 comentários:
De Cris a 20 de Junho de 2012 às 11:03
Olá João,
estou sempre por aqui, numa espécie de expectativa maravilhada, a ver quando passas de bicicleta ;)


De Anónimo a 20 de Junho de 2012 às 16:16
DE:
“E o poeta adormece pensando como é bonito imaginar que amanhã vai voltar a pedalar a sua bicicleta”.

PARA:
“Só a memória nos pode salvar da perda e da solidão e devolver-nos o sonho”.

… as bicicletas de Junho, de um; as de Setembro, de outro - estas com dedicatória a Eduardo Carneiro (um Flaviense).

Nós ficamo-nos pela lenta corrida com “gancho” e arco.

Romeiro de Alcácer


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