Sexta-feira, 6 de Julho de 2012

O Homem Sem Memória - 122

 

122 – Resumindo e concluindo: Antes do «Manifesto» propriamente dito, ainda aparecem mais três prefácios. A saber: “Do prefácio à edição alemã de 1890”, com três páginas, duas notas de asterisco em numeração árabe e sete em numeração romana (XXI a XXVII); “Prefácio à [terceira] edição polaca de 1892”, com duas páginas e nenhuma nota; “Prefácio à edição italiana de 1893”, com um subtítulo: “Ao leitor italiano”, com uma nota adjacente, a XXVIII, que fala de a nota “Ao Leitor”, originalmente escrita em francês, ser considerada definitivamente perdida, existindo, porém, um rascunho manuscrito de Engels, na qual abundam as variantes e as lacunas, guardado no Vaticano, ó desculpem, em Moscovo, nos Arquivos do Instituto do Marxismo-Leninismo adjunto ao Comité Central do PCUS. Este prefácio foi o último que Engels escreveu para o «Manifesto», ou seja, dois anos antes da sua morte.


Na parte final do prefácio, a coroa da moeda marxista, já que a cara repousa no cemitério de Highgate, onde a erva continua a crescer, escreve que “o «Manifesto» presta plena justiça ao papel revolucionário desempenhado pelo capitalismo no passado. A primeira nação capitalista foi a Itália.” (O quanto se aprende ao ler este livrinho precioso!) “O fim da Idade Média feudal e o início da era capitalista moderna são assinalados por uma figura colossal: um italiano, Dante, ao mesmo tempo o último poeta da Idade Média e o primeiro poeta dos tempos modernos. Hoje, como em 1300, avizinha-se uma nova era histórica. Dar-nos-á a Itália o novo Dante que assinalará a hora do nascimento desta nova era, a era proletária?” Engels a elogiar Dante, maravilhoso.


Mas não, a nova era italiana deu ao comunismo dois desalinhados com o Vaticano, ó perdão, com Moscovo: Palmiro Togliati e Enrico Berlinguer (inventor do herético Eurocomunismo), que Alberto Punhal detesta, combate, rebate, fustiga, admoesta e menospreza.


Segue-se o «Manifesto» propriamente dito, com uma pequena introdução, que se nos afigura premonitória: “Anda um espectro (XXIX) pela Europa – o espectro do Comunismo”. De seguida fala na “santa caçada (XXX)” que lhes é movida pelos poderosos europeus, incluídos os radicais franceses e agentes da polícia alemã. Terminando: “Com este objetivo” (de os comunistas exporem abertamente ao mundo a sua maneira de ver, etc.) “reuniram-se em Londres comunistas das mais diversas nacionalidades e delinearam o «Manifesto» seguinte, que é publicado em inglês, francês, alemão, italiano (XXXI), flamengo e dinamarquês (1).”


Como podem reparar, em 22 linhas de texto, aparecem três notas em numeração romana (ou seja, das grandes) e uma em numeração árabe, a (16). Esta está lá para nos informar que “a publicação do «Manifesto» nas línguas referidas não foi imediatamente possível.” Só não nos fala das razões. Os comunistas não explicam, informam.


A nota (XXIX) é deveras interessante. “«Espectro»: o termo «espectro» parece-nos, após algumas hesitações, preferível ao de «fantasma» para traduzir o alemão «Gespenst» e o inglês «spectre» aprovado por Engels na tradução de Samuel Moore. A razão está no intuito polémico, habitual em Marx, em que o termo parece ter sido empregado.” Seguem-se mais 65 linhas. Entretanto fui tomar um café com cheirinho, fumei um cigarro e passei à frente.


Passei à nota (XXX): “… ‘heilige Hetzjagd’. A exata palavra alemã que aqui se lê neste passo do texto, e tanto no da primeira edição como no das seguintes em vida de Engels é: ‘eniger heilige Hetzjagd’, o que significa rigorosamente: «uma sagrada batida de caça» ou, como acima escreveu o tradutor português: «uma santa caçada». Depois, durante mais 48 linhas, fala do “auspicioso emprego do adjetivo ‘heilige’, sagrado, santo…” e de outras coisas do género.


A nota (XXX) refere que, “segundo os especialistas italianos, não há conhecimento de nenhuma edição italiana em 1484 nem em nenhum dos anos próximos. A primeira teria sido a de Pietro Gori.” Desta forma ficámos todos bem mais descansados. Uf, que alívio!


Pretendia passar em branco alguns factos que me aconteceram durante a leitura da nota (XXX), por pouco significativos para o coletivo comunista, para a revolução democrática e nacional e para a… mas muito dolorosos para mim, José… sim José, filho de outro José, filho de Luís, filho de Manuel, filho de Geraldo, filho de Venceslau, filho de João, filho de Fernando, filho de Dinis, filho de Carlos, filho de Afonso… filho de Alexandre… filho de José, filho de Jacob, filho de Salomão, filho de David, filho de Jessé, filho de Esrom, filho de Farés, filho de Judas, filho de Jacob, filho de Isaac, filho de Abraão.


