Segunda-feira, 30 de Julho de 2012

Em defesa da amizade: Um, dois e três foi a conta que Deus fez etecetera e tal [rep]


Um - A cultura do meu amigo


Hoje apeteceu-me comer um gelado, enquanto conversava com um meu amigo que é muito dado às coisas da cultura. E falámos muito e falámos bem. De vários temas, todos interessantes. Digo-vos que é muito útil falar com esse meu amigo. Isto é, quando ele nos deixa falar. É que ele sabe muito de muita coisa, sobretudo de alta cultura. Fala muito e bem sobre os mais variados temas. Todos temas muito interessantes, muito abrangentes e muito atuais. Ele é até mais culto do que a maioria dos cultos do nosso país. E olhem que, mesmo sendo Portugal um pequeno país, possui, mesmo não parecendo, muitos e bons homens e mulheres de cultura. Mas, mesmo assim, este meu amigo supera-os quase a todos. Ele fala muito, bem e depressa e nunca, mas mesmo nunca, revela dúvidas enquanto discursa. Ou seja, nunca se engana, nunca se atrapalha, nunca gagueja. O discurso sai-lhe sempre límpido, sem hesitações, sem atrapalhações, sem flutuações ou outras indeterminações. Com ele é sempre a direito, mesmo quando o seu discurso revela uma configuração um pouco mais sinuosa. Tem este meu amigo a qualidade de tudo descobrir. De pôr tudo claro como água. A sua cultura é muito apreciada pela família, pelos amigos, vizinhos, colegas e até por alguns dos seus inimigos. Mesmo os seus inimigos reconhecem que ele é muito, mas mesmo muito, culto, de uma cultura superior, muito metódico no falar, muito comedido nos seus gestos, que também são cultos, até o seu andar é um andar que reproduz a sua brilhante cultura. O seu andar é mesmo muito erudito. De uma erudição convergente, tranquilizante e tranquilizadora. Mas não é só o seu andar ou o seu falar que espelham cultura, o seu olhar também a exprime. De uma cultura impecavelmente estudada. Se a cultura tem alguma utilidade, de certeza que é neste meu amigo onde encontra a sua plena realização. As suas conversas, mesmo quando parecem fúteis, não o são. O meu amigo dá-lhes sempre um toque culto. Até quando come consegue encher-nos de cultura. Com ele tudo se transfigura em cultura: os gestos, os talheres, os condimentos, as toalhas, os guardanapos, os tachos, os copos, o vinho, até mesmo os palitos dos dentes ganham uma auréola sublime, uma importância inaudita com espaço próprio na história universal. Depois é a sobremesa que se nos agiganta na sua intrínseca utilidade, no seu inseparável conceito culinário, na sua ancestralidade cultural, na sua significância metafísica, no seu indesmentível valor simbólico e prático, na sua génese voluptuosa, no seu redimensionamento monástico, na sua decifração metafísica, ou estrutural, ou alegórica. A tudo lhe encontra sentido, forma, objetivo, importância, sedução, uniformidade, relação e arte. Até na falta de cultura encontra cultura. E beleza. Para ele tudo é belo porque, na sua perspetiva, tudo se reduz à linguagem. No princípio era o Verbo, repete ele muitas vezes. É muito esclarecedor em tudo o que diz. Revela-nos a cultura que está por detrás da disposição das cadeiras, na colocação dos candelabros, no ritual de nos sentarmos ou nos levantarmos da mesa. Aponta-nos o conflito civilizacional e a evolução cultural que está por detrás do ato de não cruzarmos cumprimentos de mão. Elucida-nos com muita competência sobre o modernismo sistémico das floreiras numa sala de estar ou sobre o conflito epistemológico das reações químicas entre pessoas que se querem bem. Uma noite passada com este meu amigo vale por uma semana inteira a estudar a enciclopédia luso-brasileira de cultura. Podia estar aqui toda a noite a escrever que não era capaz de expressar convenientemente a sua cultura. Por isso aqui vos deixo este pequeno introito com a única intenção de prestar, a esse meu amigo, uma singela homenagem que, não sendo culturalmente relevante, é sincera e necessariamente inculta.

 

