Segunda-feira, 3 de Setembro de 2012

Três pequeninas homenagens a Robert Walser [rep]


1 - O louco e a tartaruga

 

Na minha rua há um louco que não parece nada louco. Só que é louco. Mas não se pode assegurar qual é a sua loucura. Todos sabemos bem que ele é louco, mas ninguém sabe de ciência certa quando é que assim ficou. Para dizer a verdade, nós, os seus vizinhos, nem sequer sabemos bem quem ele é. Só sabemos que é louco. E é o próprio quem o declara quando se põe a gritar à janela do seu quarto, principalmente nas noites de Verão. Ele diz que é louco. E tem mesmo ar de louco e olhar de louco e andar de louco e fama de louco. Por isso é louco. Tem de ser louco. Se não fosse louco não dizia que era louco nem se comportava como tal. Sai todos os dias para o trabalho vestido a rigor, transporta sempre uma pasta de cabedal e pela trela leva uma tartaruga das grandes. Sai pela madrugada de casa. Não é que comece a trabalhar cedo, nem o seu local de trabalho diste muito da sua residência. O que lhe leva muito tempo é a viagem com a tartaruga. Mas ele não se desfaz dela, nem a puxa com força, nem lhe ralha e muito menos lhe bate. Muito pelo contrário, tem-lhe muito carinho e dedica-lhe uma atenção deveras especial. A tartaruga também lho retribui. Não faz barulho nenhum, não morde as pessoas, não cheira mal, não protesta, nem lhe dá muito trabalho. Mas, ao contrário do seu dono, a tartaruga é normal. Não ostenta o ar esgazeado do seu proprietário. Revela, até, uma aparência muito natural. Parece mesmo aquilo que é: uma tartaruga comum. É tão normal que passa dias inteiros a ver televisão. Mas televisão generalista. As outras assustam-na com os programas científicos, ou culturais, ou informativos. Ela adora telenovelas e filmes de ação. Também não desdenha de se entreter a ver jogos de futebol, especialmente os do campeonato português. Os dos outros fazem-lhe prejuízo. Um dia o louco, porque detesta futebol, especialmente o nosso, tentou, por três vezes, mostrar-lhe jogos do futebol inglês, só que a pobre criatura marinha ficou tão agitada com a diferença de movimento que tentou subir para as costas do patrão e, no intento, desequilibrou-se, caiu e ficou de pernas para o ar, o que, na sua espécie, significa morte certa, dado que as tartarugas não se conseguem virar, morrendo por isso à fome e à sede. Tão amedrontada ficou que agora só vê televisão no seu quarto e não permite que nessas alturas o louco se aproxime do aparelho. Para gáudio do celerado, o bicho aprendeu a cantar modas alentejanas e, nas noites de Primavera, quando as macieiras se enchem de flores, entoa aqueles cantares lentos e monocórdicos com muito sentido e oportunidade. Por isso é o animal do louco um bicho de estimação muito considerado na vizinhança e querido pelas crianças e velhinhos do bairro. Um grupo de senhoras muito devotas e dadas às coisas da igreja está mesmo a pensar apresentar queixa à sociedade protetora dos animais com a intenção de a libertar do louco e levá-la para uma instituição de caridade, considerando mesmo a hipótese de a integrar no coro que canta nas missas, pois, na sua opinião avalizada, quem canta canções alentejanas com tanta propriedade, melhor entoará lindas canções de júbilo cristão.

 

2 - Para o infinito e mais além


Foi ao amanhecer que o meu pintassilgo morreu. Estava velho, deprimido e exausto. Mas foi a pressa quem o matou. Faleceu mesmo à beira da liberdade. Durante a noite alguém se esqueceu de fechar a portinhola da gaiola. Ele então saiu do cárcere e esperou pacientemente pelo nascer do dia na esperança de que alguém lhe abrisse a porta da cozinha para assim conquistar a brisa e voar rumo ao céu azul e infinito. No preciso momento em que a avó Matilde abriu a porta, a inocente ave, obcecada com a perspetiva do desenlace, distraiu-se e foi então quando o gato da vizinha, que é muito lambareiro e oportunista, o abocanhou e imediatamente se pôs em fuga, desaparecendo no labirinto das ruas do bairro. Nada pudemos fazer. Só lamentar o sucedido.

 

3 - Reflexões de um cão ou do seu dono

 

Sim, hoje vou passeá-lo. É que está já um pouco obeso. Por isso tenho de o levar a dar uma volta. Mas não posso puxar muito por ele, pois já tem alguma idade e pode sentir-se mal. Tem que fazer algum exercício, mas com regra. Também sofre de asma e o seu coração já revela alguns problemas. É gordura a mais e exercício a menos. Tenho de vos confessar que ele gosta pouco de sair, prefere ver televisão ou ficar deitado no sofá a dormir. Só o faz porque eu o forço a isso. Ou melhor, porque me ponho inquieto. E quando estou inquieto ele também fica. E depois põe-se a andar de um lado para o outro como se tivesse muita vontade de urinar. Ele já não urina como urinava. Agora custa-lhe mais. Também já respira com alguma dificuldade. E tem gases. A velhice é complicada. Mas, no fundo, nós toleramo-nos, compreendemo-nos e conseguimos viver juntos sem grandes dramas. Conhecemos os defeitos e as qualidades de cada um. Sobretudo fazemos companhia um ao outro. Ele sente-se muito sozinho. E eu também. Somos uns solitários. Ele ressona e agita-se muito durante o sono. Ele não sonha, sofre. É tudo muito complicado. Temos uma vida simples mas uma memória sofrida. Por vezes os vizinhos queixam-se dos uivos durante a noite, ou dos roncos, ou dos gritos, ou dos gemidos. Nós também temos queixas dos nossos vizinhos mas preferimos ficar calados. Tudo nos envolve. Ou, dito de outro modo, deixamo-nos envolver por tudo. Somos muito senhores do nosso nariz, mas custa-nos muito adormecer nas noites de verão. E também nos custa dormir nas noites frias de inverno. É tudo uma aflição. Ou nos incomoda o calor, ou nos apoquenta o frio. Os nossos desejos são muito inconstantes. Se está frio suspiramos pelo calor. Se está calor pensamos com agrado no frio de inverno. Se está sol desejamos a chuva. E se está a chover clamamos por dias secos e solarengos. Se estamos em casa queremos sair. Se andamos a passear desejamos regressar rapidamente à preguiça do sofá. Ainda agora mesmo saímos de casa para o passeio da tarde e já estamos a pensar em regressar. Pesam-nos muito os membros. E o rabo. E a barriga. Pesa-nos também muito a letargia.


publicado por João Madureira às 07:00
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