Segunda-feira, 6 de Agosto de 2012

Trilogia Manuelina e… [rep]


1 - Pensar ou não pensar, eis a questão…


O meu amigo Manuel revelou-me que anda triste porque agora já não consegue encontrar indivíduos. Confesso-vos que não percebi bem o queixume. Eu sou mais terra a terra. Ele é que gosta de pensar sobre o que os outros pensam ou não pensam, sobre o que significam determinadas palavras fora do contexto ou dentro dele, de refletir sobre a arbitrariedade das ideologias totalitárias ou sobre a indiferenciação ideológica e política que atravessamos. Fora isso, é até bom rapaz, um eficaz chefe de família, um atinado adepto do FCP e um rigoroso praticante de desporto, nomeadamente das corridas de karting. Na segunda-feira passada abandonou na mesa do café os seus amigos mais chegados. E isto porque, segundo o próprio, sendo todos de orientação política, futebolística e religiosa diferente, agora estão sempre de acordo. Parecem parvos, diz ele para quem o quer ouvir. Atualmente dizem e defendem todos o mesmo. E repete muitas vezes a frase: “Cada vez existem mais pessoas com as mesmas ideias.” E isso é assustador. Eu também acho que é. Mas penso que não é motivo suficiente para abandonar a mesa das suas amizades. Mesa que frequentou e animou durante 20 longos anos. Foi ali que debateu a questão da semiótica do marxismo, a tática e estratégia da guerra do Iraque na perspetiva de um chinês xintoísta, a liberdade aparente dos ricos, a penúria simbólica dos deputados europeus, a ontologia das operações matemáticas, a liberdade sexual em contexto cibernético, o direito internacional dos cães de caça, a influência da cor dos olhos na reprodução assistida, a importância da linguagem no crescimento dos antúrios e por aí fora, passando pela requalificação da Galinheira, o simbolismo da curva do Caneiro, a inteligência sofisticada dos embriões dos caracóis e o egocentrismo das estrelas-do-mar. A mãe do Manuel disse-me que o filho falou na sua barriga, quando andava grávida de sete meses. Por isso ele é tão predestinado e…

 

2 - Assim a modos que…


Não sei se me estais a perceber? Eu estava assim a modos que… mas, não sei porquê, às tantas, pumba, o gajo pirou-se e eu ali fiquei assim a olhar para ele e ele a olhar para longe e tal e coisa. Vai daí apareceu o Manuel e também começou a querer qualquer coisa e tal. Mas eu nada de me deixar ir na onda marada. Só sei que depois voltou o gajo e de novo se pirou e eu tornei a ficar ali e de novo a olhar para ele e ele a olhar para longe… e tal. O Manuel, entretanto, assobiava. Eu já estava a ficar chateado. Assim a modos que fodido. Mas mesmo muito. Não sei se me estais a perceber. Era uma cena muito marada. E eu para ali a cismar com os neurónios encalacrados de tanto pensar na coisa. Mas não desisti. Eu, como vós sabeis, não sou dos que desistem e muito menos quando sei aquilo que quero e tenho a certeza daquilo que penso. Não sei por que razão, mas o Manuel em vez de torcer por mim, continuava a assobiar como se não fosse nada com ele. E até era. Quando um amigo está em apuros o outro, se é mesmo amigo, também está. Era este o caso. E o gajo que tanto se pirava como regressava, voltou outra vez e, pumba, deu-se a mesma cena e coisa e tal. Não sei se me estais a perceber? Eu não podia permitir tal atuação. Era muito chato andar para ali à porrada, mas, bem vistas as coisas, que outra coisa podia eu fazer? Vai daí mandei o Manuel à merda e dirigi-me ao outro lado. No outro lado estava o Chico Pernalta, mas também ele fez que não me conhecia e pôs-se a assobiar como quem não quer a coisa… e tal. Vendo que o gajo tornava a ir-se embora, eu tornei o olhar para ele e ele novamente olhou para longe, como se não se tivesse já apercebido do imbróglio em que estava metido. Mas eu, por uma questão de honestidade, não podia proceder de outra forma e zás, tornei a atravessar a rua como quem não quer a coisa. Aquilo até já se estava a tornar monótono. Foi então quando o Manuel me perguntou se lhe podia emprestar algum dinheiro. E eu, porra, como estava um pouco chateado com ele disse-lhe para ir à merda. Mas ele não se chateou e continuou a assobiar e até me contou que na noite passada também esteve metido assim numa cena tal e qual como esta que vos conto. Eu não acreditei, claro! Mas, como vos conto, eu não sou sujeito para desistir. Eu prezo muito a honra e a dignidade. Ora, sendo assim, não podia agir de outro modo e foi aquilo que fiz. Agi como vos relato. Tal e qual. Eu não invento nada. Tudo o que vos conto é a mais pura verdade. Por isso, zás. E estava feito. O Manuel perguntou-me se não estava arrependido daquilo que tinha feito. E eu respondi-lhe que não. Penso que vós, na mesma situação, agiríeis da mesma forma. Ou não? Claro que sim! Eu conheço-vos bem. Não sei se me estais, bem, não sei se me estais, coisa e tal… Não sei se me estais a perceber? Eu estava assim a modos que… mas, não sei porquê, às tantas, pumba, o gajo pirou-se e eu ali fiquei assim a olhar para ele e ele a olhar para longe e tal e coisa. E zás, vai daí eu olho para ele e ele olha para longe e…

