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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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24
Out12

O Poema Infinito (117): a desordem e o silêncio

João Madureira


O tempo persegue o frio e o frio inquieta o tempo. E os gelos eternos incendeiam-se fragmentando o olhar dos cetáceos. Cá em baixo o vento fustiga de pavor as árvores. Uma floresta de lírios foge do silêncio da sua cor incendiada. Trago comigo ainda alguns restos do dilúvio. Por isso a vida retoma o seu plano de lucidez. Alguém canta uma ária coletiva. Estende-se a arte nos seus trágicos determinismos. Toda a terra treme. E a raiva recompõe-se no seu tempo de mão solitária. Os heróis dançam dentro da sua razão alucinada. Os mártires rodopiam numa dança de morte e abandono. E ficam cegos dentro da sua razão. A própria boca feita de uma invenção total profere a sua idade hermética. E o tempo fratura-se e nega qualquer tipo de sentimento inquietante. Os verbos da transgressão expõem-se na sua mecânica elementar. Tu chegas-me dividida em metáforas. A vontade atrai a refutada técnica dos murmúrios. Eu deslizo na folhagem suspensa da teimosia. Volto ao meu árduo trabalho de secar palavras e elas reagem como crianças doidas. O teu sorriso é agora uma ambulância psicadélica. As nuvens procuram o seu desastre iminente. Lenços de palavras dispersas fazem vigílias sonâmbulas. E abrem panos e palcos onde tocam orquestras mínimas. Uma chama crepuscular baila e brilha nos teus olhos. O templo da ilusão alastra-se numa sonolência de exemplos. Jonas continua a arfar dentro da sua baleia perpétua. Alguém semeia sorrisos na alba. Um tiro fere o consolo dos pobres. E os ricos flutuam dentro das suas bolhas milionárias. Todos os espelhos se embaciam e estilhaçam por não conseguirem suportar a beleza elástica. Dizem novamente que as armas são perguntas mortais. Os cânticos de guerra sucumbem dentro da linguagem abstrata da história. Símbolos cabalísticos avançam na noite. A multidão entrincheirada vê passar animais suspensos e comboios carregados de símbolos. Todos os povos que habitam o vale estão em festa. E dilatam-se dentro do seu espaço poético. Os reis continuam a ter fome de joias. Eu olho o vulcão que se prepara para expelir vozes. O poder desaba em cima da mesa dos deuses da terra. Uma estrada de raízes trabalha as palavras incorruptíveis. Cavalos galopam dentro do seu espaço abrupto. O tempo lava-nos o cérebro. E as mães choram arrepios de guerra. Eu invisto nas palavras com toda a vertigem do silêncio. O vulcão expele luzes. Uma árvore inundada de palavras quentes uiva e destila poemas de pânico. Eu sento-me na pedra negra do trabalho e aguardo pela noite. Os meus dedos filtram a desordem e aguardam que apareças. As horas perecem umas a seguir às outras apontando o dedo acusador aos deuses da desilusão. Esta viagem não tem fim. Esta viagem não teve princípio por isso nos remete para a sua pulsão metafísica. Toda a paciência que colecionei se esvai como água correndo pela montanha abaixo. A vida refugia-se na sua essência de contradição. Os livros do cânone regressam ao seu silêncio de sempre. As bíblias metálicas desencadeiam um terramoto de orações dentro da catedral vazia. Cristo chora sobre a sua metáfora de Deus. O meu poema infinito metamorfoseia-se em corpo sonoro de um movimento perpétuo. Renuncio ao sistema linguístico. Calo-me aos gritos. 

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