Sexta-feira, 2 de Novembro de 2012

O Homem Sem Memória - 132


132 – O Aníbal “Goela Grande” era assim conhecido pelo simples facto de conseguir emborcar uma caneca de cerveja apenas de uma assentada. Quem espreitasse pelo vidro do recipiente bojudo podia observar a goela do Aníbal abrir-se e ficar da forma de um túnel do comboio enquanto engolia o líquido amarelado. Depois de engorgitar a cerveja dava sempre um arroto engraçado e de seguida fumava um cigarro. Pelo meio expelia sempre um peido com que pretendia alegrar o seu desempenho.


Era rapaz para beber cerveja como um bávaro e era até fisicamente parecido com eles, quase albino, vermelho de cara e barrigudo como uma burra prenha. Só não vestia calções porque infelizmente tinha pernas à Garrincha e também não usava suspensórios e chapéu a condizer porque eram adereços caros. Era também um homem de paz, o que num comunista parecia algo bizarro. Era, ainda, bom amigo, pachorrento e andava sempre bem-disposto e disponível para tudo, até para fazer a revolução, mesmo que a “puta da revolução revisionista”, como a classificava o Mário “Camões”, consistisse apenas em colar cartazes, pintar paredes e redigir comunicados que, bem vistas as coisas, ninguém lia, a não ser os próprios autores.


Enquanto o Graça e o José beberam dois finos cada, o Aníbal “Goela Grande” ingurgitou três canecas que acompanhou com dois pratos de marisco do Eusébio. Arrotou três vezes, deu três traques e fumou três cigarros. O pai do Aníbal, com um misto de ironia e verdade, disse que boa parte do que ganhava a vender cerveja, pratos de tremoços e amendoins era gasta para tapar o buraco da endémica sede do filho. Ele a ganhar dinheiro por um lado e o filho a bebê-lo e a mijá-lo por outro.


Depois de deixar o álcool produzir o seu efeito colateral, o Graça chegou ao que queria: convencer o José e o Aníbal a passarem o fim-de-semana ao serviço do Partido. O Aníbal sorriu e disse que talvez sim, já o José levou-se dos diabos. “Então agora não sou independente?”, perguntou. Ao que o Graça respondeu: “Isso é durante a semana e aqui em Névoa. O Partido necessita que os seus melhores quadros o sirvam a tempo inteiro. E tu és indispensável. Neste sábado temos de organizar um comício em Ribeira de Pena. Tu foste indicado para, em conjunto com os camaradas de Vila Real, decorares a sala e montares o sistema de som.” “Eu sozinho?” “Não, tu e o Aníbal.” “Mas o Aníbal só sabe beber canecas de cerveja.” “Olha que não. Também sou bom a beber finos e até a beberricar cerveja pela garrafa”, contrapôs o “Goela Grande”. “Não sejas reacionário”, avisou-o o Graça. “O Aníbal é um bom condutor e uma excelente companhia.” “É disso mesmo que estou a precisar, da companhia de uma esponja”, rematou o José.


O Aníbal riu-se. O Graça sorriu e o José amuou. “Não posso negar-me?”, perguntou o José. “Não convém. Com a ficha partidária que tens, o melhor é cumprires com as indicações do coletivo.”


Sábado de manhãzinha, o Aníbal foi buscar o José a casa e, numa velocidade hesitante, pois o Volkswagen do camarada Marcelino não dava para mais, puseram rodas a caminho. Chegaram a Ribeira de Pena por volta do meio-dia. Os camaradas de Vila Real ainda não tinham chegado. Gente importante faz-se sempre esperar. Foram até um bar e pediram de beber e de comer. Enquanto o José ingeriu dois finos e comeu um prego, o camarada Aníbal enfunilou três canecas e outros tantos pregos no pão. Arrotou três vezes e fumou três cigarros. No fim, um pouco mais a modinho, deu um terno de peidos. “Porco”, acusou-o o José. “Gases”, respondeu o Aníbal. “E com os gases não se brinca. Temos de lhes dar a liberdade que requerem. O meu médico disse que não os devemos reter. Faz muito mal à saúde.”


Eram cerca das três horas da tarde quando chegou a brigada de Vila Real. Quando olharam para o José nem o reconheceram. A sua toilete de independente era um disfarce com sucesso. O camarada mais graduado da brigada disse-lhe: “Pareces um verdadeiro independente.” Ao que o José respondeu: “É o que agora sou.”


Ainda antes de irem buscar as chaves da sala, o chefe da brigada de Vila Real propôs que fossem comer e beber qualquer coisa, pois os camaradas estavam quase em jejum. Tinham passado quase a noite toda a revolucionar a sua cidade, enchendo-a de cartazes e de palavras de ordem pintadas na parede.


