Sexta-feira, 20 de Julho de 2012

O Homem Sem Memória - 124

 

124 – A partir deste dia, o José deixou temporariamente de escrever. Mas não deixou de viver. Valha-nos ao menos isso, senão a nossa história tinha de acabar antes mesmo do seu fim previsto. Por isso vamos continuar a contar as suas venturas, aventuras e desventuras.


À noite fez questão de ir ao Centro de Trabalho preencher a sua ficha de adesão ao Partido e de comunicar aos camaradas da Brigada de Agitação e Propaganda que já se encontrava em condições ideológicas de começar a colar cartazes, fazer pichagens, projetar, desenhar e pintar murais. Tornou-se no melhor cola cartazes da concelhia. Ou quase. Porque o Partido sabe que há sempre um que é o melhor de todos, mas nem sempre o distingue. Prefere distinguir um outro. E esse “outro” é que é o cabo dos trabalhos. A competição aguça o engenho e mantém a amizade sempre no nível da desconfiança. E os comunistas são peritos em isolar cada militante na sua competição máxima e na sua relação mínima. O Partido está acima de tudo.


O José deu a boa notícia aos seus novos camaradas com um sorriso nos lábios. Agora sim, estava preparado para a sua militância revolucionária. E muito bem preparado. Podia discutir o marxismo-leninismo a um nível mínimo, mas aceitável para o seu nível de militância, podia praticar a crítica e a autocrítica nas reuniões da sua organização, podia ler e discutir o editorial d’ A Verdade, podia propor as melhores estratégias para angariar novos militantes, para lhes cobrar as cotas, para vender a voz da classe operária, para se inscrever e angariar sócios tendo em vista controlar as diversas organizações recreativas e culturais, as distintas associações desportivas de juventude, os diversos sindicatos, associações de estudantes e grupos de influência juvenil.


Mas, sobretudo, podia inundar a cidade e os arredores com as palavras de ordem comunistas. A palavra do Partido tinha de chegar às massas. As palavras de ordem tinham de pôr as cabeças dos proletários, dos camponeses, das mulheres e da juventude, a funcionar. Essa era agora a grande batalha revolucionária: convencer o povo da justeza das propostas comunistas, despertar as massas e trazê-las para a luta. E para isso era necessária a urgentíssima tarefa revolucionária de colar cartazes e pintar paredes.


Como a primeira campanha eleitoral pós 25 de Abril se avizinhava, mesmo contra a vontade expressa do Partido que considerava as eleições legislativas inoportunas, ou mesmo reacionárias, a Brigada de Agitprop inundou Névoa de cartazes do Partido. Bem, do Partido não, mas antes da coligação que liderava, identificada com argolinhas como as dos jogos olímpicos, pois o povo ainda não estava preparado para votar no partido da foice e do martelo sem se arrepiar. Foram anos e anos de anticomunismo e isso paga-se caro. Além disso, partidos ditos comunistas criados pelos esquerdistas provocadores, que se identificavam e ostentavam a foice e o martelo, havia uma mão cheia deles. Daí o Partido não poder ser mais um no meio de tantos. Tinha de ser “o outro”, o verdadeiro, o que concorria numa coligação aberta e fraterna com mais dois partidos progressistas, porque o Partido sempre apostou na unidade com as forças genuinamente democráticas, patrióticas e de esquerda. O Partido nunca esteve só, o Partido sempre procurou a unidade na ação. Nunca com a reação. Daí a necessidade de uma coligação. Rima e era verdade.


Aprendeu técnicas de agitprop. Por exemplo, que nunca se deve colar um cartaz isolado. Nesses ninguém repara. As pessoas são atraídas pelas manchas, que são muitos cartazes colados uns ao lado dos outros. Mas não colados ao deus dará, mas antes fixados juntos com muito rigor e disciplina. Todos milimetricamente alinhados. Outra técnica é colá-los em sítios onde as pessoas não lhe cheguem com facilidade, evitando assim que os reacionários e provocadores os arranquem ou os rasguem. Daí a necessidade de uma escada ou um escadote. Cartazes à mão de semear são um desafio a que os arranquem. E cartazes rasgados são inestéticos além de significar que o povo não gosta da mensagem, do mensageiro ou de ambos. E lá vai a propaganda e a agitação para o caraças.


O Graça bem lhe comunicou o que o camarada funcionário lhe transmitiu – e que lhe tinham transmitido a ele através do controleiro distrital e que ele tinha ouvido da boca do camarada da comissão executiva da Direção Regional do Norte e este do Comité Central –, que os cartazes custam dinheiro e que esse dinheiro é do povo, bem assim como a cola, os pincéis e tudo o resto.


