Sexta-feira, 30 de Novembro de 2012

O Homem Sem Memória - 136

 

136 – O Graça sugeriu ao José que utilizasse como ponto de referência para a escola de pioneiros a catequese dos católicos, ou, ainda melhor, as madrassas islâmicas onde as crianças memorizam o alcorão. O objetivo saltava à vista, pois é dessas escolas de onde saem os militantes de Alá mais revolucionários e fundamentalistas. Os comunistas também têm de ser capazes de educar nas suas escolas os revolucionários do futuro. E quanto mais cedo essa intervenção ideológica se fizer melhor sucedida será.


O camarada José lá foi para a sua escola de pioneiros com o mesmo entusiasmo com que os presos políticos na URSS iam para o Gulag. Mas uma coisa era colocarem-no à frente de uma turma da catequese comunista, outra, bem diferente, era obrigá-lo a administrar única e exclusivamente conhecimentos dos quais já começava a duvidar. Por isso, esqueceu as orientações políticas e ideológicas do Graça e do camarada funcionário e resolveu ser ele próprio a delinear o currículo. Perdido por cem…


Aceitou incluir o ensino de A Internacional e outras canções revolucionárias, condescendeu em obrigar a decorar o Manifesto Comunista aos camaradas pioneiros, mas decidiu, por sua própria conta e risco, fazer também da escolinha um centro de escrita criativa. Teimas e desvios ideológicos que lhe iriam sair caros no futuro.


Ensinou-lhes regras básicas de agitação e propaganda, truques para vender A Verdade, como por exemplo começarem a chorar e a acusarem os que se recusavam a comprar a voz da classe operária de reacionários, anticomunistas primários e inimigos da liberdade. Adestrou-os a levantar o punho direito enquanto gritavam palavras de ordem, pois o esquerdo era gesto dos traidores socialistas. Também lhes ensinou jogos populares, canções de roda, lengalengas, anedotas e outras coisas mais ao gosto popular. Mas no que porfiou mais foi na escrita criativa.


Pediu-lhes que escrevessem tudo aquilo que pensavam. E a maioria escreveu, como mais à frente veremos. E disse-lhes que não ligassem muito à pontuação, pois ela é um elemento limitador do desenvolvimento das ideias mais criativas. Mais tarde, José Saramago iria seguir esse caminho com o sucesso que todos conhecemos.


A sua primeira proposta foi corriqueira, mas honesta. Sugeriu que escrevessem um texto subordinado ao título: “O que quero ser quando for grande”. Eles, os camaradas pioneiros, pobres coitados, torceram de imediato o nariz pois essa era o tipo de proposta em que a professora da primária era useira e vezeira. Mas ele disse-lhes que ali na escola dos pioneiros tinham liberdade para escreverem aquilo que quisessem, desde que fosse genuíno.


“E o que é que quer dizer «genuíno»?”, perguntou a camarada pioneira Lídia com a sua curiosidade pequeno-burguesa. O José explicou-lhe o significado, mas avisou que esse tipo de perguntas era mais para a escola oficial. Na escolinha dos pioneiros deviam prestar mais atenção a outras coisas. A semântica podiam-na descobrir pelo contexto.


Novamente a camarada pioneira Lídia, com a sua impertinência infantil misturada com o seu tipo de educação pequeno-burguesa, perguntou qual o significado das palavras «semântica» e «contexto». Ele tornou a insistir na necessidade do «contexto» para perceber a «semântica», mas que o mais importante era tentar jogar com as palavras para se construírem frases eficazes e com essas mesmas frases construírem bons textos que depois podiam utilizar para compor obras que pudessem influenciar a revolução e abrir horizontes ao nosso povo, que tão carenciado andava deles. Aqui a camarada pioneira Lídia, voltou a perguntar o que queria dizer «carenciado», pois não entendia a sua «semântica» nem atinava com o «contexto».


Nesta altura, o camarada pioneiro João também resolveu entrar na discussão e questionou o camarada professor José sobre o que queria dizer com a expressão «abrir horizontes», pois, ao que sabia, os horizontes não se podem abrir pois eles estão abertos por natureza.


A camarada pioneira Lídia – porque não ia muito ao partido… desculpem, à bola, com o camarada pioneiro João, pois, apesar de serem filhos de dois casais de professores de educação física, davam-se quase como Estaline e o Lenine nos últimos tempos de vida de Vladimir Ilitch Ulianov – contrapôs que isso era a modos que uma forma poética, e marxista-leninista, de dizer que os livros revolucionários que pretendiam escrever iam iluminar o caminho que o povo trabalhador tinha de percorrer até ao socialismo. Mas o camarada pioneiro João, não querendo ficar para trás no poder de argumentação, contrapôs que a expressão utilizada por ela (“ela, não”, avisou a Lídia, “camarada pioneira Lídia, se fazes favor, e também chefe de turma”) era incorreta pois não é um caminho o que vai conduzir o nosso povo ao socialismo, mas antes uma estrada alcatroada.