 

3 - Coisas verdadeiramente importantes…


Manuel, Manuel, Manuel, já te disse para não pensares tanto. Isso faz-te mal. Desinquieta-te o espírito, afasta as pessoas, põe os cães a ladrar para ti no meio da rua. Pensar não convém. O melhor é entreteres-te com a telenovela das oito ou com o futebol, com a nossa seleção, que é tão boa, tão digna, tão ganhadora. Fosse assim o país e outro galo cantaria. Os rapazes enchem-se de dinheiro porque são mestres no chuto da bola. E aquilo é difícil à brava. Muito estudo, muito sacrifício, muitos exames, muito rigor científico, muito método, muita perseverança, muito conhecimento, muito estudar e estudar e estudar, sempre, sempre, sempre em busca da melhor média. E muito cálculo matemático, muita física, muita química e também filosofia, português, história, ciências, muita mistura para aqui e para ali, muitas táticas, muito sangue suor e lágrimas. E depois são tão generosos que aplicam o seu dinheirinho na indústria nacional: bares e restaurantes, restaurantes e cafés, cafés e pizzarias, pizzarias e bares e discotecas e casas de moda. Tudo muito nacional, muito português, muito lusitano. E depois a cerveja que se bebe quando o Cristiano Ronaldo marca um golo e o Hugo Almeida quase marca outro e o Hélder Postiga também, e o Pepe, exemplo máximo da nossa alma lusitana, e o Quaresma e o Miguel Veloso, bem, o Miguel Veloso, bem, o Miguel Veloso tem aquele corte de cabelo que faz dele um autêntico campeão. E, mesmo em jogo, nunca deixa de se preocupar com a sua bela figura. Manuel, Manuel, Manuel, vamos ganhar o próximo Mundial e tu só pensas em pensar, em discutir coisas que não interessam nem ao menino Jesus. Manuel, Manuel, Manuel, pega na bandeira e vai para a rua gritar o teu enorme orgulho em seres português. Em teres nascido neste país que é o orgulho da Europa. Um país que deu novos mundos ao mundo e países tão ricos e desenvolvidos como o Brasil, Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, e, por último, aquele país que é um exemplo mundial da generosa e iluminada alma lusitana: Timor-Leste. Manuel, não chores que isso não resolve nada. Toma o antidepressivo que isso passa e…


publicado por João Madureira às 07:00
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