Quarta-feira, 12 de Setembro de 2012

O Poema Infinito (111): da geometria das borboletas


Eis-me nu ao desaguar. Num rasgo melancólico, atravesso a sabedoria como se fosse o último animal mitológico da cidade. Os dedos abandonam a tua profunda ausência. O teu rosto é agora uma batalha. Os dias são pequenas manchas na memória. O teu corpo jaz numa fotografia austera. Já pouco me lembro de mim. Apenas consigo monologar com o medo que é uma visão permanente do fulcro das noites insones. Penso em partir de novo e esquecer tudo: as asas da tua boca, a paixão dos teus olhos, a certeza da morte. Mas acordo de novo e de novo adormeço. Já não sei se sonho ou se vivo. Sei que durmo neste corpo calmo à espera da catástrofe. Por breves momentos largo a tristeza. A cidade cresce dentro do abandono. Agora a alba apenas traz indiferença. Até as aves desaparecem dos meus olhos mesmo durante o seu voo. Os espaços crescem pendurados em árvores que enferrujam na névoa. O tempo é outono ou inverno. As nuvens escondem-se no céu e nele tatuam a saudade eterna do azul e do seu desespero. Relâmpagos acendem o medo que se esconde no ato de viver sem paixão. Outro é o ar que nos estremece. Tu nomeias o mundo. Eu desarrumo-o. Eu desordeno-o. Eu enlouqueço. A escrita é agora uma proximidade de espelhos que se constrói com os gestos exatos da criação. As persianas do quarto transformam-se em fogo-fátuo. E o chão é agora outro mar. E outras árvores protegem-nos os corpos e simulam o sonho da vida. Os meus olhos têm agora a dor salgada do mar. E o mar enche de marés o meu quarto. E a tua voz regressa. E o teu sorriso volta a acariciar-me os olhos. Renasço. O teu rosto já não tem sombras. E o teu corpo atravessou apressado a longa noite do pesadelo. Uma ave de fogo entra pela janela onde me debruço. A memória fica agora impregnada com a loucura perfumada das violetas. A madrugada persente a alegria dos ninhos de aves com asas de libélulas. Tenho uma epifania dourada pelo teu sonho. O tempo volta a circular pelos teus dedos. As tuas mãos esboçam movimentos esquecidos. Uma poalha estelar pousa suavemente sobre a nossa cama. Nela navegam agora barcos cheios de palavras doces. Enchemos as nossas bocas de segredos. A alba fustiga as velas pandas. Nos vidros das janelas gotas de chuva fazem pequenos trajetos. Esta água já não nos magoa o corpo. Um silêncio longínquo invade-nos os ouvidos. A manhã chega encostada às vidraças. Os teus lábios ficam húmidos. Os nossos corpos teimam em não se vergar e por isso são atravessados pelo pulsar denso das estrelas. As nossas mãos ficam transparentes. E os nossos rostos ficam nítidos desenhados pela pureza geométrica das borboletas. 


publicado por João Madureira às 07:00
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