Nessa noite, na sua primeira noite como militante comunista, o José encheu-se de subir e descer a escada e o escadote, de estender cartazes, de espalhar cola, de afixar os cartazes nas paredes em lindas e alinhadas manchas coloridas que espantaram os poucos militantes e simpatizantes comunistas que havia na cidade e atrapalharam os muitos militantes e simpatizantes dos outros partidos. Mas quando uns ficam orgulhosos com o trabalho por si realizado há sempre outros que se roem de inveja.


Na noite seguinte as brigadas de cola cartazes dos outros partidos, num impulso revanchista e provocatório, arrancaram os cartazes da coligação das argolinhas e colaram os seus no mesmo lugar. Uns tortos, outros desalinhados, outros mesmo de pernas para o ar, numa autêntica batalha de mau gosto, vingança e, sobretudo, numa atitude antidemocrática própria das forças da reação e obscurantistas.


Na manhã seguinte, o José chorou de raiva e o Graça tratou logo de reunir a célula da agitprop para discutir o assunto. O camarada funcionário fez questão em estar presente, pois sabia da fúria que grassava na militância de base. Um a um, todos tomaram a palavra para dizer que se tinha de fazer alguma coisa. A reação não se podia ficar a rir. Os camaradas mais recentes, liderados pelo José, propuseram que se utilizasse a lei de Talião: olho por olho e dente por dente. Mas o camarada funcionário disse que não se devia entrar no jogo dos reacionários. Isso era o que eles queriam. Tinham de evitar responder na mesma moeda. Se agora fossem arrancar os cartazes deles, estavam a proceder da mesma forma, ou seja, estavam a ser reacionários. E os comunistas podem ser tudo, menos reacionários.


O Mário, de alcunha o “Camões”, por ser cego de um olho, apesar de ser dos camaradas mais jovens, era também um dos mais velhos da organização, levantou o dedo para falar, o que nele era muito raro, pois concordava sempre ou com o camarada funcionário ou com o Graça, e disse: “Eu apoio esse tal camarada Talião. Acho que devemos arrancar os olhos à reação. Ou pelo menos um a cada reacionário.”


Foi o cabo dos trabalhos para lhe explicar que o Talião não era comunista e que não devíamos interpretar a frase à letra, pois o que com ela o camarada funcionário quis dizer é que não lhes devíamos arrancar os cartazes pelo facto deles, os terríveis reacionários, nos terem arrancado os nossos.” “Só isso?”, perguntou espantado o Mário “Camões”. “Que merda de comunistas somos nós se depois de arrancarem os nossos cartazes não respondermos à provocação com a devida violência revolucionária. Já Lenine disse que só a violência é revolucionária…”


Aqui foi interrompido pelo camarada funcionário que lhe perguntou quem lhe tinha dito tal coisa. Ao que o Mário “Camões” respondeu que tinha sido ele, não ele, o próprio, mas sim ele, ele, o camarada funcionário.


Então o camarada funcionário, um pouco exaltado, respondeu-lhe com a verdade, que também é revolucionária, como muito bem disse Lenine, que nunca tinha dito aquilo que ele disse que ele disse. Mas que sim tinha dito que a ditadura revolucionária do proletariado consiste em destruir por meio da violência a máquina burguesa do Estado. Ao que o Mário “Camões” respondeu que era isso que tinha acabado de dizer. Aí o Graça, que era muito amigo do “Camões”, Mário, e também seu controleiro, interrompeu a discussão chamando a devida atenção dos presentes para a necessidade de se prosseguir com os pontos em discussão que estavam em cima da mesa e que eram de cariz eminentemente prático e não apenas ideológico. Ao que o camarada controleiro ripostou dizendo que no Partido Comunista todas, mas mesmo todas as questões são ideológicas ou de caráter iminentemente ideológico.


“Até cagar?”, perguntou o Carlos Chouriço, que gostava tanto de comer como de dizer piadolas de mau gosto. Todos se riram menos o camarada funcionário, pois com coisas sérias não se brinca. Por isso respondeu novamente que no Partido, com o Partido e sobre o Partido, todas as questões são iminentemente ideológicas. Ao que o Graça, por seu lado, replicou que o que queria dizer com “questão ideológica” é que o ponto da ordem de trabalhos não era um assunto de marxismo-leninismo, mas sim de ordem mais prática, pois apenas tinha a ver com o tema de lhes terem arrancado os cartazes e de por isso terem de estudar uma resposta adequada.


O funcionário voltou à baila para afirmar que tudo o que um comunista faz é ideológico. “Até mijar?”, perguntou de novo o Carlos Chouriço. Todos se voltaram a rir, menos o camarada funcionário, que ficou de repente com cara de Alberto Punhal quando alguém lhe chamava estalinista.


Por proposta do Graça, a reunião foi interrompida para almoço. 


publicado por João Madureira às 07:00
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