Sexta-feira, 7 de Setembro de 2012

O Homem Sem Memória - 74 [rep]


74 – Se havia uma coisa que caracterizava as férias grandes estudantis em território nacional é que elas eram mesmo grandes. Mas grandes mesmo. Eram noventa dias de lazer e brincadeira que a maioria dos estudantes preenchia como sabia e podia. No Verão do seu contentamento, o José gozou que se fartou. Entre as campanhas territoriais e os fins-de-semana alucinantes vividos à beira rio, existiram ainda várias e distintas incursões semanais em aldeias da vizinhança. Uma delas foi em Outeiro Raso, na casa de um amigo da família, o Carlos Trolaró.


O Carlos tinha os pais e a irmã em França, mas fazia que estudava em Névoa. Era um no meio de centenas de estudantes em idênticas condições. Passava o ano letivo na cidade entretido a passear os livros. No Verão rumava caras Outeiro Raso para aí desfrutar de uma vida regalada e independente.


Com a família longe, entretinha-se a vadiar pelos campos fora e a habitar solitário a sua casa, tipo maison, que os pais tinham construído na croa do povo, já um pouco afastada do núcleo antigo de casebres que ainda davam alma ao lugar. Podia optar por residir em casa dos avós, mas o Carlos preferia viver só que mal acompanhado. Os avós eram uns chatos, uns velhos ranhetas que lhe punham a vida num inferno. E o contrário também era verdadeiro. Ou ainda mais verdadeiro do que a primeira premissa.


O Carlos Trolaró tinha um sonho que se subdividia em dois: queria ser guarda-redes de futebol ou cantor romântico à boa maneira do seu ídolo Adamo. Explicava que não se importava mesmo nada em acumular as duas funções. “C´est la vie, mon pote.”


Carlos convidou o José para lhe fazer companhia na sua grande maison e também para desempenhar o distinto cargo de treinador. Por isso os dias passaram a ser preenchidos com uma rotina exercida a tempo e horas. Acordavam a meio da manhã, tomavam um pequeno-almoço de pão com manteiga e leite frio, dirigiam-se ao campo de futebol, arrimado no cocuruto de um monte aplainado, e aí treinavam até se esgotarem. Pelo menos o Carlos esgotava-se com todas as forças que possuía, pois saía do campo a pingar suor. O outeirense era um guarda-redes esforçado, lá isso era, mas era ainda muito mais um piteiro dos grandalhões. Perguntava insistentemente ao amigo, e treinador ocasional, se eram visíveis melhorias no seu desempenho. O José dizia que sim. O Carlos então insistia para que lhe despachasse uns remates mais difíceis, mais encostados aos postes, ou à trave da baliza. E o José, para não contrariar o amigo, assim procedia. Mas as coisas teimavam em acontecer como não deviam, pois a cada remate do José a bola insistia em entrar sempre na baliza à guarda do seu guarda-redes. Então o Carlos exasperava-se e culpava o amigo de não ser um bom treinador e muito menos seu amigo. Era entre suor, ranho e rancor que terminavam todas as manhãs de treino.


À vinda, passavam no comércio do senhor Zé Crispim onde o guarda-redes outeirense tinha, por indicação expressa dos pais, conta aberta. Aí compravam cervejas, sumóis, manteiga, pão, sardinhas, atum de conserva e várias latas de salsichas Izidoro.


Ao almoço e ao jantar comiam invariavelmente batatas fritas, salsichas e ovos estrelados, que era o único prato que sabiam confecionar. Ainda tentaram manjar as sardinhas e o atum em lata, mas aquilo soube-lhes tão mal que o deitaram às galinhas. Mas até esses bichos, que não são nada esquisitos quanto à sua alimentação, rejeitaram a oferta com uma determinação que os fez rir durante algum tempo. Após o almoço dormiam a sesta. Mais à tardinha davam longos passeios pelos montes armados com a pressão de ar do Carlos. Abatiam indiscriminadamente, à chumbada, distinto passaredo, que penduravam à cintura como os caçadores adultos. Chegados a casa, serviam os troféus de caça ao gato que começou a engordar a olhos vistos.


À noite é que eram elas. O Carlos andava apaixonado pela filha da dona da Serração da aldeia. E o Carlos apaixonado era um caso sério. Vestia-se a rigor, com camisa branca de colarinhos colossais, calças pretas de tirilene à boca-de-sino, meias brancas, sapatos escuros de ponta fina, cordão graúdo de ouro ao pescoço, pulseira do mesmo feitio e material, relógio luzidio e cabelo empoupado com brilhantina. Além disso encharcava-se em perfume que tinha a rara qualidade de atrair toda mosquitada das redondezas. E, depois de empunhar a sua guitarra de cordas de plástico comprada em Feces, punha-se a tange-la como se fosse o vivo demónio em figura de músico de rock. Escusado será dizer que o Carlos não conseguia afinar o instrumento e muito menos tirar dele uma única nota ou acorde que estivesse com as mais elementares regras e leis da música. Podemos mesmo afirmar que ele tinha ainda menos jeito para a música do que para o futebol. Mas nenhum desses equívocos o demovia das suas serenatas quotidianas.


Postados na varanda de casa de onde se avistava a janela iluminada do quarto da moradia da amada do Carlos, o José alumiava a figura garbosa do Carlos com um feixe de luz produzido por uma lanterna de pilhas. Nessa ocasião, o Adamo de Outeiro Raso começava a fustigar as cordas da viola e a entoar suspeitos versos das cantigas do seu ídolo numa imitação mais que duvidosa de francês que alcançava unir na mesma conjuntura, e num coro imenso, a ululação solidária de todos os cães da aldeia, um que outro uivo que bem podia ser de lobo, ou mesmo o regougar de vários raposos ou raposas, pois para o efeito tanto vale. E o Carlos cantava a primeira a segunda e a terceira canções com a mesma coragem e denodo com que deixava entrar a bola na baliza que supostamente defendia. Fazia mesmo vários encores por noite. Só desistia quando ficava rouco ou se finava a amarela luz do foco. 


Deitava-se sempre exausto, mas só adormecia depois de realçar a beleza da sua amada, que por acaso era muito pouco prendada (mas quem feio ama bonito lhe parece), e depois de lhe enaltecer as virtudes e de insistir com o José para lhe confessar, debaixo de juramento, se via alguma virtude nas esforçadas serenatas. O José, depois de jurar por tudo quanto era sagrado que dizia a verdade e só a verdade e mais nada do que verdade, confirmava todas as ilusões do amigo, dado que os amigos são para as ocasiões, pois era fiel ao provérbio de cariz popular: quem muito jura muito mente.

 


publicado por João Madureira às 07:00
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1 comentário:
De Helena Branco a 7 de Setembro de 2012 às 09:45
ora aqui está saudoso o modus vivendi dos anos sessenta
e se se tenta a memória ela produz a história aqui contada com os rigores linguísticos da época vestidos
a preceito condizente. Já fervilhava o futebol nas mentes
ainda moles, juvenescentes e ADAMO servia as "serenatas " românticas de qualquer rapaz a botar barba.
Sempre a dúvida e o amigo sacrificado a dizer amén . Sou do tempo e gostei de revisitá-lo.


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