Sexta-feira, 3 de Agosto de 2012

O Homem Sem Memória - 69 [rep]


69 – Aquele foi o Verão do seu contentamento. Acordava cedo e lia, quando podia, ou então, quando se deitava tarde, dormia mais um pouco para arranjar forças para brincar. Havia mesmo manhãs em que se levantava com as galinhas e ia para o seu forte, que era o terraço que servia de telhado à casa de banho, esperar pelo nascer do sol. Ali, com o seu chapéu à Daniel Boone, chorava de emoção quando via os primeiros raios de sol expandirem-se por cima do cume das montanhas. Este exercício de vigilância territorial era repetido ao pôr-do-sol, quando o José endireitava o seu chapéu de pele de raposa e entoava com a boca, transformada em cornetim, o hino do recolher dos seus féis exércitos imaginários.


O estranho chapéu à Daniel Boone resultou de uma investida solitária ao monte em busca de inimigos, que tanto podiam ser índios, como cowboys renegados, ou rebeldes sulistas. Numa dessas incursões deparou-se com uma raposa ferida de morte. Assinalou o local e deixou o animal entregue à sua sorte. Podia ter sido ele a dar-lhe o golpe de misericórdia, mas deixou que fosse o tempo a finalizar a tarefa. O José não conseguia matar nem uma mosca, quanto mais um animal belo e agonizante como aquele.


Passou lá no outro dia e encontrou, como esperava, o corpo inerte e frio do animal. Trouxe-o para casa e pediu a um amigo peleiro que o esfolasse e curtisse a pele. Depois levou-a a um alfaiate para dela fazer um boné com base numa fotografia do Daniel Boone publicada numa revista.


Passou a ser o herói do bairro. O ídolo das raparigas, que namoriscava sem se comprometer com nenhuma. Muitos dos seus amigos achavam-lhe graça e, de certa forma, admiravam a sua propensão para a fantasia. Via-se que não era como os outros. Vivia num mundo muito próprio. Alimentava-se de mitos, sonhos e conquistas.


Arranjou um amigo tão estouvado e tão solitário como ele que tinha um nome feminino. Todas as tardes partiam à desfilada, nos seus cavalos loucos, para o meio dos montes onde construíram cabanas de pinheiros e giestas, onde assavam as galinhas e os láparos caçados nas capoeiras e nas coelheiras dos seus familiares, onde bebiam os licores de laranja e anis preparados à base de concentrado adquirido nas farmácias, ao qual misturavam aguardente bagaceira e uma boa dose de açúcar. Fumavam cigarros feitos de barbas de milho seco ou, quando encontravam uma tribo de índios amiga, fumavam fortes cachimbadas de ervas aromáticas, até ficarem atordoados, à volta da fogueira e bebiam a meias, de garrafas especiais, os licores balsâmicos e açucarados.


Pescavam nos rios bogas, escalos, panjorcas, percas-sol, pimpões, trutas mariscas e enguias que abriam e secavam ao sol, ou davam aos gatos, ou se atreviam a assá-las num bom braseiro, ou então vendiam o peixe a algumas famílias com posses, e o que ainda sobrava entregavam-no ao asilo dos velhinhos, com a nítida intenção de alimentar os mais necessitados, mas o peixe do rio ia sempre parar ao prato do senhor abade, e de uma ou outra freira mais próxima da influência eucarística do guia espiritual, numa boa sertã recheada de suculentas postas fritas com cebola, tomate e pimento, que acompanhava com batata cozida, broa centeia e vinho branco de uma colheita privada de Arcossó.


O Graça – assim se chamava o seu amigo – vivia com a avó, pois a sua mãe tinha morrido vomitando os bofes devido a uma intoxicação de gás provocada por uma fuga de um esquentador instalado dentro da casa de banho. O seu pai, um sargento do exército português condecorado pela sua coragem em combate em comissões de serviço nas províncias ultramarinas (e colecionador de orelhas e dedos de turras), vivia agora um segundo casamento onde não cabia o seu primogénito. Houve ainda uma tentativa que correu muito mal, pois um dia o Graça insultou a sua madrasta dizendo-lhe obscenidades e mostrando-lhe o pénis de forma ostensiva. Esta era a sua forma de marcar terreno em relação às fêmeas. Quando o irritavam, ou o provocavam, ou olhavam muito para ele, de imediato baixava as calças e as cuecas e ostentava o falo como se fosse um troféu de caça.


