Sexta-feira, 13 de Julho de 2012

O Homem Sem Memória - 123

 

123 – Diário de bordo: Encontrei o Graça no Centro de Trabalho a catalogar os baldes, os pincéis, as brochas, a contar os pacotes de cola de papel, as latas de tinta, os paus de giz, as réguas de madeira, o fio do norte, as tachas e os pregos. Então fui-me caras a ele e perguntei-lhe: “Achas que para se ser comunista é preciso ler o Programa e os Estatutos do Partido ou o Manifesto Comunista?” Ao que ele respondeu: “Não. Para ser sincero, eu não conheço ninguém que em boa verdade o tenha feito.” Então confessei-lhe: “É que eu tenho tentado. Ó como tenho tentado! Mas adormeço sempre. De uma vez, se não fosse a minha mãe, tinha mesmo morrido queimado na cama.”


Posto perante o meu drama e a minha desventura, o Graça contemporizou: “Achas que os católicos leem a Bíblia ou os muçulmanos o Alcorão? Não, não leem. Ouvem os padres nas missas papaguearem as citações dos respetivos livros sagrados, obedecendo aos ensinamentos e às ordens que lhes dão os superiores, que são sempre as mesmas e proferidas nas mesmas alturas. Além disso, a grande maioria do povo é analfabeta, ou iliterata. Se fosse necessário ler o Livro para se ser comunista, ou cristão ou muçulmano, a imensa maioria só o poderia ser quando já fosse velho ou mesmo nunca. Ora isso não pode acontecer. É na juventude que se ganha o entusiasmo para se ser alguma coisa. Depois de velho já ninguém se preocupa com a redenção. Já está tudo redimido, as esperanças fodidas e a morte ao virar da esquina do tempo. Nessa altura apenas se espera que a realidade não seja tão autêntica como é. Um católico sabe ajoelhar-se, utilizar o terço, rezar, benzer-se, recitar passagens do Livro, confessar-se, repetir orações e acreditar na sua nesga de paraíso à sua espera no Céu. Um muçulmano sabe utilizar o terço, ajoelhar-se, repetir orações, rezar, recitar passagens do Livro, confessar-se, benzer-se e acreditar num lugarzinho reservado lá no paraíso celestial. E os comunistas sabem sentar-se a uma mesa e discutir, recitar passagens do Livro, confessar-se, só que o fazem em grupo e chamam-lhe crítica e autocrítica, repetir frases que são o mesmo que as orações dos crentes, e prometerem, ou acreditarem, no paraíso na Terra, nos seus quinze minutos de fama e quinze segundos de proveito. Podemos dizer que o Comunismo é o Catolicismo, ou o Islamismo, na sua forma mais prática. Pretende redimir, fazer-nos acreditar numa vida melhor, afastar da nossa mente a dimensão animal, a barbárie e dar algum sentido à vida.”


Depois de lhe ouvir tais palavras, olhei para o Graça e cheguei à conclusão que o rapaz não estava bem. Não podia estar. Algum mal lhe deviam ter feito. Mas ele continuou a arrumar os utensílios como se não acabasse de contradizer tudo em que acreditava, ou dizia acreditar. Perguntei-lhe: “Tu estás bem?” Ele respondeu-me que sim. Apenas não dormia vai para três dias pois tinha de encher Névoa de cartazes, pichagens e murais revolucionários. Perguntei-lhe como aguentava. Ele disse-me que o camarada médico lhe servia uns comprimidos milagrosos que tiravam o sono, o apetite e até o tesão. “Milagrosos?”, perguntei eu. E ele: “Milagrosos, é o que te digo. Afastam-nos do pecado da gula, da luxúria e fazem-nos ver estrelinhas.” “Ó homem, tu enganaste-te na casa, devias ter ido para o seminário. E olha que eu sei daquilo que estou a falar. Tu és um crente. Um crente desassombrado. A religião para ti pode ser um bálsamo. O comunismo, pelo que te ouvi, só pode vir a tornar-se uma maldição”, disse-lhe como quem se confessa a um amigo. Depois peguei nele pelos ombros, tirei-o dali e fomos comer qualquer coisa.


