Sexta-feira, 23 de Novembro de 2012

O Homem Sem Memória - 135


135 – Mesmo contra a sua vontade, o camarada José lá se decidiu a ir pregar o sermão comunista aos girinos. O Graça deu-lhe carta-branca quanto aos métodos e às estratégias pedagógicas a utilizar, apenas foi ortodoxo quanto aos conteúdos: a cartilha tinha de ser a comunista e mais nenhuma. Podia utilizar todos os materiais impressos do partido, mas até a bibliografia unitária, porque subtilmente enganadora, estava rigorosamente interdita. Nesta idade só podia ser fornecida aos camaradas pioneiros a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade. As subtilezas argumentativas ficavam para uma fase posterior. E quanto mais posterior melhor.


Forneceu-lhe mesmo uma listagem de obras a decorar, gentilmente cedida pelo camarada funcionário que a foi copiar diretamente da bibliografia recomendada à escola superior do Partido, à imagem e semelhança da escola central de quadros leninistas do Partido Comunista da União Soviética.


“Abrenúncio!”, exclamou o camarada José quando o camarada Graça lhe entregou a bibliografia aconselhada datilografada a dois espaços em folha a4.


“O Manifesto? Mas eles mal sabem ler! E mesmo que soubessem. Esse livro é ilegível. A mim quase me matou. Pobres crianças.” “Não subestimes a capacidade dos camaradas pioneiros.” “Subestimar, dizes tu? Subestimar? Como é que eles vão compreender aquele jargão todo?” “Jargão? Tu atreveste a qualificar a linguagem científica do Manifesto do Partido Comunista como jargão? És um apostata visceral.” “Eu?” “Sim, tu?” “Porque embirras com tudo o que eu digo? Fiz-te algum mal?” “E eu fiz-te algum mal a ti?” “Se me fizeste mal? Tu perguntas-me se me fizeste mal? Então como qualificas a decisão de me mandares organizar a escola de pioneiros e dar lá aulas?” “E o que é que a escola tem de mal?” “O que tem de mal? Eu faço a pergunta ao contrário, o que é que ela tem de bom?” “Perguntas-me o que é que uma escola onde se ensina o comunismo tem de bom? É isso? Será que não consegues descortinar o seu sentido revolucionário?” “E a escola tem algum significado revolucionário especial que necessite de ser descortinado?” “Tu que até tens a mania que sabes tudo não consegues enxergar o objetivo?” “Tu achas que eu tenho a mania que sei tudo?” “Tu não sabias disso?” “Disso, o quê?” “Tu não sabias que tinhas essa mania?” “Tu achas que se eu soubesse que tu me achavas convencido era teu amigo? Achas?” “Quem te julgas tu para me inquirires como se fosses um camarada dirigente?” “Ai apenas os camaradas dirigentes é que estão autorizados a fazer perguntas idiotas?” “É essa a tua contribuição para o esclarecimento da verdade? É? Chalacear com a organização e os dirigentes do Partido deixa-te contente?” “Desde quando é que colocar questões incómodas é chalacear?” “Para ti o que é que é chalacear?” “E isso interessa-te para alguma coisa?” “Olha lá, onde queres chegar com esta conversa de parvos?” “Conversa de parvos? Tu estás a chamar-me parvo?” “Até onde pretendes levar esta discussão? Não estarás a negar-te a cumprir uma tarefa diretamente incumbida pela direção regional?” “Ai foi a direção regional quem te incumbiu de me incumbires tão honrosa tarefa revolucionária?” “Achas, por acaso, que eu te colocava a executar uma tarefa revolucionária tão melindrosa sem uma decisão de um organismo superior?” “Porque será que quando te faço uma pergunta concreta tu te desculpas sempre com os de lá de cima?” “Com que intenção me insultas?” “As minhas perguntas insultam-te?” “Perguntas-me com esse desdém se as tuas perguntas me insultam?” “As minhas perguntas insultam-te?” “Tu perguntas-me com esse desdém todo se as tuas perguntas me insultam?” “As minhas perguntas insultam-te?” “Tu tens a distinta lata de me perguntares com toda essa altivez de intelectual pequeno-burguês se as tuas perguntas me insultam?” “As minhas perguntas insultam-te?” “Tu és meu camarada?” “Duvidas?” “Tu és meu camarada?” “Duvidas?” “Então porque será que nunca cumpres uma ordem dada por mim?” “Ai tu dás-me ordens?” “Tu és meu camarada?” “Porque não me perguntas antes se sou teu amigo?” “Respondias mais rápido?” “A ti interessa-te a rapidez de uma resposta ou a sua sinceridade?” “A tua adesão ao Partido foi sincera?” “Nesta ocasião, a quem é que isso interessa?” “A ti não te interessa?” “E a ti interessa-te?” “Porque é que a verdade não havia de me interessar?” “Não foste tu que disseste que a verdade só interessa se ajudar a revolução?” “E tu não concordas?” “Contigo ou com a verdade?” “Porque nunca consegues ser afirmativo?” “O teu objetivo é que eu concorde contigo?” “Não consegues responder?” “Responder para quê?” “Queres ou não queres cumprir com a decisão do coletivo partidário?” “Achas que isso ajuda a revolução?” “Pensas que eu ando a brincar às revoluções?” “Porque te indispões comigo como se eu fosse teu inimigo?” “Porque me perguntas isso?” “Porque achas que aderi ao Partido?” “Porque és uma pessoa inteligente?” “Achas?” “Porque és uma pessoa sincera?” “Achas?” “Porque és solidário?” “Achas?” “Então porque caralho foi?” “Ora adivinha lá?” “Porque queres transformar o mundo?” “Será? Olha lá, a amizade para ti conta alguma coisa?” “Porque me fazes essa pergunta?” “Queres mesmo que eu vá dar aulas aos pioneiros?” “E tu não queres?”


Depois de mais uma noite de copos e desabafos, os dois concordaram em continuar a ser amigos. Mas uma coisa o José tinha de fazer, levar para diante a escola de pioneiros. E com sucesso. Pois do seu sucesso dependia a ascensão de ambos no Partido. Por isso, o José perguntou-lhe: “E tu achas que eu quero ascender no Partido?” “E quem não quer?” “Tu queres?”


A partir daqui resolveram calar-se para podermos continuar com o nosso relato. Tanta pergunta também cansa. Não só quem as faz, mas, sobretudo, quem as lê. 


publicado por João Madureira às 07:45
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