Dois - Amizade


Há cerca de uma semana, o meu amigo Matias foi passear o cão e ele fugiu-lhe. Era um cão de raça. Foi muito caro. Era um animal de estimação. Como se fosse da família. Dele, claro. Que eu cá não me perco com esses animais. Era um cão que rosnava mais do que ladrava. Costumes de parentela. Andava sempre muito lavado, perfumado e penteado. Estamos a falar do cão do Matias. Porque o Matias, propriamente dito, é bem mais desleixado. Não é que seja mau tipo, é apenas um pouco sovina para os amigos. Mas com o cão não olhava a despesas. Nós, os seus amigos, por vezes ficávamos um pouco zangados por tratar melhor o cão do que a nós. Mas o Matias é mesmo assim. É ele e o cão, depois a família mais chegada, depois outra vez o cão e só depois os amigos. Estou em crer que o Matias é mais cão do que o próprio cão. Agora anda desfeito. Ele sem o cão não é nada. Nem dorme, só dá voltas e mais voltas em redor da cidade em busca do animal. No último desfile etnográfico em C., o Matias desfilou vestido de romano com um outro cão ao lado. Mas um carro, mesmo no final do desfile, passou-lhe por cima. Foi nesse mesmo dia que o Matias comprou o cão que agora lhe desapareceu. Já lá vão sete dias e o cão não aparece. Ele anda doido. De noite até ladra, imitando o cão, para ver se ele responde ao seu apelo. Nós já lhe dissemos que não lhe fica nada bem andar a ladrar à noite pelas ruas da cidade. Mas ele não nos liga. O seu estado inspira-nos algum cuidado. Por isso fazemos votos para que o cão do Matias regresse ao lar são e salvo.

 

Três - Em defesa da amizade


O meu amigo Miguel é muito distraído. Muito inteligente, mas muito distraído. Muito boa pessoa, mas muito distraído. Distrai-se com muita facilidade. Ainda ontem, quando andávamos a passear, foi de encontro a um poste de iluminação pública. Fez um grande galo na testa, mas nem sequer se queixou. O Miguel fala muito, pensa muito, distrai-se muito. Por vezes também se ri com muito saber. Muitos dos meus amigos dizem que ele é maluco, mas eu garanto-vos que não é. De maluco não tem nada. Ele é muito esperto, muito inteligente, muito compreensivo, muito efusivo, muito estudioso. Só que é muito distraído. Numa noite entrou dentro de uma casa alheia pensando que era a sua. Deitou-se na cama e só quando os donos se puseram aos gritos é que ele se deu conta do equívoco. Aquilo ainda foi uma grande trapalhada, pois meteu polícia, bombeiros, insultos e até prisão e julgamento. Dizem que nessa noite na esquadra recitou o Anticristo de Friedrich Nietzsche inteiro, com prefácio, data de edição da obra, tradução, capítulos e respetivas páginas. Parece que o polícia de plantão o ameaçou com um processo por desrespeito à autoridade e por provocação religiosa pois não conseguiu descortinar que o texto era do filósofo alemão e não um insulto gratuito ou um gozo fininho. Os polícias de agora são muito sensíveis e muito senhores do seu nariz. Até já têm alguma cultura. Mas daí até conhecerem o Anticristo de Nietzsche vai ainda uma grande distância. Cultos, cultos, mas nem tanto. Muita cultura também embrutece, disse-me uma vez um. Não me lembro de um único dia em que eu e o Miguel andássemos a passear e ele não tivesse tropeçado nalguma coisa. Já tropeçou em cães e cãezinhos, gatos e gatas, lambris de passeios, pedras pequenas e grandes, pessoas de vários tamanhos, raças, credos e ideologias, crianças calmas e rabugentas, choronas ou risonhas, polícias e guardas-republicanos, bombeiros voluntários e sapadores, soldados, sargentos, tenentes, capitães, majores e por aí fora. Parece que ainda só não tropeçou num contra-almirante. Também já tropeçou em carros de grande e pequena cilindrada, bicicletas de montanha e de corrida, triciclos novos e velhos, burros de carga, cavalos de corrida e, até, mendigos de várias espécies e origens, idades e proveniências, vícios e predileções. Quando isso acontece fica muito aflito e começa a gaguejar. Ato contínuo, oferece uma grande esmola ao sujeito passivo. Alguns deles fazem-se mesmo à colisão. Mal o avistam na rua, tentam sempre ir dar-lhe um encontrão. Ele pede sempre muita desculpa e dá-lhes obsessivamente uma esmola choruda. Mas, a partir daí, o seu discurso torna-se ininteligível. Não só pela temática, mas também por causa da gaguez. É aflitivo. E ele sabe-o. Falar sobre semiótica, ou sobre epistemologia, ou cibernética a gaguejar é uma tortura quase insuportável. Mas se eu o abandonasse quando ele está nesse estado quase catatónico seria uma traição. Afinal eu sou seu amigo. E os amigos devem servir para alguma coisa. O Miguel só tem medo de uma coisa: tropeçar num cigano que esteja a pedir esmola e que finja que toca o acordeão. Aí põe-se aos gritos e tem que tomar dose tripla da sua medicação para os nervos. Ninguém é perfeito. Nem o Miguel. Nem eu. Nem o Nietzsche. E, muito provavelmente, nem o amigo leitor. Essa é que é essa.


publicado por João Madureira às 08:00
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1 comentário:
De Cris a 30 de Julho de 2012 às 09:52
ninguém é perfeito mesmo. eu por exemplo, tenho repulsa a quem finja tocar acordeão.

vou guardá-la por identificar na grafia bué de amigos, inimigos, ciganos, etecetera e tal (ADOREI) ;)

ótima semana!
beijo.





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