Nesse mesmo dia, quando o pai chegou a casa, tratou de o amansar com um chicote (ó ironia das ironias) feito de pénis de boi que o deixou às portas da morte. Dali foi para o hospital em estado de coma. Quando recuperou, passados alguns dias, foi entregue aos cuidados da sua avó materna, que lhe dedicava um carinho especial e que era recíproco.


Um dia, o José e o Graça, resolveram envolver-se numa luta feroz contra um bando de escoteiros mirins comandados por um meia leca de calções e chapéu colonial emprestado pelo seu pai, que era soldado da GNR. Ambos e dois lhe tinham uma raiva muito particular. Sobretudo porque tinha a mania que era bom, que se sabia impor e arregimentar soldados para o seu pelotão. Verdade é que os tratava com uma varinha de salgueiro e os vigiava com monóculo de plástico de fabrico próprio, numa tentativa de imitar o seu herói preferido, o General Spínola. O zelo era tanto, que, por vezes, à falta de animal para cavalgar, montava no lombo de um dos seus apaniguados, que tinha uma queda especial para fazer de burro. Como também não tinha cães, socorria-se de outros dois rapazes que eram especialmente dotados para rosnar, ladrar, seguir pistas, mijar junto dos troncos das árvores alçando a perna, e morder a barriga das pernas do inimigo.


O pai deste garboso capitão mirim era conhecido por, usando o seu carisma e prestígio de GNR zeloso e autuador, pois passava multas por tudo e por nada, conseguir alimentar a família à custa do povo temerário que ele patrulhava na companhia de outro imbecil do mesmo calibre. Sempre que as batatas, as cebolas, as couves, os grelos, as galinhas, os coelhos, um que outro cabrito ou cordeiro para os dias festivos, um que outro leitão para cevar lá em casa, atingiam o ponto crítico na despensa ou na corte, e o fumeiro desaparecia na arca do centeio, o mirim sénior fazia-se encontrado com determinado agricultor e encomendava-lhe aquilo que lhe faltava a troco de um próximo pagamento. Quando recebesse o vencimento prometia pagar, até com juros. Lá prometer prometia, mas nunca cumpria. Os pobres homens tinham-lhe medo e metiam-se em copas. Algum, menos avisado, a princípio ainda teve a ousadia de ir pedir-lhe o que lhe era devido. Ele prometeu-lhe, mais uma vez, ir pagar-lhe no dia seguinte. E cumpriu com o prometido. Mas, imediatamente a ter feito o pagamento, inspecionou tudo o que tinha a inspecionar, desde a licença e as vacinas dos cães, o tamanho da ponta metálica da aguilhada, as chedas dos carros de bois, a licença e porte de armas da caçadeira, as vacinas dos bovinos, a permissão de abate dos cabritos e dos porcos, a autorização para os galináceos que andavam pelas eiras e pelos caminhos a invadir propriedade privada, a autorização para a venda dos restantes animais, das batatas e dos feijões, a licença das navalhas e dos isqueiros espanhóis, enfim tudo o que podia ser escrutinado foi-o duplamente e o dinheiro que tinha recebido nem sequer deu para um décimo da multa que se viu obrigado a pagar ao Estado. Foi lição definitiva. Todos vendiam ao GNR a troco de um sorriso e de uma promessa de pagamento que era de imediato esquecida. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Agosto 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9

15

22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Barroso

. Loivos

. 456 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. No Barroso

. No Barroso

. Poema Infinito (469): O l...

. No Barroso

. No Barroso

. 455 - Pérolas e Diamantes...

. O cabrito

. No Couto de Dornelas

. ST

. Poema Infinito (468): Voo...

. No Louvre

. O anjinho

. 454 - Pérolas e Diamantes...

. Gente bonita em Chaves

. Luís em Santiago

. No Louvre

. Poema Infinito (467): A a...

. Louvre

. Em Paris

. 453 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. Sorriso

. No Barroso

. Poema Infinito (466): Sem...

. Interiores

. No Barroso

. 452 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. São Sebastião - Couto Dor...

. No Barroso

. Poema Infinito (465): Dor

. No Barroso

. Misarela

. 451 - Pérolas e Diamantes...

. Feira dos santos

. Na feira

. O pastor

. Poema Infinito (464): A á...

. O homem da concertina

. Notre-Dame de Paris

. 450 - Pérolas e Diamantes...

. Em Lisboa

. Em Lisboa

. Em Lisboa

. Poema Infinito (463): Fix...

. Em Paris

.arquivos

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar