Segunda-feira, 1 de Outubro de 2012

Pérolas e diamantes (5): os tratadores de negócios

 

Não ando longe da verdade se escrever que a democracia no nosso país é cada vez mais um embuste. Por isso a mentira anda por aí espalhada aos quatro ventos travestida de verdade. E uma das curiosas provas da disseminação da mentira é a sua pouca utilização nos discursos políticos.

 

Entendamo-nos: todos evitam o vocábulo, mas são apaixonados pela sua aceção. Todos mentem, mas dizem que expressam apenas a verdade.

 

Além disso, agora mente-se escondendo as palavras do seu verdadeiro sentido. Isto para que o povo não as sinta, mas antes as esqueça, dando à realidade uma outra face, a face da ilusão.

 

Os nossos queridos e estimados políticos empanturram-se com a eloquência dos discursos e com eles tentam esconder a verdade. São os malabaristas da ilusão tentando entreter o povo com os seus monólogos carregados de desilusão e de chantagem.

 

Vivemos uma crise económica, uma crise financeira e uma crise de valores. Já ninguém presta atenção à verdade. A demagogia com que se alcançou o poder já não resiste ao incumprimento das promessas eleitorais. Por isso o governo resolveu disfarçar a sua incompetência por detrás de uma nova semântica política e social.

 

De facto, agora o governo não despede as pessoas, antes pratica a racionalização dos recursos humanos do Estado; não corta salários, faz a desvalorização competitiva dos vencimentos; não defende o capitalismo, limita-se a sustentar a economia de mercado; não quer retirar aos trabalhadores o dinheiro da TSU para o dar de mão beijada aos patrões, antes pretende canalizar sete por cento dos salários dos colaboradores para o fundo de maneio dos empreendedores; não aumenta descaradamente os impostos diretos e indiretos, limita-se a fazer a consolidação fiscal do país; não provoca a tremenda recessão económica de Portugal, unicamente observa com tolerância o abrandamento da economia; não age no sentido de provocar a falência de milhares de empresas, limita-se a retificar a sua insustentabilidade financeira; não pede empréstimos à troika, trabalha simplesmente no sentido de nos resgatar financeiramente; na função pública, não despede professores, médicos e funcionários, antes aposta nos ativos humanos de que dispõe; não provoca a maior recessão de que há memória em democracia, apenas reconhece um ligeiro crescimento negativo; não defende a emigração dos jovens e promove o despedimento dos trabalhadores, somente vê com bons olhos a descontinuação da nossa população; não propõe e defende uma lei do trabalho que favorece os patrões, limita-se a permitir a flexibilização das leis do trabalho.

 

E o pior disto tudo é que num contexto de crise como o nosso, onde os políticos deviam ser essencialmente gente competente, saíram-nos na rifa um primeiro-ministro insensível, politicamente mal preparado e tecnicamente incompetente; um ministro de Estado rancoroso e academicamente falhado (Ó Relvas, por favor vai estudar! Será que não tens vergonha na cara?); um ministro das finanças obcecado única e exclusivamente por números; um ministro dos negócios estrangeiros astuta e estrategicamente ausente, acompanhados por mais meia dúzia de verbos de encher. Isto para não falar da nulidade que secretaria a cultura.

 

De há algum tempo a esta parte, a maneira de fazer política baseada apenas na persuasão das clientelas internas dos partidos, indiferenciando o país e ostracizando as verdadeiras lideranças afetivas, levou a que neste momento estejam no governo pessoas que não deviam aspirar a mais do que dirigir uma secretaria municipal, um escritório de gestão e contabilidade, ou administrar uma cantina escolar.

 

Um país liderado por este tipo de políticos torna-se numa nação desalentada, preguiçosa, medrosa e palradora. Ora, este tipo de atitude apenas faz aumentar ainda mais a possibilidade de quem lhes suceder ser ainda gente pior preparada. Por isso, uma remodelação ministerial é chover no molhado. É apenas mais do mesmo.

 

Todos os economistas competentes sabem que a ciência económica, não é, como defende Vítor Gaspar, uma questão apenas de números, mas é antes uma ciência social, pois depende da interação dos indivíduos. Não é pura matemática onde somamos A com B e obtemos C. Também não é uma ciência dogmática, mecânica e fria. Um mesmo problema económico pode ser encarado de diversas maneiras e ter soluções diferentes. Daí a necessidade de bons políticos e de técnicos competentes.

 

Quando os atributos políticos se conseguem agarrados ao telefone a tentar manobras pessoais, a pregar rasteiras aos adversários e a dominar os aparelhos partidários para adquirir um lugarzinho à mesa do poder, o que daí resulta é gente pura e simplesmente incapaz de perspetivar o futuro com isenção, independência e verdade.

 

Para não me acusarem de demagogo populista ou de sectário e abominável homem do punho fechado, lembro aos estimados leitores as palavras de Ferreira Leite aos jornais: “O que é que se passa no governo? Irresponsabilidade, insensibilidade social, cegueira ideológica ou pura incompetência política? Acho que é capaz de haver de tudo um pouco. A ideia que fica para os portugueses é que cumprimos tudo o que a troika nos exigiu e agora somos castigados.”

 

O arquiteto Siza Vieira afirmou há alguns dias, depois de ter sido mais uma vez laureado com mais um prestigiado prémio internacional, que tem a impressão de que foi instaurada uma nova ditadura em Portugal. Eu não me atrevo a tanto, mas sinto que vivemos num estado de exceção, onde a opinião pública não conta para quase nada.

 

António Guerreiro, no Expresso, defendeu que “a racionalidade governamental se passou a confundir inteiramente com uma racionalidade económica, eclipsando a política e introduzindo uma nova forma de violência que é cada vez mais patente.” Daí o “doa a quem doer”. E é lapidar na sua interpretação da situação politica atual: “O Estado deixou de ser a encarnação da soberania do povo para se tornar um sistema que segue a lógica dos negócios ou, até, trata deles. Os princípios democráticos são assim substituídos pelos princípios dos negócios em toda a vida política e social”.

 

Passos Coelho deve ter-se inspirado numa célebre frase de Frederico II, citada também por António Guerreiro: “Podem pensar tanto quanto quiserem e sobre tudo o que quiserem, mas obedeçam!”

 

Que Passos Coelho pensa assim, já não tenho dúvidas nenhumas. Tenho dúvidas é se o que pensam os “sofredores” – todo o povo português que se manifesta nas ruas, nas redes sociais, nos seus lugares de trabalho, nas filas às portas dos centros de emprego ou nas entradas das instituições de solidariedade social –, serve já de alguma coisa. Não sei se ainda vamos a tempo de evitar a hecatombe. 


publicado por João Madureira às 07:00
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