Mas, pensando melhor, e para memória futura, não resisto a contá-los. Ia eu na linha 31, mais precisamente onde se diz que “mais significativo, no artigo que tem justamente por título ‘A nova Santa Aliança’ (Die neue «Heilige Allianz») e publicado na “Nova Gazeta Renana” em Dezembro de 1848, portanto uns meses apenas depois da redação do «Manifesto», não se deixa qualquer margem para equívocos (K. Marx-F. Engels ‘Werke’, tomo 6, edição Dietz, Berlim, 1959, pp.146-147)… quando adormeci em cima da mesa de carvalho da cozinha. Bem, dizer que adormeci é quase uma mentira piedosa. Literalmente desabei. E dei uma tal cabeçada no tampo da mesa que me cresceu um galo do tamanho de um ovo de pata com duas gemas. Mais uma vez a leitura do «Manifesto» estava a colocar a minha vida em risco.


Fui-me a ele, fechei-o, pu-lo debaixo do braço, não fosse a minha mãe descobri-lo e deitá-lo ao lume, já que o considerava como o “Livro do Demónio”, ainda pior do que o de São Cipriano, e abalei para a farmácia. Demorei uma meia hora para ir, gastei outra meia para vir, com um intervalo de um quarto de hora de discussão. É que não me queriam vender uns comprimidos, vulgo anfetaminas, para me manter acordado, e suficientemente excitado, independentemente do que estivesse a fazer ou a ler. Eu protestei. Mas eles mostraram-se inflexíveis: tais pílulas só as podiam vender com receita médica. Eu tornei a protestar, dizendo-lhes que não era drogado nenhum, que precisava das anfetaminas para me manter desperto e assim conseguir estudar para um exame importante. Eles tornaram a argumentar com a sua inflexibilidade: os comprimidos só os podiam vender com receita médica. Então peguei distraidamente no «Manifesto» e bati com ele em cima do balcão, acusando-os de reacionários, burgueses, capitalistas, exploradores, etc., mostrando-lhes a minha costela de perigoso comunista em que me estava a transformar. O dono veio então de lá de dentro, olhou para a capa do livro e ficou lívido. “Dado tratar-se de quem é”, disse para os empregados, “podemos fazer uma exceção”. E deu um arzinho da sua graça manifestando simpatia pelo MDP/CDE, a muleta eleitoral do Partido.


Tomei dois comprimidos e, finalmente, pus-me a ler o «Manifesto» propriamente dito. Para quem não saiba, começa assim: Título: “I - Burgueses e Proletários (*) – (*) (Nota de Engels à edição inglesa de 1888). Por ‘burguesia’ entende-se a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social e patrões de trabalhadores assalariados (employers of Wage-labour). Por ‘proletariado’, a classe dos trabalhadores assalariados modernos que, não tendo meios próprios de produção, dependem da venda da sua força de trabalho para subsistirem. (Notar, porém que «dependem» é tradução” (ai estes tradutores!) “do alemão «darauf angewiesen sind», e não do inglês «are reduced to». Do mesmo modo se chama a atenção para a diferença entre o inglês «labour-power» e o alemão «arbeitskraft». – Nota da ed. portuguesa.)”


Eis-nos então chegados à primeira frase que é a trave mestra de toda a ideologia comunista: “A história de toda a sociedade até agora existente é a história de lutas de classes (XXXII).” E lá fui eu à procura de outra nota. Ei-la grafada unicamente num terno de linhas, como a palavra «mãe» que é escrita com três letrinhas apenas, e apesar de pequena é a maior que o mundo tem. Lindo. Linda também a nota. “«Lutas de classes»: Marx efetivamente escreveu «Klassenkämpfen», marcando assim claramente o duplo plural. Nem «lutas de classe», nem tão pouco «luta de classes». Aqui, é bem de «lutas de classes» que se trata.”


Não é por nada, mas até aposto que a quase totalidade dos comunistas usa o termo “luta de classes” para se referir às «lutas de classes». Mas, como podemos ver, estão errados. Não há como ler para aprender. Aprender, aprender sempre, como muito bem ensinou Lenine. O que seria do «Manifesto» sem as notas de Vasco Magalhães-Vilhena, Doutor em Filosofia pela Sorbonne (Paris?).


Ainda me pus a respigar uma coisa aqui, outra mais acolá, mas sem muito critério ou valor. Lá mais para a tarde, o efeito das anfetaminas desapareceu e voltei a desabar em cima do tampo da mesa. Ganhei mais um galo do tamanho de um ovo de gansa com três gemas. Com dois altos enormes na testa, guardei o «Manifesto» em parte incerta e fui procurar o Graça para termos uma conversa definitiva sobre quais os requisitos necessários e suficientes para se ser comunista de corpo inteiro.

  


publicado por João Madureira às 07:00
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