Quarta-feira, 26 de Setembro de 2012

O Poema Infinito (113): o tempo e as palavras


Alisou-se o tempo na superfície da sua antiguidade. E as palavras aparecem dourando as frases com uma luz que se ajusta ao friso lento do desassossego. O tempo resplandece de novo no teu olhar. E o teu olhar é a condição de todas as imagens significativas. O tempo refunda o tempo na ordem rigorosa dos conceitos. E as palavras estremecem e assustam-se com a sua acústica. O tempo refunda a condição na ordem prodigiosa dos acontecimentos. E o mundo velho cai vítima da sua inteligência intuitiva. Instala-se a paz na terra e o seu ímpeto pulsa cada vez mais longe. A imensidão da saudade torna-se absoluta. E o amor incrementa-se com a distância. E a distância irradia invisibilidade. E a invisibilidade transforma-se na raiz das coisas. E as imagens gemem. Por isso o sofrimento é visível na tua face. Todos sofremos com a doce visão do envelhecimento. Voltam as palavras com o seu ritmo nítido, envoltas no seu enigma intemporal. E empolgam-se. E irrompem na sua extensão de dor e de júbilo. E prolongam-se gradualmente dentro da sua expansão silenciosa. E cumprem com a sua abstrata sabedoria do sofrimento. E desnudam-se por entre as vírgulas. E deslumbram-se com o espanto dos poetas. Por isso a inteligência humana é simbólica. Da neve eterna da saudade alguém extrai o azul com sabor a céu. E um oceano de palavras espelha-se na folha nervosa da planície. E a terra espelha-se nas folhas verdes das bétulas. E as encostas vertem vinho e o seu júbilo de festa e trabalho. O tempo abre a sua transparência antiga de fogo e alheamento. O desconforto de viver é elevado a uma nova categoria. Por isso as palavras prendem-nos num espaço cada vez mais dilatado. Nuvens de palavras rebentam nos céus fazendo diluviar uma miríade de frases escritas com flocos de neve. Esqueço-me de reter o seu sentido. Ao longe a cidade vai subindo impulsionada pela luz perentória dos fundamentos bíblicos. E o vento sopra arrepios de um frio invisível. As palavras transformam o tempo em solidão. Uma claridade antiga encontra o seu próprio esquecimento. Na terra mais antiga, o sábio semeia palavras eternas. Alguém propaga o seu prudente silêncio. E o silêncio oculta a face no júbilo ordenado da compreensão. O silêncio avoluma-se organizando o pensamento. As palavras encontram o seu sentido espiritual. Olho-te com o tensíssimo olhar do amor. De ti nasce a energia das palavras com que escrevo. Eu escrevo o tempo no tempo. No meu tempo. No teu tempo. No tempo infinito. No tempo infinito das palavras. No tempo infinito da nossa finita vida. Na impetuosa incandescência das palavras transitórias. Na prodigiosa razão da sua infinita combinação. 


publicado por João Madureira às 07:00
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