Segunda-feira, 2 de Julho de 2012

A lira de centeio verde

 

Aqui há uns anos, um velho amigo disse-me que durante algum tempo devia tentar escrever sobre música. Respondi-lhe que, apesar de gostar muito de música, não podia escrever sobre uma matéria de que não percebia patavina. Por isso deixei temporariamente de escrevinhar.

 

Hoje estava quase para fazer o mesmo: deixar de escrever. Mas consegue alguém viver sem respirar? Depois lembrei-me dos meus tempos de menino e moço quando, com um estreito canudo de pé de centeio verde ao qual se faziam duas incisões laterais, fabricávamos umas gaitas pequenas, mas ruidosas, que soprávamos durante o tempo suficiente para as fazer vibrar tentado imitar o som de alguma modinha que ouvíamos na telefonia lá de casa.

 

Esse foi o único instrumento que ousei tocar. Ainda jovem tentei aprender a tocar viola, mas cedo desisti. Não me dava com o instrumento. Além disso era muito impaciente, o que é meio caminho andado para não conseguir assimilar nem o tempo, nem as modas, nem as posições e, muito menos, as rotinas do instrumento. Feitios, ou melhor, defeitos.

 

Por isso, de música, conformei-me em ouvi-la com algum rigor e método. O que já não é nada mau para uma pessoa da minha singela condição, pouca habilidade manual e escassas posses. Mas cada um tem que se conformar com a sua sorte e com a inerente condição.

 

É a vida, como muito bem diz o meu filho João Vasco. E não vá o sapateiro além da chinela. Por isso, hoje vivo confortado com a minha ventura e com a minha irrigante mediocridade. Por isso decidi continuar a escrever, não sobre música, como irão reparar, mas sim um pouco sobre tudo e um outro tanto sobre nada.

 

Em meu auxílio vieram, então, as palavras de Victor Hugo: A traição trai sempre o traidor.

 

Vou começar por transcrever umas quantas linhas da página 204 e mais algumas outras da pagina 205 do livro “A Grande Arte” de Rubem Fonseca. Não me perguntem porquê, pois eu não o consigo explicar. Mas não é por isso que vou deixar de o fazer com algum entusiamo. De facto existem coisas às quais não conseguimos resistir, apesar de não as alcançarmos entender, ou explicar. Ora aí vai, por isso prestem mais um bocadinho da vossa atenção.

 

«Então?»

«Todas as pesquisas indicam um equilíbrio muito grande. É impossível saber agora, na conjuntura atual, quem ganhará. Pode ser que o quadro se defina daqui a uns dois meses, mas a hora certa de», hesitou, «fazer as doações é agora.»

«Muito bem. São cinco partidos?»

«Cinco.»

«Dá para todos. Mas manobra de maneira a que eles tomem a iniciativa de pedir.»

«Isso não é difícil. O seu nome é neutro e todos precisam de dinheiro, até o partido do governo.»

«Além da doação institucional, que você me garante que não será contabilizada pelos partidos, vamos dar dinheiro também para alguns candidatos, individualmente. Não deixe os radicais de lado. Eles também aceitam, não aceitam?»

«A corrupção não tem bandeiras.»

«Isso não é corrupção, Gontijo.»

«Tem razão. Desculpe.»

 

Agora, com vossa licença, vou dar um pulo até à página 268 do mesmo livro.

«O dinheiro compra, o dinheiro tranquiliza, o dinheiro alegra, o dinheiro fortalece», disse Lima Prado no primeiro dia em que estiveram juntos, «mas não é tudo, lembre-se disso.»

 

Pois é, o Lima Prado tem razão.

 

Agora vou escrever, à falta de motivo mais elevado, sobre um gato e um passarinho. Eu aprecio muito ver os gatos a caçar. Olha, olha, além está um passarinho a bicar o chão à procura de alimento. Tão engraçado. Olha, olha, um pouco mais ao longe lá está um gato parado a examinar o passarinho. Estou em crer que apesar de ambos estarmos a olhar para a mesma ave, cada um tem dela uma perspetiva diferente. O gato está parado dentro da sua ânsia. Eu estou quieto dentro do meu vagar. Observo, pacientemente, os seus saltinhos e a sua arte, a velocidade, a direção, os seus expedientes volatórios. E o gato faz o mesmo. Eu à procura de uma fotografia, o gato em busca da sua carne. Num inesperado momento, o bichano salta e apanha o desditoso passarinho em pleno voo. E depois fica por instantes a olhar para mim com o passarinho nos dentes. Eu digo-lhe para soltar o passarinho. Mas ele ainda o abocanha mais. E parece que sorri. Apesar de ter pena do passarinho, também fico fascinado pela pronta felinidade do gato. É a vida, como muito bem diz o meu filho João Vasco.

 

Agora vou transcrever parte de um diálogo entre um namorado seguro de si e a sua insegura namorada. Ela: «Tu gostas de mim?» Ele: Se tu achasses que eu não gostava não mo estavas a perguntar.» Ele novamente: «Às vezes pareces maluca?» Ela: «Eu apenas amo aqueles que me amam.»

 

De novo volto a Rubem Fonseca: «Enquanto você telefona, lembrei-me de uma frase de Cromwell: “A democracia é forte na Inglaterra porque neste país os homens de bem têm a mesma audácia dos canalhas. Aqui os homens de bem são covardes. (…) Mas, na verdade, como já foi dito, o Poder não corrompe os homens; os tolos, se conseguem uma posição de Poder, corrompem o Poder. O medo, sim, corrompe, como afirmou alguém que não me lembro. O medo de perder o poder, o medo que está sentindo este governo, é que torna as pessoas mais corruptas. Se me permite um circunlóquio, no Brasil o Poder cria corruptos e a corrupção cria poderosos.»

 

Diálogo entre mim e a Luzia: «Então?» «Então o Quê?» «Gostas mesmo de música?» «Gosto.» «Juras?» «Juro. O meu problema é que não aprendi a tocar nenhum instrumento.» «Toca a tua lira de centeio verde.»


publicado por João Madureira às 07:00
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