“Sabes qual é a primeira frase do «Manifesto do Partido Comunista»?”, perguntei-lhe enquanto ambos e dois fumávamos um cigarro virados para o rio. Ele respondeu-me com um sorriso nos lábios: “Sei.” E eu pronto a estender-lhe uma ratoeira: “Então di-la em voz alta para eu a ouvir.” E ele: “A história de toda a sociedade até aqui é a história da luta de classes.” E eu: “Errado”. E ele: “Como errado?” Eu de novo: “Errado.” Ele já visivelmente apreensivo e olhando para mim da mesma maneira que Alberto Punhal olhava para Mário Soares: “Não pode estar nada errado. Eu sei-a de cor. Todo o bom comunista a sabe. Pode não saber o resto, mas a primeira frase do «Manifesto» é sagrada. E eu tenho a certeza de que a pronunciei corretamente.” E voltou a repeti-la. Então eu disse-lhe: “Escreve-a.” E ele escreveu-a e eu tornei a dizer-lhe que estava errada. E acrescentei: “Disseste que todo o bom comunista a sabe, por isso é que tu és dos maus. Eu vou dizê-la corretamente: «A história de toda a sociedade até agora existente é a história de lutas de classes».” E ele fumando mais depressa: “Mas foi isso que eu disse.” “Parece-te”, disse-lhe com cara de mestre. “Não é «luta de classes», mas sim «lutas de classes»”. E ele outra vez com cara de Alberto Punhal contrariado: “Não gozes comigo. Foi isso precisamente o que eu disse: «Luta de classes».” Então eu repeti-lhe calmamente o que tinha lido no «Manifesto»: “«Lutas de classes»: Marx efetivamente escreveu «Klassenkämpfen», marcando assim claramente o duplo plural. Nem «lutas de classe», nem tão pouco «luta de classes». Aqui, é bem de «lutas de classes» que se trata.”


O Graça, quando me ouviu “rezar” tão bem a prédica, deu uma passa profunda no SG filtro e, por entre o engasgo, as lágrimas e a satisfação, disse-me que para ser comunista já só me faltava mesmo acreditar no comunismo. Eu respondi-lhe sinceramente: “Acredito nele tanto como tu. Mas, nos tempos que correm, temos de acreditar nalguma coisa. Terra onde fores ter, faz como vês fazer.”


Depois contei-lhe tudo, os prefácios, as notas, o incêndio, as cabeçadas, as semanas e semanas de tentativas de leitura do «Manifesto». Recitei-lhe uma frase de que gostei particularmente, se é que gostei de alguma coisa: «Um movimento semelhante desenrola-se diante dos nossos olhos. As condições burguesas de produção e de circulação, as condições burguesas de propriedade, a sociedade burguesa moderna que desencantou meios tão poderosos de produção e de circulação assemelha-se ao feiticeiro que já não consegue dominar as forças ocultas que invocou.»


“É José, tu estás um comunista feito. És um comunista às direitas.” E riu-se muito. Eu também me ri com o trocadilho. E dei-lhe conta dos vários tipos de socialismos, segundo a nossa Bíblia. E ele: “Segundo o nosso Catecismo.” E eu: “Tens toda a razão.”


E enumerei-lhas: “Segundo Marx (cujos ossos repousam no cemitério de Highgate, onde a erva continua a crescer) e Engels (cujas cinzas repousam no mar de Eastbourne, Reino Unido, o seu lugar preferido para descansar), existiram, ou existem ainda, três tipos de socialismo que temos de rejeitar e combater para construirmos o nosso. A saber: 1 – Socialismo Reacionário, que se divide em a) Socialismo Feudal, b) Socialismo pequeno-burguês, c) Socialismo alemão, ou Socialismo «verdadeiro» (atenção às aspas); 2 – Socialismo conservador, ou burguês; 3 – Socialismo e comunismo crítico-utópico.


Depois rimo-nos, sem saber bem porquê. E rimo-nos mais uma vez e outra e outra. E citei-lhe mais uma parte do «Manifesto»: “…a navegação e os caminhos-de-ferro expandiam-se e assim se desenvolvia também a burguesia…” E continuámos a rir-nos.


A burguesia a expandir-se como um vírus através dos caminhos-de-ferro transformou-se para nós num episódio hilariante. Eu a ver o meu pai a abandonar o arado e ir para Lisboa trabalhar na GNR, ganhar algum dinheiro e conquistar, à custa de patrulhas e multas, a sua condição de pequeno-burguês que iria dar origem a mais alguns pequeno-burguesitos ranhosos e complexados, encheu-me de pena e de riso. Ria-me para não chorar. E o Graça seguia pelo mesmo caminho. O comboio a ser o motor da contrarrevolução era uma representação decadente como a puta que a pariu. E continuamos a rir até que não conseguimos mais e nos fomos embora a dizer primeiro em surdina o penúltimo parágrafo do «Manifesto»: “Os comunistas recusam-se a esconder os seus pontos de vista e os seus propósitos. (Agora um pouco mais alto.) Declaram abertamente que os seus objetivos só serão alcançados pela liquidação violenta de toda a ordem social até aqui. (Ainda um pouco mais alto.) Que as classes dominantes tremam face a uma revolução comunista. (Já muito mais alto.) Os proletários nada têm a perder com ela a não ser as suas cadeias. E têm um mundo a ganhar. (Finalmente num grito enorme.) Proletários de todos os países, uni-vos.” Ao que uma voz respondeu na escuridão: “Ide-vos foder. Comunistas para a Sibéria já.” Ao que respondemos: “Vai tu, que lá faz muito frio.


publicado por João Madureira às 07:00
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