Quarta-feira, 27 de Junho de 2012

O Poema Infinito (106): o eco

 

 

As habitações cintilam, as raízes traçam misteriosos desenhos na terra e as plantas incendeiam-se por dentro no sentido dos seus filamentos. Sinto a luz pousar nas pedras e na água cristalina enquanto sustenho a respiração. O velho mobiliário continua a evocar a infância antes do tempo ter destino. A solidão escorre pelas paredes. Conheço milímetro a milímetro o silêncio que tomou conta de mim. É o mesmo de sempre, apesar de ser outro. Guardo o sofrimento dentro dos meus olhos molhados. As noites continuam tristes. O perfume das flores torna-se enjoativo. Os cães ladram ao longe. Os sorrisos cada vez mais tardam a regressar ao meu rosto. Vivo agora uma alegria cansada. Parece que tudo é inútil: a escrita, a memória, a recomposição. O vazio toma forma. O vazio torna-se esmagador. Quando falo apenas oiço o eco das palavras, não as palavras, apenas o seu eco. O seu ecoooooo. Oiço também o ruído quase impercetível do voo dos pássaros. A tarde quente agarra-se às paredes da casa e geme. Está na hora de arrumar os objetos e partir. O vento roça as paredes de mansinho. Gostava de ter vontade de ficar. Gostava de querer vaguear pelas ruas, de imaginar cavaleiros fantásticos conquistando a imaginação dos simples. Aproxima-se uma velhice silenciosa e melancólica. Por isso parto na noite incendiada. Ainda de manhã senti a luz estilhaçando-se em feixes e entrando pelas frinchas da janela do quarto. Nada se movia. Nenhum gesto era necessário. Só olhar. Olhar a luz a renascer lutando contra a insónia, contra o silêncio imemorial da noite. E o vazio espalhava-se ordenadamente sobre os objetos que se afastavam cada vez mais da sua utilização antiga. E os sons da manhã atravessavam as paredes e desapareciam na penumbra do aposento. A manhã tremia dentro do meu quarto. E eu via estranhas paisagens e corpos de sombras movendo-se. E as minhas mãos assustadas pousavam no fundo do rio. E o eco das palavras voltava. O eco das palavras. Não as palavras, mas o seu ecoooo. Alguém murmurava ao meu ouvido um fingimento de palavras confusas dentro do seu eco. E também a memória da noite veio ter comigo jorrando silêncio e luz e estrelas e luar que vergava pinheiros. Houve tempo em que a terra era lavrada com toda a religiosidade do mundo. Cheguei a inventar paisagens para estar contigo. Cheguei a caminhar pela imensidão das águas à tua procura. E as imagens de rostos felizes vão-se esfumando como se fossem apagadas da memória por uma borracha elétrica. O tempo faz ainda mais desgaste no meu corpo. A aldeia foi exterminada pelo progresso. Aqui já ninguém regressa. A esta terra já a não definem as palavras, mas apenas o seu eco. O seu ecoooo. Queimei os últimos livros na lareira. E as suas promessas foram apagadas para sempre. Delas só resta o eco. O seu ecoooo. Saí pela porta das traseiras, escavando um túnel por onde a memória se foi escoando. As ruas lá estavam imobilizadas na sua desolação. As pedras sofrem agora a sua derradeira catástrofe de abandono. O esquecimento ficou encostado no escano aquecendo-se ao que resta de calor na lareira. Entrou definitivamente dentro da sua precária eternidade. Sair daqui só é possível com passos circulares. Já falta pouco para o que resta do meu tempo regressar a esta terra com a água das grandes catástrofes. Regressarei então com o fingimento do eco das palavras, porque as palavras estarão definitivamente encerradas dentro da mala onde a minha avó guardava o pão e a carne. 



publicado por João Madureira às 07:00
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1 comentário:
De Cris a 27 de Junho de 2012 às 12:17
Gostei.
apesar de saber q poesia n se explica, achei um pouco confuso somente o final. da parte do "entrou definitivamente..a carne."

bj


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