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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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22
Jun12

O Homem Sem Memória - 120

João Madureira

 

120 – Antes de prosseguirmos com o relato, temos de confessar que mesmo nós, entusiasmados pelas anotações do José relativas às suas leituras do “Manifesto do Partido Comunista”, pegámos na mesma edição e, depois de ler: “Não há exagero em dizer que as dificuldades que se deparam na tradução…”, tombámos igualmente para o lado como pedras. Só despertámos de manhazinha ao ouvir o cantar do galo eletrónico pousado na mesinha de cabeceira. Mas como é do José que esta narrativa fala, avancemos sem mais delongas. No entanto, pedimos desculpa, mas voltamos já. Logo após o cafezinho da manhã.


Levantei-me com uma grande dor de cabeça. Mas mesmo grande. Enorme. O “Manifesto” está a dar cabo de mim. Fui procurar o Graça ao Centro de Trabalho para ver se falava com ele para lhe transmitir as minhas angústias, os meus desesperos, as minhas dúvidas e as minhas limitações. Mas ele não estava, tinha ido comprar mais baldes, cola e pinceis, pois era o responsável pela célula da Agitação e Propaganda.


À saída, uns militantes de base tentaram aliciar-me para ir colar cartazes. Eu, muito educadamente, recusei tão grande distinção. Os meus futuros camaradas olharam para mim um pouco de lado. Eu justifiquei-me dizendo que ainda não estava preparado para tão elevada tarefa revolucionária. Eles voltaram a olhar para mim ainda mais de lado. Eu insisti que para se ser militante comunista é necessário ler, pelo menos, o “Manifesto” e o “Programa e os Estatutos do Partido”. Eles retorquiram-me que não é preciso ser-se militante do Partido para colar cartazes e pintar paredes. Basta ser-se simpatizante. Eu disse-lhes que só colaria cartazes depois de preencher a ficha e pagar as quotas. Antes, nada feito. Insisti: Ainda não estou preparado para tamanha tarefa revolucionária. Eles foram-se embora, não sem antes exprimirem o que lhes ia na sua alma de comunistas sinceros: Provocador.


Durante a tarde pus-me a ler “O Idiota”. Fiquei angustiado, delirante, nervoso, tenso. Li mais de cem páginas sem me deter. Só parei quando a minha mãe me chamou para jantar. Jantei muito e bem. E bebi o que a comida me pediu. À noite fui de novo procurar o Graça à sede do Partido, que foi onde a sua avó me disse que ele se encontrava agora a toda a hora e momento. Mas ele, importante como já era, não me pôde atender porque estava numa reunião da comissão concelhia. Os mesmos camaradas dos cartazes renovaram-me o convite, desta vez para ir com eles fazer umas pichagens ao centro da cidade. Eu, porque sou um coerente leitor de Marx e Engels, e disso lhes dei conta, declinei o convite pelas mesmas razões apontadas anteriormente. Eles responderam-me: Pequeno-burguês. Eu desculpei-me: Não, eu não sou nada disso. Eles insistiram: Esquerdista. Eu desculpei-me de novo: Não, eu não sou nada disso. Ao que acrescentei: E isso o que é? Eles tornaram a insistir: Provocador. Eu respondi: Não, eu não sou nada disso. Sou apenas filho de um GNR que abandonou o seminário e que agora quer encontrar o caminho da revolução. Sim, confesso que quis ser democrata-cristão. Mas isso já me passou. Até quis ser socialista, mas desisti. Também foi vento passageiro. Agora apenas quero ser aquilo que os meus amigos são. E como quase todos eles são comunistas também quero ser comunista marxista-leninista e punhalista. Ao que um deles, respondeu: Não blasfemes. Eu deixei passar em branco a provocação e continuei: Não me resta outro caminho senão ser comunista. Por isso é que quero falar com o Graça por causa de uma coisa a que não consigo dar resposta sozinho. Então eles tornaram a insistir: Para fazer pichagens não é necessário ser militante. Apenas é necessário ser simpatizante. Eu, disse um deles, sou apenas simpatizante e colo cartazes e pinto paredes tão bem como qualquer militante. Respondi-lhe: Eu não me refiro à capacidade, mas antes ao ardor, à fé em praticar um ato não só por estima, mas antes por profunda convicção. Eu sei que sou capaz de colar cartazes numa parede e de escrever letras num muro. Mas esses atos se não forem acompanhados de uma adesão à causa não prestam para nada. Todos os nossos atos têm de refletir fé. E essa fé só a militância é que nos a pode dar. Eu só posso ir colar cartazes, pintar paredes ou vender “A Verdade” depois de me tornar militante. Não sou capaz de brincar com os princípios. É feitio meu. E o marxismo-leninismo é uma ideologia inundada de princípios. E de fins, remedou-me outro dos meus futuros camaradas. E ainda outro: Não foi Marx que disse que não interessam os meios com que se atinge um fim, se esse fim for o comunismo? Eu tornei a tornar: Não me consta. Mas tenho de reconhecer que ainda li muito pouco Marx. E Engels também. E Lenine. Até era por causa disso que queria falar com o Graça. E um deles, dos meus futuros camaradas: Camarada Graça. Camarada dirigente. Eu anui: Sim. E outro deles: Sim, o quê. E eu: Sim, o camarada Graça. E o mesmo meu futuro camarada: Camarada dirigente. Eu tornei a anuir, como convinha: Sim. E o mesmo outro meu futuro camarada: Sim, o quê. Eu, já um pouco farto da conversa de tontos, disse: Sim, o Camarada dirigente. E um dos que parecia distraído: Qual deles? E eu: O Graça. O camarada Graça. O camarada dirigente. E o tal meu futuro camarada distraído: Pois o Graça. Levantei-me de supetão e preparava-me para ir embora quando o camarada simpatizante me agarrou no braço e novamente me convidou para ir com eles colar cartazes e pichar paredes. Eu tornei a insistir com a minha falta de preparação ideológica. Ele fez-me ver que não é preciso ser um competente leitor de Marx e Lenine para colar cartazes com a devida eficácia comunista. Eu concordei. Mas contrapus: Como é possível andarmos a lutar por uma causa se não a percebemos completamente? Todos juntos: Reacionário. Ia eu a dizer que não era nada disso quando, pensando melhor, lhes respondi à letra: Basistas. E dali me fui para casa ao encontro do meu “Manifesto”. Entendamo-nos, não do “meu” manifesto pois eu não sou daqueles que escrevem manifestos. Eu gosto pouco dessas coisas. Eu gosto mais de escrever poesia. Mas fui ao encontro de mais uma tentativa de leitura do “Manifesto do Partido Comunista”. 

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