Quarta-feira, 25 de Julho de 2012

O Poema infinito: Elegia das utopias (em apneia) - [rep]

 

Sonhei num tempo concreto onde um homem magro dividia as utopias e as embrulhava em fórmulas condensadas e a voz do desejo namorava as palavras generosas fazendo a tua boca assemelhar-se a uma estrela de música sacra onde os timbres inesperados ecoavam no abismo do teu corpo que agora se estende em ecos incontrolados como se o silêncio do tempo fosse um soluço de raiva divertida e a fantasia rasgasse o tempo e o rosto da pobreza e as noites negadas aos amantes separados pela religião ou pelas fronteiras da língua ou pelos muros persistentes da intolerância ou como se a vida se compusesse de insónias e rostos abjurados pela guerra e pela surpresa da destruição das paisagens e as carícias fossem um pecado teoricamente livre onde os olhos assassinos inventassem deuses cruéis navegando em buracos negros onde as mães matassem os seus próprios filhos mesmo antes de serem gerados e onde em nome da paz a raiz dos livros sagrados construísse a bondade nos olhos dos poetas cegos para assim da terra brotar a erva daninha da esperança e os corações dos guerreiros poderem girar ostentando o sangue inócuo da glória e do triunfo e da vontade de vencer todos os inimigos e todos os estrangeiros e todos os emigrantes e todos os relógios atómicos e depois ainda escreverem livros repletos de palavras nuas que copulam entre si furiosamente na tentativa frustrada de compor um poema alegre sonhado por crisálidas desenhadas por um computador tão perfeito como o deus da guerra que é a deidade da glorificação da vitória e do sangue e da morte para mais ao longe as bocas famintas de afagos e beijos e palavras doces e quietas brilharem em murmúrios vestidos de silêncio quase feliz quase feliz quase feliz e depois ouvir os gritos mudos de esperança dos homens de boa vontade e as vozes roucas das mulheres ultrajadas pela ablação do órgão do prazer das suas vaginas e o sangue virgem das prostitutas proletárias negras e doentes sufocadas pela moléstia inventada pelos que enviam o amor para fora do tempo e vestem a humanidade de ódio e indulgencia e fome e fartura e religião e ateísmo e de gritos demorados de lutas fratricidas e de classe como se a natureza dos homens os pudesse dividir em rebanhos com donos cheios de razão e onde os mastins ladrassem o manifesto comunista ou a bíblia ou o alcorão até trocarem todas as palavras e todas as frases e todo o sentido para assim o ódio ser ainda maior que o dos nazis aos judeus e meu deus lá vem mais um coração perdido no peito de um ditador como um relógio tresmalhado no bolso de um bancário que vende as horas que não são suas nas praças financeiras do ocidente e que ergue um copo de vinho tinto caríssimo à imagem e semelhança do gesto eclesiástico do regente na missa dos católicos que somos nós quase todos os que vivemos debaixo da beleza inócua das línguas latinas e com elas nos iludimos e nos enganamos e nos amamos e nos odiamos e nela rezamos a um deus insensível mas omnipotente que nos pede obediência e fé e depois ainda sedentos de lucidez recomeçamos tudo de novo como se os sonhos se pudessem repetir como se a vida não fosse única como se a liberdade não fosse individual como se a cultura não fosse essencial para nos envolver no anacronismo que é deus ter dado inteligência ao animal que cada um carrega dentro de si para assim podermos pensar na morte até morrermos…


publicado por João Madureira às 08:00
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2 comentários:
De Cris a 26 de Julho de 2012 às 09:23
tenho profunda admiração por quem escreve assim; num fôlego só. como automação. suspirei...
beijo.


De João Madureira a 26 de Julho de 2012 às 11:06
Cara Cris, tu vais sempre ao âmago dos textos, quer na forma quer no conteúdo. É sempre bom ler os teus versos em jeito de comentário. Um beijo grande.


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