Sexta-feira, 24 de Agosto de 2012

O Homem Sem Memória - 72 [rep]


72 – Emboscada ao capitão escoteiro mirim do monóculo de plástico (continuação II).


Cena 9 (take 1). O Graça e o José, bem comidos e bem bebidos, palitam os dentes com um pauzinho de urze aguçado à navalha, arrotam alto, peidam-se e riem. Entretanto esperam pacientemente pelo inimigo que tarda em chegar.


Cena 10 (take 2). Ao longe o batalhão mirim serpenteia teimosamente pelo mesmo trilho percorrido anteriormente. Depois de algum movimento, estaca quase no mesmo sítio da primeira paragem efetuada durante a manhã, na qual o burro abandonou o seu comandante.


Cena 11 (take 5). Um soldado mirim: “Estou estafado. Comi muitos feijões e carne ao almoço. Dói-me a barriga. Vou ali arrear o calhau.” Vermelho de raiva, e com o brio pelas ruas da amargura, o capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro, adverte alto e bom som: “Ai não vais não. Por este andar nunca mais chegamos ao campo de batalha. Não vos apoquenta o que pensa o inimigo da vossa coragem, ou da falta dela?” O soldado à rasca da barriga: “Ou vou ali cagar ou…” Os outros soldados aflitos: “Deixa-o ir se não borra as calças e depois é a debandada geral por causa do pivete.” O chefe mirim: “Vai, mas volta rápido, pois há ainda muito caminho para percorrer e um inimigo para atacar e vencer.”


Cena 12 (take 3). O Graça e o José continuam impacientemente à espera que o inimigo se resolva a atacar. O Graça: “Lá voltaram eles a parar. Se não nos atacam eles, atacamo-los nós.” O José: “Mas somos apenas dois e eles são para aí uns vinte.” O Graça: “Eu sei. Mas não aguento mais esta indecisão. Pelo que vejo temos de mudar de inimigo. Este nunca mais se decide a atacar. E uma guerra sem luta não presta. Eu nunca gostei das batalhas táticas. Detesto estrategas. Eu aprecio uma luta cara a cara. Gosto de sentir o cheiro do medo do inimigo.” O José: “Olha, olha, a coluna pôs-se de novo em andamento. Está tudo a postos?” O Graça com cara de caso: “Está tudo a postos, mas nada em ordem. Mas deixa-os vir. Até os comemos!


Cena 13 (take 3). O capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro: “Em frente marche. Um dois três, um dois três, um dois… Lá está o inimigo empoleirado em cima das árvores. Os primeiros a entrar em combate vão ser os cães pisteiros. Sobem às árvores e enxotam o inimigo cá para baixo, que depois nós caímos-lhes em cima. Um cão pisteiro: “Falar é fácil, mas uma coisa é ladrar como os cães e mijar como os cães, outra bem distinta é subir às árvores. Os cães não sobem às árvores. Quem sobe às árvores são os gatos. E nós não somos gatos. Somos cães. Por isso não posso subir às árvores. Além do mais tenho tonturas. Que suba o outro cão.” O outro cão pisteiro: “Essa é boa. Queres passar as responsabilidades para cima de mim, sem sequer me consultares. Eu também não subo às árvores. Sou tão cão como tu, com os mesmos direitos e com os mesmos deveres. Quando me alistei no batalhão mirim foi como cão pisteiro e os cães, como muito bem referiste, não sobem às árvores. Quem sobe às árvores são os gatos.” De novo o batalhão parou.


Cena 14 (take 1). O José: “Voltaram a parar. Há-de chegar a noite e nós sem guerra. Estou de acordo contigo, está na hora de escolher outro inimigo. Este não presta. Só falam, cagam e mijam.”


Cena 15 (take 7). O capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro: “Começo a estar farto desta merda. Primeiro foi o burro, depois foi a sede, depois foi a fome, ainda há pouco tempo parámos para o Peidolas ir cagar e agora são os cães que descobrem que os cães não sobem às árvores. Começo a estar farto desta merda. Se os cães não subirem às árvores desisto da guerra e a vergonha desabará por cima de nós como um manto negro da cobardia.” “Não, isso não pode acontecer”, gritaram irritados os soldados mirins. “Dá-lhes com a vergasta de salgueiro no cu que eles logo arrebitam. Até sobem pelas paredes acima.” O capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro com um sorriso de escárnio nos lábios: “ O pelotão está comigo? Está mesmo? Acha o valoroso pelotão, que eu tenho a subida honra de comandar, que devo arrear com o meu pinguelim no rabo destes cães cobardes?” “Sim, sim, sim”, gritou o pelotão a uma só voz. “Então que assim seja. Agarrai-mos que eu logo lhes quebro a cobardia.” “A ver se te atreves”, desafiou o primeiro cão pisteiro. “A ver se te atreves”, desafiou o segundo cão pisteiro. “Ai atrevo, atrevo”, ameaçou vibrando o pinguelim o chefe mirim. Vendo que a razão da força pendia claramente para o lado do líder, os cães decidiram-se a subir às árvores.


Cena 16 (take 4). O pelotão mirim avança determinado na direção do inimigo. Nota-se ainda uma ligeira hesitação nos cães, que guincham baixinho impropérios. O chefe chega-lhes a roupa ao pelo.


Cena 17 (take 2). O Graça eufórico: “Agora é mesmo para valer” e lança um berro que põe os pássaros empoleirados nas árvores a voar sem direção definida.


Cena 18 (take 2). Os cães pisteiros caem num fosso e começam a chorar.


Cena 19 (take 10). Quatro troncos, vindos sabe-se lá bem de aonde, presos por fortes cordas de sisal, deitam por terra todos os soldados mirins e também todas as esperanças numa vitória.


Cena 20 (take 1). O José eufórico: “Agora é mesmo para valer. A vitória é nossa.” E lança três berros que arrepiam os soldados caídos e os põe em debandada geral.


Cena 21 (take 1). O capitão escoteiro, caído por terra, já sem chapéu colonial, sem monóculo e sem pinguelim de varinha de salgueiro, chora de raiva. O Graça abre-lhe a carcela das calças e sentencia com uma risada demoníaca: “Vamos fazer-lhe uma barrela para aprender.” O José: “Não o humilhes tanto.” O Graça: “Como chefe de brigada, condeno este imbecil a sofrer a suprema desonra de uma barrela. E, pondo-lhe a piroca à mostra, cospe-llhe. O mesmo faz o José. Depois deitam-lhe em cima várias mãos cheias de terra e esfregam até doer. E, desta forma humilhante para o capitão mirim, os heróis do momento dão por finalizada a guerra. 



publicado por João Madureira às 07:00
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