Segunda-feira, 10 de Setembro de 2012

Pérolas e diamantes (2): Em defesa da minha imagem


Já várias e distintas pessoas me perguntaram por que razão é que eu escrevo, dado que a escrita não me dá pão nem consolação. Eu respondo-lhes sempre com uma frase de Chesterton: “Escrevo, porque é preciso.” É esta a minha íntima filosofia.

 

Depois desta outras perguntas se lhe seguem, as quais evito escutar para não ser forçado à grosseria de mentir ou não responder. Perante a adversidade prefiro pensar que não há mal que sempre dure.

 

Hoje de manhã tive o impulso de um homem banal, e sinceramente tolo, pois deu-me para vestir fato e gravata, compondo com esmero a gola do casaco, de modo a que ela não destoasse da linha com que foi talhado e engomado. E saí à rua cheio de frivolidade, imbuído do espírito sublime de me manter direito entre os aprumados colarinhos da minha camisa e em equilíbrio dinâmico com o nó da minha gravata.

 

Mas rápido voltei para casa, pois senti-me deveras incomodado. O meu exercício de hipocrisia fez-me sentir estúpido. Definitivamente vesti as minhas calças de ganga e o meu polo azul e disse para a minha imagem fixa no espelho: “Eu sou o que sou.”

 

Depois ri-me baixinho. E perguntei à minha imagem parada no espelho: “É possível enganar o mundo?” Ao que ela respondeu: “É. Mas não te esqueças que a consciência do justo não é perturbada.” “E a culpa. Onde fica a culpa do passado?”, perguntei atrapalhado. Ao que a minha imagem parada no espelho respondeu: “A consciência do justo espera sempre.” “Deus do céu, pareces um evangelista!”, retorqui. A minha imagem riu-se muito.

 

“Mau Maria”, pensei eu. Tenho de admitir que hoje não acerto com nada nem coisa nenhuma. Mas mal remediado mal passado. Sobre o passado é melhor dar um ponto na boca. Com águas passadas não mói o moinho. Ou…

 

“Mau Maria”, voltei a pensar. Não consigo acertar com a minha imagem.  

 

Fui para o monte tirar fotografias. Mas acabei a apanhar flores. Flores silvestres. E deslumbrei-me com a sua condição. Elas para ali a nascerem, entre giestais e silvados. Pensei nas que são colhidas nos jardins, com muito esmero e carinho para serem centros de mesa ou adornos de lapela. Vieram-me à memória os versos de Ungareti: “Entre uma flor colhida e outra dada, o inexprimível nada.”

 

E a minha imagem, agora refletida no espelho da viatura, a azucrinar-me o espírito: “Menos política e mais romance. Concentra-te.” Entusiasmado meti-me no carro, rodei a chave da ignição e carreguei no acelerador, mas não mais do que o necessário para não voltar a ser multado por excesso de velocidade. E ri-me para a minha imagem no espelho. Quem não me conhecesse a mim e ao meu ar sisudo pensaria que era tolo.

 

A imagem disse-me assustada: “A pequenez das atitudes e dos valores de algumas pessoas está na razão inversa da grandeza das suas palavras.” Apeteceu-me partir o espelho, mas optei por orientá-lo de forma a que não fosse possível rever-me.

 

Depois pensei no estilo, no estilo da escrita, no estilo do discurso, no estilo da roupa e no estilo de estar sentado a uma mesa. E a imagem voltou a atormentar-me. Desta vez vi-me refletido no vidro da porta do carro. E a minha cínica imagem a incomodar-me, qual grilo falante: “O estilo é uma bonita forma de encobrir certos pensamentos.”

 

Hoje a minha consciência tornou-se arreliadora: “Faz honra ao teu caráter de transmontano. Um homem sério tem obrigação de ser franco e verdadeiro. Deixa-te de trampolinices. Por mais que queiras, não consegues ser artificial. Deixa-os. Tu não consegues servir-te das palavras para esconderes os pensamentos.”

 

E a minha imagem no retrovisor a rir-se desalmadamente: “Já que colheram as flores, deixa-os que colham também os espinhos. Bem o merecem. E eles cheiram tão bem!”

 

Eu disse: “A questão é toda moral.” Ao que a minha imagem trocista respondeu: “Então que a resolvam os moralistas.” De novo olhei para a estrada e fixei-me no risco contínuo.

 

Sim, a ficção acabou. Afinal não há heróis, nem heroínas. Em toda a parte se come, conversa-se, passeia-se, dorme-se da maneira mais trivial possível, dizem-se meias verdades, engana-se a razão, destroem-se os sonhos na proporção inversa dos sorrisos. Dos falsos sorrisos de ocasião. Os episódios poetizados de batalhas e desafios brilhantes não são possíveis.

 

E eu para a minha imagem: “Então, e a moral? E a diferença?” E a minha arreliadora imagem: “Se queres que te diga que existem, eu digo-te que sim para ser simpática. Mas em abono da verdade lembro-te Camilo Castelo Branco: «Dantes a imoralidade era a retalho, hoje é por atacado.» Ou se preferires cito-te La Fontaine: «O ridículo precisa de ser morto pelo ridículo.» E eles, todos eles, são tão ridículos. Deixa-os. Que se consumam. Que se queimem no seu próprio fogo.”

 

E eu para ela (para a minha imagem, claro): “Deslarga-me. Deixa-me em paz.”

 

E ela: “Não te armes em cândido.” E voltou ao Camilo: “A candura tem os seus pedantismos, assim como os pedantes, às vezes, têm canduras irrisórias. São os extremos que se tocam.”

 

E eu: “Deixa-os tocar-se. Merecem-se. É tudo vinho da mesma pipa.”

 

E então a minha imagem desapareceu por entre luz e a escuridão. Nos lados da estrada, as árvores apareciam e desapareciam como fotogramas de um filme francês. Voltei para casa em paz e sossego.

 

PS – Já em casa, no remanso do lar (maumaria), estava eu a lavar os dentes após o jantar, quando me virei para o meu espelho e lhe perguntei: “Espelho, espelho meu, há alguém mais medíocre do que eu?” O meu espelho partiu-se… a rir. E isto é mau agoiro. 


publicado por João Madureira às 07:00
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