Quarta-feira, 18 de Julho de 2012

O Poema Infinito (109): As palavras

 

Vejo-te vítima de um excesso de transparência, dentro da expectativa inútil de um impulso neutro. De súbito, um tremor lúcido de palavras surge dentro de uma história misteriosa. São palavras imaturas, evidências misteriosas, silêncios espontâneos. Estou esgotado dentro da minha aridez semântica. De repente, os teus olhos acendem a paisagem. Palavras vagarosas fabricam árvores felizes dentro do seu verde necessário. Uma luz passageira demonstra a sua breve alegria. Onde há palavras sempre corre uma brisa de alegria e uma outra de tristeza. Agora apenas procuro um pouco de espaço para respirar. E o som ténue das frases repercute-se na passagem breve dos sentimentos. As palavras perfilam-se para escreverem as cores da manhã, para outorgarem a doçura ao poema, para perfumarem as roseiras bravas, para fazerem coincidir o pecado e a salvação. As palavras ardem dentro da sua nudez enigmática enquanto os caminhos se abrem para serem percorridos. As palavras propagam-se nuas pelo calor adentro e contemplam o teu corpo adormecido e estendem-se voluptuosamente dentro do silêncio aéreo. Em volta o mundo converte-se num campo imenso de branquidão. Tudo fica imóvel. Fixo. As superfícies remanescem lisas, sem reflexos nem sombras. Tudo é ao mesmo tempo presença e ausência. E o vento traz de volta os velhos vocábulos que deixaram de se usar. O texto circula e agita a árvore das palavras e as palavras, agora feridas de sentido, dão golpes de movimentos claros. E o meu corpo enrola-se no teu corpo e cintila e desenha novas palavras e novos sentidos para elas, como se nascessem de novo. As frases respiram. As frases constroem novas frases e perdem-se para de novo se voltarem a encontrar, como num jogo infantil. E desenham contornos nítidos ao desejo, ao contentamento, à volúpia. E as palavras, serenamente alinhadas na sua moradia, continuam o seu trabalho de abelhas límpidas. E escrevem a leveza e a transparência da água e a sombra no verão e a fotossíntese das folhas e a necessidade dos jardins suspensos e a ordem do caos e a partícula de deus e o pó das estrelas que te desenharam o corpo e te verdejaram os olhos. E a loucura da torre de babel. E essas mesmas palavras definem ainda a densidade dos sentimentos e a luz exata da origem do universo e a essência de deus e da sua partícula original. E deus fica dentro das palavras como se não tivesse substância. E chora. E chora palavras frias. E delas germinam árvores que sorriem do nada e se deixam abanar pela nudez do vento e pelo seu ritmo. E as palavras são agora o vinho que nos embriaga e que nos permite o excesso. Depois as palavras ficam feridas e dispersas. E choram. E choram porque tudo explicam mas não se conseguem explicar. Por isso agora são folhas que repousam à espera de se transformarem em cinza que o vento da tarde espalhará pelo mundo. 


publicado por João Madureira às 07:00
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