Segunda-feira, 16 de Julho de 2012

Rufadores e Tocadores (2): Tudo o que rufa e toca é tudo a mesma tropa…

 

Para mim já é suficiente saber aquilo que sei acerca de mim próprio e dos outros, pois saber coisas de mais acaba sempre por prejudicar a noção que delas temos.

 

É um pouco como a amizade, que, ao contrário da ideia que dela fazem os interesseiros, não se alimenta de favores e contra favores, mas das alegrias que os amigos dão uns aos outros apenas pelo prazer da companhia, ou mesmo pela simples certeza de um e outro existirem.

 

Amiúde assaltam-nos ideias que tentamos espanar como por vezes o fazemos às moscas teimosas que, mesmo enxotando-as repetidamente, voltam a pousar no mesmo lugar.

 

E esta ideia que por momentos me assalta decorre de observar, e pensar, que nestes tempos de pós-modernidade que dizem vivermos, com acesso à educação e ao conhecimento, cada vez impera mais a estupidez e a fraqueza moral transformou-se numa teoria universal.

 

Desde que o mundo é mundo, uma das ocupações a que os seres humanos se dedicam é a deitar o olho ao que é dos outros e, quando chega a ocasião, deitar também a mão.

 

O mais engraçado é que o larápio acha sempre que toda a gente apenas pensa em roubar e, do mesmo modo que ele pretende rapinar aquilo que é nosso, nós pretendemos surripiar o que é dele.

 

Está escrito nas estrelas, e inscrito nas mentes iluminadas dos que nos governam, ou governaram, que os cidadãos, que têm a ousadia de contestarem o seu mau governo, devem explicar aquilo que eles não conseguem: convencer os céticos de que toda a crítica é desnecessária, demonstrar que o mundo não se pode modificar fora da sua lógica e da sua forma de pensar e de agir.

 

Muitas das vezes exigem mesmo às pessoas que ousam enfrentá-los a tarefa imensa de provar a razão da sua existência: quem somos nós, de onde viemos e para onde vamos.

 

Valha-nos Deus, eles é que vestiram a pele de piedosos, os atavios de líderes espirituais, de gestores da coisa pública, de mentores do desenvolvimento, de administradores políticos, sociais, de animadores de comícios, de fazedores de cidades imaginárias.

 

Eles é que têm o direito, e o dever, de explicarem o que fazem e porque o fazem. Eles e mais ninguém.

 

Mas como não explicam, e muito menos demonstram o que quer que seja, as nossas palavras valem tanto como as deles.

 

Acusam-nos de descrentes por não acreditarmos nas suas falácias. Deixem-nos ser. As nossas palavras, volto a repetir, valem tanto como as deles. E de entre elas, cada cidadão deve eleger as que, por razão confessa ou não, mais lhe convêm, pois todos sabemos que os homens e as mulheres livres escolhem aquilo em que acreditam.

 

Eu entendo-os. Entendo tudo aquilo que dizem e mesmo aquilo que sussurram.

 

Estes senhores desejam que expliquemos o inexplicável: as suas atitudes, o seu mau governo, a sua inábil gestão, a sua fuga sistemática à verdade, o seu despesismo, a sua inoperância.

 

Eu não pago para escrever, a mim ninguém me paga para escrever, a mim ninguém me diz o que devo escrever. Eu não alugo espaço nos jornais ou nas rádios, não escrevo recados anónimos para destabilizar. Eu não devo, nem pago, favores políticos ou jornalísticos a ninguém. A mim ninguém me deve favores políticos.

 

Eu escrevo o que escrevo pensando sempre em construir uma ideia. Eu não lanço as pedras e escondo a mão. Não. Eu dou a cara. Muitos não gostam do que veem ou leem, paciência. Cristo que é Cristo também não agradou a todos. E os judeus, que eram o seu povo, até o crucificaram.

 

Eu não tenho a obrigação de dizer que a realidade é boa ou daninha conforme a orientação política do momento. A realidade é o que eu vejo, não o que me querem fazer ver. Eu não tenho o que é certo como pré definido. O certo é aquilo que está de acordo com a realidade. E quem vê a realidade apenas com um olho é cego.

 

Afinal o que é que nós ganhámos com esta gente? Esta é que é a pergunta que os cidadãos fazem a toda a hora. E a verdade é que não encontram resposta satisfatória ou mesmo nenhuma resposta para ela. Este é que é o drama. Este é que é o pântano em que nos enfiaram.  Difícil, extremamente difícil, vai ser sair dele.

 

Eu sei que de graça ninguém faz nada, até mesmo os santos querem como paga ir para o céu. Todos temos um preço. E o meu ainda é o reconhecimento que muitos dos leitores expressam em relação àquilo que eu escrevo em busca da verdade. Veem, eu até me contento com pouco.

 

Estou mais que habituado a que me aliciem com o conselho de que chegou o tempo de cuidar de mim. Não, ainda não chegou. O imperativo moral é seguir em frente. É de novo necessário desmascarar os filisteus e ajudar a expulsar os vendilhões do templo. Pois Deus só nos pode perdoar.

 

Não, eu não desisto. Para desmascarar o embuste basta lembrar a todos aqueles que nos leem que apesar de os senhores que nos governaram, ou governam, disfarçarem, e até negarem, a sua má gestão, é só prestar um pouco de atenção àquilo que fazem, e não àquilo que dizem, para nos apercebermos da embrulhada em que nos meteram pela calada dos gabinetes. O logro nesta gente não é a exceção, é, infelizmente, a regra. Tudo o que rufa e toca é tudo a mesma tropa.

 

Basta prestar um pouco de atenção à realidade porque ela ajuda-nos na resposta. Eles metem no meio da realidade a ilusão, a sua ilusão. Mas a realidade é justamente o contrário do que eles dizem, ou do que pretendem dizer.

 

Eles estão habituados ao espetáculo mediático. Esta gente persegue a ideia de que é melhor ser herói do que previdente. Gostam mais de pegar fogo e depois vir apagar o incêndio, salvando gente. Eles que não conseguiram prevenir o incêndio, querem depois apagá-lo e serem ressarcidos por isso. Eles sabem que as pessoas se lembram sempre do herói e não do homem previdente. O herói recolhe todas as recompensas. O previdente pode ter sorte em receber um abraço.

 

Os homens e as mulheres que conhecem a arte da vida devem sempre virar ao contrário o que lhes dizem para se inteirarem se o certo não é esse contrário, se essa não é a verdadeira realidade.

 

E de sábios de pacotilha, que pensam que são importantes porque vestem de acordo com a moda para aparecerem em público, mal conseguindo disfarçar o seu incómodo sobre as verdades que se escrevem nos jornais, começamos todos a estar fartos.

 

Mas deixem que vos diga que essa gente que se diz sábia não é tão sábia assim, pois não é tão sábio aquele que sábio demais se mostra. O esperto não é sábio. É apenas sabido. Só que um sabido está sujeito a encontrar sempre algum mais sabido ainda. Por isso é que vive sempre em guarda e nunca tem paz. 


publicado por João Madureira às 07:00
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