Quarta-feira, 19 de Setembro de 2012

O Poema Infinito (112): renascimento

 

Uma ave de ouro sobrevoa os altíssimos altares bíblicos e entra de repente nos meus olhos. E os meus olhos entram nos teus. E assim se protegem da escuridão do desalento. Saem do fogo figuras de escrita que ascendem com o fumo. O meu corpo tem agora os sintomas inexpressivos do amor. A febre da demência e do conhecimento sopra de novo sobre a carne dos animais sacrificados, sobre o rebordo inflamado das vozes, sobre o tecido perseverante das metáforas, sobre as vocalizações da dor e do arrependimento. Um gládio de raios laser separa definitivamente o céu da terra. E a boca dos humanos transforma-se num vulcão que expele gritos primitivos, como se a Terra arremessasse por aí a sua lava criativa. Afinal Deus está morto e jaz amortalhado nos seus textos bíblicos. Sentado à beira de um riacho, o seu filho reza um poema do génesis e lamenta a sua infertilidade. Nem mulher a quem amar, nem filhos a quem criar, nem inimigos a quem odiar. Afinal, para que lhe serve a redenção e a sua humanidade divina? Todas as gerações antigas descem agora da Arca de Noé. E Noé chora porque vê Cristo chorar e sabe que dentro do palácio celestial Deus jaz morto e arrefece porque quis deixar de sofrer com o sofrimento dos seus filhos. A Cristo pesam-lhe os pecados e os milagres e as orações e os constantes pedidos de redenção e as súplicas monocórdicas e a cintilação da solidão dos abandonados e os caminhos desertos e a geografia eterna das doenças e a cintilação agreste dos gritos dos logocratas e os projetos esboçados pelos poderosos e as multidões de indignados e a velhice eterna da esperança e as trémulas lágrimas das crianças e os equívocos da condição humana e a sua agressiva falta de sentido e os gestos esforçados dos idosos e os pretextos equívocos dos redentores e os gritos da austeridade da vida real e o seus números agressivos e o simbolismo doloroso da cruz e as translações metálicas dos anjos e as inflexões luxuriosas dos demónios e a palavra “ordem” e a palavra “oráculo” e a palavra “exclusão”. Cristo faz explodir os templos porque se transformaram em casas de apostas. Cristo não chora a morte do seu pai, o filho de Deus chora a inflexão estúpida dos cânones, as mentiras alquímicas dos que ainda se dizem seus seguidores. Cristo lê agora a história curta da vida de cada homem impressa na sua alma. E desenha ao seu redor um templo construído com concavidades perfeitas de alegria de onde nasce incessantemente a razão pura das coisas. E sorri. E canta. E dança. E regressa de novo pródigo ao encontro dos infelizes, às zonas infetadas pela moral vigente, pela ambição, pelo desalento. E joga e abençoa os poetas e consola os desiludidos e transforma todas as palavras em estrelas e origina convulsões de beleza e faz lindos pães cintilantes e multiplica os livros e fecha as cidades ao trânsito e inunda de aldeias as metrópoles e enche de prazer as ruas abandonadas e faz dos falsos profetas estátuas de sal e ilumina as casas com poemas chineses e recompõe a verdade e redime a mentira e comove os exércitos e faz dos generais índices de enciclopédias e ilumina todas as noites com clarões de silêncio e luz subatómica. E liberta o Édipo do seu intricado complexo, as máquinas das suas engrenagens e a Cruz do seu simbólico castigo. Cristo repõe a vida no seu devido lugar, permitindo-lhe o seu sentido utópico. A utopia deixará, definitivamente, de ser utópica. O filho de Deus intenta outra vez a sua corrida final: o recomeço. E grita: Deus já pode descansar em paz. Que a eternidade lhe seja leve. 


publicado por João Madureira às 07:00
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