O José, habituado que estava a este tipo de discussões entre militantes, deixou que a controvérsia continuasse, pois apesar de chata, interrompê-la poderia desencadear uma luta entre fações dentro do partido, facto que podia desencadear uma onda de dissidência da qual iria inevitavelmente ser responsabilizado. Ora ele não estava para esse tipo de coisas. A sua ficha já estava repleta de informações pouca abonatórias quanto à sua firmeza ideológica e à sua quase total incapacidade para o trabalho unitário.


Vendo a discussão tomar ares de polémica ideológica, o camarada pioneiro Luís, filho do camarada funcionário, resolveu vir à liça e argumentar que o que verdadeiramente nos vai levar ao socialismo não é um caminho de terra, nem uma estrada alcatroada, mas antes uma autoestrada bem asfaltada.


“E porquê uma autoestrada asfaltada?”, perguntou curioso o camarada professor. Ao que o camarada pioneiro Luís, filho do camarada funcionário, respondeu ao camarada professor José: “Pois porque na estrada cruzam-se os carros em duas direções opostas, sugerindo que enquanto um povo vai, outro vem, o que não está nada de acordo com o sentido único do socialismo. Caras ao socialismo só podemos ir numa direção. Quem vai e volta, volta e vai são os traidores socialistas burgueses. Os comunistas quando se dirigem para o socialismo fazem-no num só sentido, em via única. Daí a sugestão das autoestradas. Mas concordo que a imagem da estrada alcatroada é muito melhor do que a de um caminho…”


Sentindo-se mal interpretada, a camarada pioneira Lídia exprimiu que quando falou em “iluminar o caminho do socialismo” apenas queria utilizar uma figura de estilo que significasse o “sentido da história” e não um caminho feito de terra e pó por onde caminham as cabras, os burros e os bois.


“E os velhos!”, lembrou o camarada pioneiro João. “E as velhas!”, recordou o camarada pioneiro Luís. “E os burros!”, insistiu a camarada pioneira Lídia. “Estás a chamar-me burro?”, perguntou o camarada pioneiro João à camarada pioneira Lídia. “Porquê, achas-te esperto?”, perguntou a camarada pioneira Lídia como quem responde. “Se eu sou burro, tu és cabra.”


Vendo a discussão descambar para o insulto, mesmo que infantil, o José bateu com a mão na mesa e disse que estava na hora do recreio e lembrou que um camarada pioneiro não chama nomes aos outros camaradas pioneiros. Os comunistas não se insultam, não discutem, apenas trocam pontos de vista. “E escolham bem as brincadeiras! Façam do vosso recreio também um momento de aprendizagem e sã camaradagem.”


O camarada pioneiro Luís perguntou se podiam brincar à guerra de guerrilhas com as armas de plástico. Ele disse que sim. Perguntou-lhe se podia fazer de Che Guevara. Ele disse que sim. Perguntou-lhe se lhe podia emprestar o charuto de plástico. Ele respondeu que não. Que fumar não é próprio de crianças. “Nem na brincadeira?”, perguntou o camarada pioneiro Luís. “Não devemos brincar com coisas sérias”, respondeu o camarada professor José. “Mas brincamos às revoluções!”, observou novamente com muita acutilância o camarada pioneiro Luís. “Já lá para fora, ou a guerra de guerrilhas acaba mesmo antes de começar.” “E qual é o meu papel?”, questionou a camarada pioneira Lídia. “Olha, podes fazer de camarada companheira do camarada Fidel”, sugeriu o camarada José apontando o João que já lá vinha todo enfarpelado de verde oliva, com a sua metralhadora a tiracolo, os seus óculos e as suas longas barbas. “Nem morta! Antes reacionária que companheira daquele trotskista.” “Mas o camarada Fidel nunca foi trotskista”, observou corretamente o camarada professor José. “Isso sei eu. Mas não me estava a referir ao camarada comandante Fidel, mas sim ao camarada pioneiro João.” Ao que o camarada seu professor respondeu: “Não deves insultar dessa forma um teu camarada pioneiro. É muito feio.” “Olha, camarada, sendo assim então prefiro ficar aqui dentro na sala a memorizar e recitar poemas do Ary dos Santos para a festa de Natal.”


Mesmo sem querer, o camarada José riu-se.

 


publicado por João Madureira às 07:45
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