O Aníbal aceitou de imediato. O José, a princípio, resolveu fazer-se esquerdo, desculpando-se que ele e o Aníbal já tinham comido e bebido que chegasse, mas depois alinhou.


Como se por acaso, o elemento feminino da brigada até tinha os seus encantos. Por isso havia algo em que pôr os olhos para ajudar a passar o tempo.


Estavam eles a terminar o segundo fino e o primeiro prego no pão com mostarda e já o Aníbal fumava o seu terceiro cigarro depois de ter engorgitado a sua terceira caneca, devorado o seu terceiro prego no pão lambuzado de ketchup e arrotado três vezes. E mesmo na frente da camarada, peidou-se de novo com muito à vontade e com um sorriso marxista de Grouxo nos lábios carnudos. A camarada, ligeiramente enjoada, pois parece que não estava habituada àquelas amplas liberdades, acusou-o: “Porco.” E ele respondeu-lhe como era seu timbre. “São gases, menina.” “Camarada, se não te importas, camarada”, disse ela com toda a sua autoridade comunista. “Então: são gases camarada menina. E eu tenho permissão do meu médico para os libertar seja onde for. Sofro de flatulência”, rematou o Aníbal.


Quando saíram do bar repararam que a vila estava deserta. O que não era normal. Mas não lhe atribuíram nenhum significado especial. Descarregaram os materiais do carro, transportaram-nos para dentro do recinto e puseram-se a trabalhar. Quando se preparavam para distribuir e colar os cartazes pelo salão repararam que não tinham trazido a fita-cola. O chefe da brigada de Vila Real pediu então ao Aníbal, que estava sentado numa cadeira a ver como os outros camaradas trabalhavam, para ir ver se arranjava fita adesiva. “Num sábado à tarde?”, perguntou perplexo. Olhando de novo para o camarada que quase dormia na cadeira, o camarada chefe mudou de ideias. “Acho melhor ideia ir o José. O camarada Aníbal tem um aspeto estranho. Pode criar antipatia. Já o José, com a sua indumentária de independente, é rapaz para cumprir a tarefa com sucesso.”


E lá foi o José calcorrear as ruas da localidade com toda a paciência revolucionária de que era capaz. Pediu nos cafés e nos bares, mas todos lhe disseram que não com maus modos. Reparou que logo após explicar que a fita-cola era para ajudar a arranjar a sala para o comício do Partido Comunista que se ia realizar à noite, as pessoas alteravam a expressão do seu rosto como se tivessem engolido fel. Voltou para ao pé dos camaradas de mãos vazias. Alguém lembrou que apenas lhes restava uma possibilidade, recorrer à farmácia de serviço na vila. E lá foi ele. Desta vez, apesar das ruas desertas e das portas e janelas fechadas, começou a escutar palavras de ódio aos comunistas. Como não encontrava ninguém a quem perguntar onde era a farmácia, dirigiu-se ao posto da GNR. Lá dentro apenas encontrou o plantão de serviço que a seu pedido o informou, mas fê-lo com maus modos. O José tentou amenizar a antipatia informando-o que o seu pai era também guarda-republicano. Ele resmungou: “E o que faz o filho de um GNR com os comunistas? E ainda por cima cabeludo. O teu pai não te educou? Não sabes que os comunistas odeiam os militares da GNR? Se fosses meu filho esganava-te.”


O José virou-lhe as costas e foi-se embora. Na farmácia perguntaram-lhe quem era e o que fazia ali. Ele respondeu com a verdade, que era comunista e que estava ali para decorar a sala onde à noite se ia realizar um comício do seu Partido. Os empregados disseram-lhe que apenas tinham um rolo e que não lho podiam dispensar pois precisavam dele para as suas necessidades. E invetivaram-no com afirmações de que os comunistas eram gente ruim que roubava as terras e as casas às pessoas. Ele saiu da farmácia furibundo. Cá fora, apesar de não avistar vivalma, ouvia cada vez mais vozes que lhe chamavam cabeludo, degenerado e maricas, que lhe diziam para se ir embora, ele mais os seus compinchas, pois se não iam a bem teriam de ir a mal. Que Ribeira de Pena era terra de gente séria, pacata e respeitadora dos bons costumes e da velha tradição, por isso não gostavam de comunistas, que eram gente daninha e traiçoeira, que eram contra a igreja e que matavam os padres e os velhos. Que retiravam os filhos às pessoas. “Ladrões, assassinos”, eram palavras cada vez mais audíveis nas vozes que vinham de dentro das casas. Ao José não lhe restou outra solução que não fosse ir para junto dos seus e avisá-los que o ambiente se estava a tornar perigoso. 


publicado por João Madureira às 07:45
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