Quarta-feira, 5 de Setembro de 2012

O Poema Infinito (110): fotografando a loucura

 

Enquanto fotografo a tua respiração em braçadas alusivas de luz respiro a escrita imóvel da delicadeza num discurso firme de brancos graves. Esse é o discurso mortal da vertigem e do eterno odor da caligrafia que escaldava as nossas mãos de crianças temerárias e inocentes. Presentemente a escrita afoga-se à velocidade das imagens lentas da crueldade humana. Por isso é que a idade é agora uma sintaxe feroz. Por isso é que o álcool já nos arde nos olhos e nos dilacera as mãos e a memória e o desejo. O pensamento é um buraco negro repleto de energia cósmica que nos encharca a cabeça de recordações. E eu fotografo o momento e o teu ar atormentado que repousa nele como uma ave cansada dos voos sucessivos dos dias. Toda a doçura é costurada pela ameaça da morte. E as noites injetam furos na memória e a memória semeia vírgulas no discurso e o discurso imprime fotografias que são cabeças quietas pela sede do desejo. E o desejo transforma-se numa paisagem lunar. E os princípios são ainda discursos de granito. E pesam. E condicionam. E limitam. Mas essa é a sua lei natural. E por isso as palavras fervem-nos na boca, na sua obstinada luminescência de estrelas. A manhã nasce já na sua obstinada geometria arrefecida. É uma manhã de sopro azul resplandecente de vazio e vagar, pousada na sua propensão para a levitação. O diminuto tempo da infância assalta-nos na sua definitiva ausência. E por isso ainda morremos mais um pouco. E ainda um pouquinho mais enquanto choramos lágrimas pequeninas como orvalho. Esperamos sentados pela convulsa energia do desaparecimento. Presto novamente atenção ao teu olhar que é uma clareira de energia matinal. Presto atenção aos teus olhos vivos de verde luminescente na sua textura relampejante. A fotografia que deles tiro incendeia o sensor. As figuras estabelecem-se nos seus pontos rutilantes. E fixam o odor, a lentidão tremenda das fragrâncias. O espírito apreende agora o labor da luz. Deus é agora uma fotografia a preto e branco, fixada pelos seus filtros de cor: tom turquesa, laranja, amarelo e vermelho. Os sons sobem pelos nossos corpos como água fresca. A casa alarga-se. A casa alaga-se. A casa desaparece na sua fixa inutilidade. À medida que envelhecemos cresce dentro de nós uma renovada iluminação. Uma iluminação de vozes perpétuas. Por isso é que atualmente as flores passeiam em redor dos caminhos abandonados. Por isso é que as minhas fotografias fixam as paisagens delirantes e as árvores presas às pessoas e as pessoas presas umas às outras como cogumelos coerentes e belos. E quanto mais belos mais coerentes e venenosos. Quando são pixeladas, as pessoas ganham auréolas divinas e começam a respirar pelos diminutos buracos do sensor. E começam a ficar com a pele transparente e começam a respirar luz. E enlouquecem. E depois espalham pelo espaço circundante sons apaixonados e emitem vozes longas e desaguam no azul infinito e ardem no éter. E transformam-se em paredões de luz e fervem e celebram a morte no seu áspero enlevo de caducidade. 


publicado por João Madureira às 07:00
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