Quarta-feira, 4 de Julho de 2012

O Poema Infinito (107): Não, este não é um poema de amor…

 

O que fica da noite é o sabor intenso a sexo e nas mãos os resíduos frescos da acidez melíflua dos teus beijos. Não, este não é um poema de amor. Por isso aqui me tens com a corda ao pescoço tecida com palavras e partículas sensíveis. Continuo a ler as páginas do tempo insistindo sempre para que me descubras. Uma e outra vez. Por isso os textos explodem enchendo o ar de mil paciências. E a solidão uiva por dentro de mim. Todo o amor é inexplicável. A sua estrutura inviável. O seu acaso. Os olhares manifestamente estranhos. A fábula lírica com que se compõe. Um corpo aquece-se contra outro corpo numa combustão instantânea. Vêm-me à cabeça as palavras de hoje. E os labirintos com que a natureza molda a cor dos teus olhos. E o seu perfeito desespero. E o seu estado de limpeza. Por vezes conseguimos habituar a nossa idade ao som lento dos segundos. Então as mãos desenham alegorias fantásticas. O ar levanta-se como se fosse um corcel que arrasta as manhãs mais leves. A bruma entra vorazmente na nossa boca aberta de espanto. E o vento arrasta o maravilhoso cheiro das maçãs maduras. E o ar estremece. E a nossa pele vibra. O tempo persegue o tempo no seu paradoxo. Do ar irrompem mamilos prodigiosos que servem o leite adocicado da solidão. Toda a ternura dorme nos nossos sexos. Não, este não é um poema de amor, pois nele o trigo grita nos montes. E o vale reflete o clarão das nossas breves vidas. Não há nenhuma lei que contrarie esta infalibilidade. Disso temos a certeza absoluta. Por isso, estes momentos são nossos. Só nossos. Por isso voamos desesperadamente de encontro à luz, como duas borboletas sôfregas. O céu hoje é um mar distante. Por isso nos despimos movimentando o desejo e a sua linguagem feita de fios de fogo. Não, este não é um poema de amor, pois o tempo é ainda, e para sempre, um murmúrio. As árvores começam a falar e a crescer dentro do seu sossego. As coisas ficam mais rápidas. As nossas mãos semeiam ternura. E o sossego fica perfumado de palavras. O ar transpira e os nossos corpos transformam-se em barcos. E navegam. E cavalgam. E a água começa a desmembrar-se e a construir a sua líquida liturgia. Todo a amor tem a forma de saudade. Por isso é que este não pode ser um poema de amor, mas antes do seu desespero. Começam a chegar agora as páginas da noite caindo sobre nós com a sua lucidez escura. As pequeninas coisas choram no seu infelicíssimo modo. Deitados na cama sentimos a chuva que principiou a cair. Sentimo-nos gravitar. Toco-te. Tocas-me. Os nossos corpos são novamente frases trémulas. Não, este não é um poema de amor, pois as nossas mãos não conseguem dominar o fogo que deles nasce. Somos pontos parados neste momento absoluto. Pontos equilibrados pelo seu sentido. Pelo sentido do amor e da morte. Por isso somos animais famintos. E devoramo-nos. Aqui me tens, com as partículas sensíveis da minha loucura tentando construir frases que deem algum sentido ao absurdo da vida. Aqui me tens nu, magro, velho e doente. Mas ainda vivo. Nada mais tenho para te dar a não ser isto que sou. Não, este não é um poema de amor. É muito mais do que isso. 


publicado por João Madureira às 07:00
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