Quarta-feira, 11 de Julho de 2012

O Poema Infinito (108): O tempo

 

O espaço trás dentro de si um outro espaço onde palpita o tempo. Um vento velho envelhece ainda mais e transforma-se em brisa. Está agora concluída a transparência dos anos. Tornamo-nos invisíveis, como se fossemos vestígios sensíveis do espírito. Um fogo abstrato abre o caminho da incerteza. O sofredor persegue o seu sofrimento. O mundo suspende-se à espera de mais rigor. Ilumina-se. E as palavras nascem na sua espessura adequada. O tempo abre-se e o passado adquire uma outra condição. São longas as sombras matutinas. Os pinheiros acordam por entre a luz subtil do sol que espreita com os seus olhos de fogo. As águas da ribeira fluem enquanto a noite se apaga. A velhice espera para avançar mais um pouco convencida do absurdo sentido do seu lento trabalho. Este momento fixo resigna-se à sucessão do tempo. E o tempo geme. E o tempo grita. E o tempo afunda-se dentro da sua lógica. O mundo parece agora mais feliz. O descanso toma conta da minha alma inquieta. O toque dos sinos é de novo o indício da minha feliz meninice. E duas pobres lágrimas desavindas estabilizam-se na comissura dos meus lábios. A alegria foi sempre uma ideia, não uma existência. A felicidade foi sempre um indício, não uma realidade. A vida é uma dulcíssima inutilidade que anoitece devagar iluminada por uma vagarosa saudade de que tudo se inicie. Por isso é que arredondamos os sentimentos. Por isso é que expomos o fluxo leve do amor ao brilho instantâneo do desejo. E teimamos em ficar nus perante o tempo que já nos fez e agora nos desfaz. Vemo-lo vir dentro da sua lógica demolidora. Dentro da sua puríssima abstração. Dentro da sua coerência de um deus devorador. E também a erudição ergue a sua impotente luminosidade transigente. E chora dentro do seu júbilo. Aves expandidas de alegria pousam agora em cima das memórias da infância. E envolvem-me dentro dos seus cânticos mudos. A iluminada indecisão do futuro torna o presente insuportável. Por isso as palavras se tornam insustentáveis. Delas partem gloriosas narrativas de redenção e morte. Delas parte o esquecimento. O pó do esquecimento. O manto eficaz da ausência. A noite remanesce compassiva, fervendo dentro da sua melancolia, rejubilando no meio da sua cegueira, sofrendo a sua ausência perpétua de luz. O tempo curva-se nos breves instantes de uma felicidade escrita. Só a angústia se torna explícita dentro da sua narrativa de amor e morte. Abre-se o horizonte que amanhecerá em breve. Já se almeja o seu ritmo de luz e azul. Um outro horizonte abre-se dentro do anterior. E ainda outro. E outro. Assim sempre até chegarmos ao fim. É esta a muda narração do universo que se expande. Que se expande dentro do seu sentido paradoxal. Que se explica no seu silêncio feito de solidão e pó. Deus diz: Tu és pó e ao pó tens de voltar. Por isso te sonho como pó de estrelas. 


publicado por João Madureira às 07:00
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1 comentário:
De Cris a 11 de Julho de 2012 às 19:40
"O tempo curva-se nos breves instantes de uma felicidade escrita.
Por isso te sonho como pó de estrelas. "

Lindíssimo!!


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